![]() ![]() ![]() | “A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original” - Albert Einstein | |||
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Memes, uma crítica Cultura é evolução memética?
para a querida Michelle! (que, aliás, ______________________
A problemática dos memes é complexa e confusa. E eu penso que esta é uma das razões para a memética levar muito mais crédito do que merece: as pessoas não a compreendem muito bem. Por isso, faço questão de começar do começo do começo do começo.
O que a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, tem de mais?
“Se alguém achar que um design tão complexo não clama por uma explicação, eu desisto...”
É com esta frase que, em O Relojoeiro Cego, o zoólogo e evolucionista Richard Dawkins tenta, de forma devidamente desesperada, chamar a atenção do leitor para um mistério assombroso: de onde vem o design da vida? É que a maioria das pessoas parece não ver grande coisa na existência de um animal. Se uma TV aparecesse do nada no deserto, ficariam boquiabertas. Mas um animal, cujo design é zilhões de vezes mais complexo, isto as pessoas acham "natural". Se distraem porque o animal tem dois pais e quatro avós, e assim por diante – mas como tudo começou? O mistério fica intacto. Como curá-las desta miopia? Talvez mostrando os fatos de forma grosseira e sem rodeios.
Então veja no que a matéria inanimada, sozinha, se transformou:
Chocado, enfim?
Se sim, prossiga. Se não, releia tudo, e repita, até se chocar.
O problema, é claro, é que um ovo se quebrando é algo normal, mas um omelete espatifado no chão não costuma virar um ovo inteiro. Aquilo que está organizado, que possui design, facilmente se desorganiza. Mas o que é caótico, que se soubesse, jamais se transforma em algo ordenado.
Pois bem, a Teoria da Evolução darwiniana fez nada mais, nada menos, do que nos explicar como o absurdo acima se deu. Claro, não uma pedra virando tigre. Mas Darwin descobriu o único meio até hoje conhecido de o caos se auto-organizar, de o simples se tornar complexo – em pequenas etapas, com os "filhos" levemente diferentes dos "pais" (estou falando de coisas mais toscas que vírus e de nós, humanos, também), ao longo de bilhões de anos. Aquela história: abiogênese, pedaços de matéria que se copiam, seleção natural. Caso você não faça idéia dos detalhes, dê um pulo na terceira parte, aqui.
Quer saber? Esta é a descoberta mais incrível já feita até hoje!
Mas será que, com isso, todo o design do universo já está explicado? Bem, já se repetiu muitas vezes que nada no universo possui um design tão complexo quanto o cérebro humano, que é produto da evolução. Mas há uma coisa mais complexa, claro: a explosiva interação de cérebros que ocorre na sociedade. Isto é, a cultura.
Muitos vêem nisso outro mistério assombroso:
Saímos da mais perfeita falta de interação para uma avalanche de todo tipo de troca de informação, passando no meio do caminho pelo ainda pouco compreendido surgimento da linguagem, que nos possibilitou fazer cópias de nossas idéias de forma jamais vista. E depois veio a escrita, as impressoras, os jornais, o rádio, a TV e a internet. E com todas estas informações copiadas, mais design, muito design: teorias filosóficas e científicas, religiões, tratados matemáticos, tradições culturais, modas, teatro, mapas, receitas, arquitetura, música, sistemas éticos, transportes, adereços, tabus, etc.
Como este outro grau de design, enormemente maior, apareceu?
Há três respostas. O design da cultura é...
Ciências sociais: uma força mágica que molda os homens.(*)
Psicologia evolutiva: o resultado da interação das pessoas, com seus cérebros e instintos evoluídos por seleção natural de genes.
Memética: uma estrutura cujo design, assim como o design dos seres vivos, também evoluiu por seleção natural – porém não seleção entre genes, mas sim seleção entre memes.
(*) Vão dizer que não fiz justiça ao século de ciências sociais. Bom, se este é o crime, sou réu confesso. E aqui não é lugar pra falar disso. Meu alvo é a explicação memética.
Bom, “meme” é a suposta “unidade de informação cultural” passível de ser copiada, em analogia com “gene”, que é a unidade da seleção natural biológica. Assim como um gene para olhos verdes se difunde no ambiente através de cópias bem sucedidas, porque olhos verdes são julgados atraentes e, portanto, levam ao sexo (= reprodução = cópia de genes), também um meme como “4 8 15 16 23 42” – a seqüência numérica misteriosa de Lost – se difunde entre as mentes humanas através de suas cópias, devido a seu apelo à curiosidade, por exemplo.
A memética pretende ser o estudo desse processo de informações que se copiam. E hoje ela possui três ambições principais: uma modesta e pouco original, que é a de identificar padrões epidemiológicos na difusão de idéias e padrões culturais; outra radical e nada plausível, que é a de explicar a evolução da cultura com base num processo de seleção natural; e uma terceira megalomaníaca e certamente errada, que é a de explicar a própria evolução do cérebro, ou melhor, dos módulos mentais relacionados à cultura.
Tudo isto acaba sendo bem confuso e, assim, se tornou comum ver os defensores da memética argumentando a favor da segunda ambição com idéias que só sustentam a primeira. Eis que tudo parece plausível, sem ser.
Analisemos, uma a uma, as ambições da memética.
Epidemiologia
De fato, é enfatizando a realidade da replicação, o fato de que cópias ocorrem, que o memeticista soa mais plausível: músicas são copiadas, cortes de cabelo imitados, piadas repassadas, etc. E tudo isso são memes, claro. A seguir, tais memes realmente competem – por espaço e tempo nas mentes humanas – com outros tipos de memes. Fatalmente uns tipos prevalecem, outros caem no esquecimento.
Se tivermos variedade de memes, e se as variedades diferem em sua capacidade de se proliferar através de cópias, então já sabemos que haverá tipos de memes que se alastram mais rápido por aí, como vírus. Já chegamos, então, à primeira ambição da memética: identificar padrões epidemiológicos. E isto é apenas um caso de saber o que beneficia certos memes, em detrimentos de outros. Um caso de saber o que é exigido pelo ambiente dentro do qual tais memes competem, e tal ambiente é a selva de cérebros humana – no fim, trata-se apenas de saber como a mente funciona.
Se o cérebro é projetado, aliás pelos genes, para ter interesse em informações verdadeiras (e não meramente em informações), esta é toda a explicação de que precisamos para o sucesso do meme “e = mc²”, e o insucesso do meme “éter” – são memes que competem num ambiente onde a adequação aos fatos é que determina o que será copiado. Essa é uma explicação obviamente modesta já que, como salienta o cientista cognitivo Steven Pinker, pode explicar o sucesso de alguns memes, mas não sua origem.
Aliás, como espero que ficará claro, a origem do meme “e = mc²” está na inteligência de Albert Einstein em contato com a realidade, e não num processo de seleção cumulativa de características meméticas cada vez mais e mais eficazes em se copiar.
Mas mesmo a explicação modesta sobre o sucesso dos memes é pouco original, enquanto “explicação memética” dos fatos, já que tudo o que se faz é enfeitar uma explicação puramente epidemiológica, do tipo que serviria para qualquer doença, com o esotérico e pseudo-explicativo termo “meme”.
Afinal, os tais “memes” são exatamente como os vírus de computador: possuem variedade, cada tipo se copia com um grau específico de eficiência, e nada mais. Tudo o que funcionar assim, de cantos de pássaro à prevalência da matéria sobre a antimatéria, da propagação de doenças às versões da Bíblia, estará sujeito à lógica da epidemiologia – sendo os itens da cultura humana apenas um caso particular.
A razão de por que um dado vírus, em vez de outro, se propaga com sucesso é tão basicamente epidemiológica como a exposta há pouco, sobre memes: por exemplo, se a capacidade de processamento das máquinas for baixa, isto explica porque vírus leves se propagam mais que vírus pesados. É trivial e óbvio. E é epidemiologia, não “memética” – toda a “contribuição” da memética, neste caso, é gratuitamente rotular com outro nome os itens passíveis de cópia que, por acaso, são itens da cultura humana.
A lógica da epidemiologia é simples, universal e não diz nada de especial sobre o caso particular dos replicadores culturais.
*****
Daniel Dennett, filósofo que é provavelmente o maior entusiasta dos memes, ainda tenta dar relevância à memética enquanto epidemiologia, quando sugere que esta pode ser um conduto para uma compreensão maior da mente humana: “O que há nos acrônimos, ou nas rimas e slogans ‘animados’ que os fazem ter tanto sucesso nas competições que ocorrem dentro da mente humana?” Mas isto pode ser tão inócuo quanto perguntar por que Jesus morreu aos 33 anos, em vez de aos 27 ou 54: cérebros precisam possuir alguma estrutura específica, portanto algum tipo de informação precisará impressionar mais esta estrutura em particular tanto quanto, graças às estruturas diversas do Linux e do XP, famílias de erros diferentes serão mais típicas de cada um.
De todo modo, a pergunta não deveria ser “o que há nos slogans que os faz ter sucesso na mente humana”, mas, em vez disso, “o que há na mente humana – seja acidental ou adaptativo – que faz os slogans terem sucesso?”.
Entendamos o cérebro para compreender o que ele replica.
E não o contrário.
Cultura via seleção natural
O coração da memética é a idéia de que os memes não apenas possuem variedades e se copiam, como vírus de computador, mas de que além disso eles possuem o necessário para gerar um processo evolutivo de seleção natural.
No caso dos vírus digitais, as variedades surgem cada vez que um hacker cria um novo vírus. No caso dos memes, a idéia é que eles funcionam como os genes, isto é, que suas variedades não são criadas, mas procedem dos erros de cópia, surgindo como mutações aleatórias. Surgiriam então novos tipos de memes que, por sua vez, gerariam outras cópias. E, claro, também haveria erros nessas novas cópias, gerando mais tipos novos de memes. E assim por diante.
Como os erros de cópia são aleatórios, algumas memes novos surgidos acabam tendo um potencial maior de se copiar e, por isso mesmo, predominam na cultura (pense numa mutação dessas: um boné posto errado virando moda, todos copiam o estilo; depois alguém erra de novo, e surge outra moda, etc.) – e aí continuarão gerando cópias mutantes que, por sua vez, reiniciam todo o processo. No fim, a cultura seria resultado desta seleção natural entre memes cada vez mais sofisticados em se propagar em detrimento de outros memes.
É exatamente isto o que aconteceu com os primeiros replicadores da vida, o que acontece com os genes atuais e com os vírus biológicos. Por outro lado, não é isto o que acontece com os vírus de computador e, vou argumentar, nem com os memes.
Uma coisa a se dizer aqui, para o curioso por memes de primeira viagem, é que vou falar de cópias e reprodução como coisas idênticas. E isto porque são mesmo: quando você copia um arquivo no micro, ele teve um filho. Quando você tem um filho, você fez uma cópia dos seus genes. Do ponto de vista da seleção natural, são coisas iguais. “Hereditariedade”, portanto, significa tanto que seu filho herdou seus olhos quanto que um arquivo mp3 de música herdou o chiado do seu “mp3-pai”. Aviso feito, prossigamos.
A essa altura, já deve estar claro que, apesar do impressionismo que causa, o mero fato de existirem entidades se copiando não produz, por si só, nenhuma forma de evolução – afinal, os vírus de computador não evoluem. E, por evolução, estou falando do mesmo que Susan Blackmore: “design a partir do caos sem ajuda da mente”. Ou, em outras palavras, coisas complexas surgindo de coisas simples, sem nenhuma inteligência por trás disso.
Então vejamos o que, segundo ela, são as condições suficientes para o início de um processo evolutivo:
● Hereditariedade ● Variação ● Seleção
Dito isto, em tese os memes têm que gerar um processo evolutivo. Afinal temos tudo: hereditariedade em forma de cópias, variedade dos tipos de memes e seleção entre tais variedades. Contudo, não temos seleção natural. O que há de errado aqui?
Bem, muita coisa. Vou analisar a série de problemas que está escondida nesta formulação famosa, porém simplista, das condições darwinianas. Mas adianto que o maior problema está na cegueira para o papel-chave da teleologia(*), e sobretudo de sua ausência, para todo processo de seleção natural. Esta não apenas pode e vai gerar design a partir do caos sem ajuda da mente, mas também só poderá fazê-lo sem tal ajuda!
Eis o que ficará claro em vários pontos das críticas a seguir.
(*) TELEOLOGIA é o termo filosófico que se refere à existência de objetivos ou finalidade no mundo. Tais objetivos, claro, são próprios (sobretudo) de seres humanos. Outros animais, como um macaco que claramente usa uma pedra com a finalidade de abrir um coco, também os possuem. As pessoas de fé, por sua vez, imaginam que todo o Universo é fruto da teleologia divina, isto é, dos objetivos, ou da finalidade, de Deus.
Hereditariedade
Primeiro, não basta haver hereditariedade. Isto é, não basta que as cópias existentes criem novas cópias. É preciso uma hereditariedade que 1) seja ao mesmo tempo menos que perfeita, de modo a gerar algumas cópias erradas (diferentes, mutantes) ou, o que é o mesmo, descendência variada; e 2) ainda bastante próxima da perfeição, de modo que a descendência mutante que supere alguma desvantagem retenha ainda o suficiente das qualidades já conquistadas pela espécie – do contrário, todos os ganhos virão acompanhados de falhas que não deixam o pacote compensar, e toda herança, incluso aquela que funciona bem (adaptativa), se perderá em poucas gerações.
O que é necessário, portanto, são cópias semiperfeitas.
Como esclarece o próprio Dennett:
“A evolução darwiniana depende de cópias de altíssima fidelidade – cópias quase, mas não totalmente perfeitas (...). Eleve-se o ritmo de mutação só mais um pouquinho e a evolução se descontrola; a seleção natural não pode mais funcionar para garantir a aptidão no longo prazo” – A Perigosa Idéia de Darwin, p. 370
Assim, a famosa “descendência com modificação” (palavras de Darwin) não pode nem ser totalmente descendência, nem excessivamente modificação.
Cópias semiperfeitas, contudo, não são especialmente prováveis a não ser em dois casos: em sistemas de cópia razoavelmente simples, pois quanto menos partes, menos chance de haver erros dramáticos nas cópias (caso dos primeiros replicadores); ou em sistemas complexos mas azeitados por processos ativos, e nunca perfeitos, de retificação – um estágio que só se atinge a partir do primeiro caso, ou por engenharia deliberada.
É notório que os memes (pelo menos, quase todos) estão a anos-luz de tal exigência. Ou se copiam perfeitamente (digitais) ou são completamente distorcidos (mp3 com chiado, fofocas boca-a-boca). Se há uns poucos que passam por esta prova, ainda enfrentarão os problemas a seguir.
Variação
Segundo, a variação precisa provir das próprias mutações (erros de cópia), em vez de vir de fontes paralelas. Apesar de Blackmore utilizar o termo “variação”, esta em si não é suficiente. Por isso Dennett usa a composição “variação (mutação)”, deixando claro que a variação precisa vir a existir por meio das mutações, e não simplesmente vir a existir.
A razão para isto é que, se cinco variedades de vírus de computador surgiram não via mutação de vírus ancestrais, caso em que herdariam a mesma tendência crucial de gerar descendentes mutantes, mas sim via criacionismo de hackers, então não há qualquer razão para esperar que a vencedora (a mais prolífica em se copiar) gere a tal descendência com modificação. Vai apenas gerar descendência, e a tendência a produzir erros de cópia na taxa certa para permitir evolução não estará ali – a menos que o hacker tenha deliberadamente pensado nisso; mas os objetivos humanos em geral não são estes.
No fim, teremos apenas o que se chama de “seleção de um só passo”: o vírus mais adaptado aos computadores se tornará maioria, lotará os sistemas com cópias ou idênticas ou fracassadas (mutações bizarras demais, incapazes de reter apenas vantagens ou mesmo de se copiar), e é o fim da história – até que uma nova variedade, criada do zero por outro hacker, entre na briga, para outra rodada de seleção de um só passo: se ela vencer, não terá retido nada da “espécie” derrotada, e terá apenas seu próprio design inteligente como razão de seu sucesso. Nenhum design natural se acumula.
E, sim, você leu certo.
É um ponto crucial: as variedades meméticas são criacionistas.
Design inteligente, criacionismo, mutacionismo. Palavrões – com razão – dentro dos meios científicos darwinistas. Os três termos captam a idéia de que as mutações, em vez de surgirem aleatoriamente e apenas serem naturalmente selecionadas de forma automática dentro do ambiente no qual competem (um processo que só conta com as leis da física), são na verdade dirigidas, isto é, que existe uma “força” fazendo surgirem mais mutações que terão sucesso no ambiente, do que mutações fadadas ao fracasso (o que só pode ser mágica).
E, nas infames pregações do criacionismo e design inteligente, todos nós sabemos que a tal “força” é Deus. Ele intervém no processo de cópias, escolhe as mutações mais capazes de terem sucesso, com o objetivo de fazer a vida evoluir até... nós? Em geral, é o que as religiões afirmam.
Então, além do exemplo do vírus de computador, que nos sugere que é um problema para os memes, se estes se propagam com sucesso apenas graças ao design inteligente de seus criadores, já que, exatamente por isto, não estarão na taxa de mutação correta para gerar um processo evolutivo, temos um segundo problema aqui.
O que fica claro é que, para que a cultura seja um produto darwiniano, a variação e as mutações meméticas precisam ser aleatórias e não dirigidas, além de pelo problema acima, também porque, do contrário, teríamos de novo design inteligente em vez de seleção natural.
E é exatamente o que os memes possuem: design com ajuda da mente e não design a partir do caos. No caso dos genes, tal mutacionismo seria algo mágico. Seria preciso um Deus para escolher as mutações boas e as colocar no mundo – e estão todos de acordo que tal intervenção divina, se existisse, usurparia o papel da seleção natural. Se este fosse o caso, seríamos complexos e adaptados ao ambiente somente porque Deus quis, e teve a presciência e inteligência de ajustar as peças conforme seus objetivos. É a teleologia que está no centro da questão – como bem sabem os criacionistas. Já no caso dos memes, mutacionismo e design inteligente obviamente são fatos: são produtos da mente humana.
A complexidade e o design exibidos por uma boa música, por exemplo, tiveram origem na capacidade de seu autor, não num processo cego.
O ponto crucial sobre memes, portanto, é o papel da inteligência. Seleção natural é, em essência, não teleológica – não tem metas ou objetivos, pelo que foi chamada de “relojoeiro cego” por Dawkins. Quando os memeticistas alegam que a cultura é produto de um processo evolutivo, estão ignorando o fato de que, na verdade, ela é produto dos objetivos humanos.
Seleção
Terceiro, mesmo que tenhamos uma hereditariedade bem sintonizada, da qual já decorre uma variação aleatória da descendência, a seleção ainda precisa de “tempo bom” para funcionar: não pode coexistir com uma chuva ácida de intervenções caprichosas de agentes teleológicos, que desviem seu curso cego rumo à adaptação. E isso pelo simples motivo de que a seleção natural, sendo um processo sem inteligência ou finalidade ativa, não tem meios de reagir a entidades motivadas, e com capacidade de presciência e análise.
O resultado aí seria uma “evolução” errática, a cada passo atravancada pelo (do ponto de vista memético) “liquidificador” da inteligência humana. Imagine se, a meio caminho entre a célula fotossensível e o olho complexo, a inteligência divina interviesse centenas de vezes no processo, com seus caprichos e objetivos pessoais (que em geral nada teriam a ver com maximizar cópias “intrinsecamente boas em se copiar” – leia-se: com a taxa de mutação bem sintonizada). A seleção iria pro ralo. Pois é exatamente isso o que os memes sofrem por causa da inteligência humana.
Digamos, por exemplo, que aquela “cepa” de nonsenses religiosos até iria se propagar, gerando filhotes de um nonsense ainda mais adaptativo, num processo cego de seleção cumulativa de absurdos ultradifusíveis entre cérebros humanos, mas... Mas os nonsenses, tanto a cepa “puro sangue” (santíssima trindade) quanto as cepas “vira-latas” (ir ao paraíso no Hale-Bopp), são alvo de toda sorte de desvios teleológicos, tantos quantos são os objetivos humanos que as têm como obstáculo, meio ou fim, copiando-as ativamente, ou podando suas cópias, num caleidoscópio de direções e fins totalmente desvinculado de quaisquer características intrínsecas das próprias cepas. Após o processo todo, qualquer cepa “puro sangue” será, no máximo, mais uma espécie passiva de vaca, cuja evolução está travada e subjugada pelos objetivos humanos.
No fim só haverá cópias fiéis de tudo o que serve aos nossos objetivos, enquanto indivíduos e espécie, e nenhuma evolução darwiniana. Na melhor das hipóteses, haverá seleção artificial ditada por nós – mas é bom lembrar que isto ocorre com cães e vacas por que é impossível deter seu mecanismo natural evolutivo genético, que se consolidou ao longo de milhões de anos e agora está presente em cada novo membro destas espécies. Os memes não possuem tal maquinário especializado.
O ponto é que “seleção”, afinal, é apenas outro modo de dizer competição, aptidão diferencial das variedades. Se todos os torneios naturais foram perturbados por objetivos positivos rumo a outras direções que não o mero potencial de se replicar, então a adaptação será destroçada por esse ruído. A seleção natural não apenas é não-teleológica: ela é antiteleológica. Não pode coexistir com a teleologia.
O próprio Dennett resvala nesse fato em Quebrando o Encanto quando, ao especular sobre a possível origem por seleção natural dos projetos de embarcações e outros artefatos humanos, destaca a mão na roda que é a ausência de objetivos e metas conscientes:
“Alguns deles [construtores] conseguem dar explicações articuladas e precisas sobre exatamente por que insistem em que seus vasos sejam simétricos, explicações que qualquer arquiteto naval (...) aplaudiria; mas outros têm uma resposta simples: construímos barcos assim porque esse é o jeito como sempre os construímos. Eles copiam os projetos de seus pais e avós, que fizeram o mesmo na época deles (...). Se construtores de barcos, ceramistas ou cantores têm o hábito de copiar velhos projetos ‘religiosamente’, eles podem preservar características do projeto durante centenas ou milhares de anos. A cópia humana é mais ou menos variável, de modo que surgirão muitas vezes ligeiras variações nas cópias, e embora a maior parte dessas variações desapareça logo – já que são consideradas defeituosas, ‘de segunda’ ou, de qualquer modo, pouco populares com os fregueses –, de vez em quando uma variação vai engendrar uma nova linhagem, em algum sentido uma melhora ou inovação para a qual existe um ‘nicho de mercado’. E, olhe só, sem que ninguém se dê conta ou tenha intenção [sem teleologia], esse processo relativamente desatento durante longos períodos pode moldar projetos a um grau maravilhoso, otimizando-os para condições locais.” – p. 88
Aqui fica evidente que agir com base em razões e objetivos é algo que, a cada momento, redireciona a seleção natural de memes para fora dos trilhos: o resultado é uma seleção consciente baseada em objetivos caprichosos, objetivos aos quais qualquer tendência inerente de auto-replicação prolífica terá de se submeter, sendo travada.
A propósito, a lógica de Dennett acima esquece algo: é verdade que a transmissão “religiosa” de informação, incluindo a transmissão das próprias religiões, é universal nas culturas humanas – mas o escrutínio da razão (entre outros fatores de desvio) também é, e está sempre coexistindo com as tendências de cópia automática, atravancando-as.
Corrijo, pois, a lista de Susan Blackmore. Em vez de simplesmente:
● Hereditariedade ● Variação ● Seleção
A seleção natural precisa de:
● Hereditariedade semiperfeita ● Variação via mutações e aleatória ● Seleção sem intervenção teleológica
Essa nova lista, contudo, é exigente demais para os memes.
Deve ser consenso que a maioria absoluta da descendência memética está longe de ser semiperfeita – ou é perfeita (cópias digitais) ou bizarra (mp3 com chiado). Mas há de existir uma estreita faixa de hereditariedade semiperfeita – o que talvez inclua os idiomas humanos. Neste ponto, é verdade, teremos uma variação aleatória, e oriunda das mutações, porém na maioria das vezes coexistindo com variações dirigidas e paralelamente criadas. E estas, como são fruto de um design deliberado no sentido de agradar aos cérebros humanos, geralmente se saem melhor na competição (são selecionadas), interrompendo o processo evolutivo com uma seca seleção de um só passo.
A seleção natural, diante da teleologia, não passa de uma espécie confinada de ovelhas de pasto. Como podia ser diferente? Ela é um processo cego, incapaz de reagir. Uma vez que existe teleologia, esta vai produzir design de forma deliberada, conforme seus objetivos. Isso decorre diretamente de agentes teleológicos com materiais à mão. Agora suas criações especiais competirão com larga vantagem contra qualquer variedade mutante que timidamente surgir num erro de cópia mal sintonizado. Se houver seleção natural por trás do processo, ela imediatamente se torna marginal. Só funciona na ausência de intervenções de seres com objetivos.
A cultura, mais uma vez, não é fruto de um processo de seleção natural análogo ao processo biológico, mas sim o produto direto e indireto das inteligências e instintos humanos em interação – estes que, agora sim, são frutos da corrida evolutiva genética, isto é, da seleção natural biológica.
Não parece haver qualquer seleção natural relevante entre memes.
Memes moldando a evolução do cérebro
Bem-vindos à versão heróica (na verdade, suicida) da memética!
Pra começar, é preciso distinguir a idéia de evolução memética do cérebro de outra, sempre confundida com esta, que é a idéia de que os cérebros são modificados por memes não de forma evolutiva, geração após geração, mas do zero, a cada geração, a cada indivíduo – é esta posição que Dennett esposa em A Perigosa Idéia de Darwin, e que muitos tomaram como a radical defesa de que a evolução genética do cérebro foi, de algum modo, exaptada (grosso modo, “seqüestrada”) por memes.
A proposta de Dennett, aliás, é apenas óbvia: claro que o cérebro é modificado por memes! Se não estivéssemos chamando “informação” de “memes”, seria óbvio o quanto isto é trivial.
Já a evolução memética do cérebro é uma idéia muito mais absurda. Implica que os memes conspiraram para remodelar a receita genética do cérebro, de modo que os genes construam cérebros voltados para maximizar a replicação memética – o que seria a razão de termos adquirido a linguagem, por exemplo. Susan Blackmore está disposta a dar o salto:
“Há uma corrida armamentista entre os genes, que querem humanos com cérebros pequenos e econômicos, não perdendo tempo copiando tudo isso, e os memes, como os sons que as pessoas fazem e copiam – em outras palavras, a linguagem – competindo para tornar o cérebro cada vez maior.” – TED Talk
Agora imagine memes tendo um poder tão grande a ponto de fazer surgir a linguagem, quando esta sequer existia para comunicá-los!
Não, isso é absurdo. Os genes podem afetar o cérebro porque, pra eles, o cérebro não é o ambiente de propagação, mas sim o instrumento com o qual encaram tal ambiente – que, no caso deles, é a Terra. Os genes possuem as chaves da construção cerebral, pra começo de conversa. De fato, todo o design do cérebro é explicável em termos do objetivo genético de se copiar.
Mas lembre que, para os memes, o cérebro não é um instrumento para lidar com o ambiente, e sim o próprio ambiente de propagação. Então por que os memes poderiam e deveriam mudar o cérebro? Para se copiarem melhor? Isso equivaleria aos genes serem capazes de forjar uma conspiração para remodelar a paisagem, em prol da propagação genética. E claro que eles não podem fazer isso, porque não podem prever a conseqüência de seus atos. Tudo o que podem fazer é descobrir como, num ambiente fixo e hostil, se propagarem da melhor forma. O geólogo não precisa consultar o evolucionista pra entender os padrões geológicos. Do mesmo modo, o neurologista não precisa consultar o memeticista pra entender os padrões cerebrais (embora precise consultar o evolucionista, sem dúvida).
Há uma solução pra lá de exótica para esse problema: os memes remodelariam o cérebro por via indireta, levando seus “hospedeiros” a modificar o ambiente, de modo que isso revertesse em uma pressão seletiva sobre os genes que, por sua vez, seriam levados a evoluir de modo a, por fim, beneficiar a replicação memética. Ora, sem dúvida a alteração do ambiente vai retornar alguma diferença na pressão seletiva que os genes sofrem, mas: 1) não há razão alguma pra pensar que essa pressão se dê de modo a beneficiar memes; 2) a alteração do ambiente é, de todo modo, severamente limitada; e 3) mesmo que os memes puxem as cordas do ambiente de modo a forçar os genes em seu favor, os genes nunca responderiam a essa pressão seletiva a tempo: o início da explosão cultural se daria milênios após a investida memética – Nostradamus teria inveja destes memes!
É interessante, para quem é familiarizado com a discussão, saber que Dawkins critica esta idéia num texto intitulado “fenótipo estendido, mas não tanto”.
A razão geral para esta aspiração absurda da memética está no famoso (e suposto) Paradoxo de Wallace, segundo o qual as capacidades humanas vão muito além do que se poderia esperar de nossa evolução biológica. Isto me parece só uma bobagem: as supostas capacidades “extras” do nosso cérebro não passam das próprias capacidades que nos beneficiaram evolutivamente! Todas as habilidades animais (de fazer teias e diques, até voar e nadar) possuem, também, um enorme potencial que vai além do seu uso estritamente evolutivo. É só que, à diferença destas, temos inteligência o suficiente pra pensar mais em nosso prazer do que em nosso sucesso reprodutivo e, portanto, usar o potencial inexplorado de nossas habilidades para outros fins, que não meramente reproduzir e sobreviver.
*****
A popularidade dos memes (bem como o termo) surgiu com Dawkins, em O Gene Egoísta. Mais tarde ele admitiria que seu objetivo era apenas ilustrar a viabilidade do processo darwiniano ocorrer sem genes ou DNA. Já em O Relojoeiro Cego, assumindo apenas o “valor da analogia” entre seleção natural e evolução cultural, recomendou tomar cuidado com exageros. Mas em O Fenótipo Estendido renegou até mesmo a mera analogia, dizendo que o único valor do “meme” era aguçar nossa visão da seleção natural genética.
Quando comecei a produzir esta matéria, pretendia defender que a memética fosse algo perfeitamente descartável. Mas considerando o grau de nitidez que precisei adquirir, nesta empreitada, sobre o processo da seleção natural, devo sem dúvida concordar com Dawkins e fazer esta leve concessão: que os memes são, ao menos, um ótimo meio de entender os genes.
por Lauro Edison, 14 a 18 de maio de 2009
* Este texto foi adaptado de um artigo que escrevi e defendi no III-EI, um evento intelectual informal ocorrido em fevereiro.
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