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A origem e natureza material da vida • A ilusão intuitiva da alma
Quando se trata do fenômeno vida, duas perguntas são importantes. A primeira, mais comum, é: “qual a origem da vida?”. Já a segunda sequer passa pela cabeça de muitos, pois julgam já saber a resposta: “o que é a vida?”.
Este trabalho pretende ilustrar duas coisas: primeiro, a vida e sua origem são facilmente explicáveis em termos físicos e materiais: sem rodeios, não há razões para evocar uma “alma” no processo; segundo, as pessoas pensam que sabem “o que é a vida”, mas têm apenas uma noção intuitiva da mesma, que é vaga e distorcida.
A razão de tanta confusão nos debates é que as intuições humanas, moldadas há centenas de milhares de anos nas savanas africanas, estão obsoletas e geram uma série de erros de raciocínio. Corrigir tais intuições é o objetivo de todo o restante a seguir.
3. O Mecanismo da Origem da Vida 5. A Intuição Animista da Vida 6. A Alma 7. Algum Fantasma entra na Máquina? 8. A Vida Está na Complexidade Física dos Organismos 9. A Zona Nebulosa do Espectro 10. Por que Nossas Intuições Falham? 12. A Vida que Realmente Quer Coisas
1. A Importância da Questão <<
Para um racionalista é desolador viver num mundo onde, 150 anos após Darwin, e após um século de fatos inquestionáveis, mais da metade da cultura dominante do planeta acredita na versão criacionista da origem da vida e, além disso, que é necessário um “fantasma mágico” envolvendo o corpo para explicar os seres vivos.
Muita coisa está em jogo. Não apenas sérias decisões sobre aborto, eutanásia e clonagem. Governos, mesmo aqui no Brasil, estão impondo o estudo do criacionismo às crianças. A maioria das pessoas, com uma mentalidade pré-filosófica, insiste numa “igualdade de condições” para o estudo do criacionismo e do evolucionismo. Elas têm o saudável, mas mal orientado, desejo de ser “imparciais”.
São incapazes de compreender que o criacionismo é pura especulação delirante, que o evolucionismo está completamente provado e, o mais importante, que “impor a verdade” aos estudantes é algo tão ruim quanto “impor o almoço” às pessoas esfomeadas mas que, na mesma analogia, impor a mentira é “tão bom” quanto impor a fome.
Não. Ninguém quer que seus filhos aprendam numerologia em vez de matemática, ou alquimia em vez de química. As pessoas só defendem a pseudociência criacionista por causa da religião. Pois é: muitos dogmas religiosos também estão em jogo aqui. Mas a religião, mesmo descontadas todas as tragédias que já provocou, ainda seria, como as outras formas de ilusão, um grande mal. E é por isso que a verdade sobre a vida e sua origem, ao abalar decisivamente muitos dogmas religiosos, torna-se uma verdade ainda mais importante de ser defendida.
Penso que a verdade científica, na medida em que chegar às pessoas, tornará a religião cada vez mais implausível e desnecessária para o senso comum. Como a vida religiosa é conformista, culpada, avessa ao prazer, descerebrada! E se há boas exceções em todos esses pontos, não há exceção aqui: a vida religiosa é baseada em ilusões. É um prazer, pra mim, contribuir no processo de combater a religião com a verdade.
– Revista Veja, 9 de maio de 2007
A síntese neodarwinista está correta.
Os especialistas discordam sobre pe-quenos pontos, relativamente desimportan-tes, e há detalhes da teoria – a origem da vida, por exemplo – para os quais há mais de uma versão explicativa. O importante é que, como insiste o filósofo Daniel Dennett em A Perigosa Idéia de Darwin, tanto faz quem tenha razão no final dos debates científicos. A teoria moderna da seleção natural, com sua montanha de provas incontestáveis (abundantes fósseis, DNA universal, manipulação genética em laboratório, semelhança entre fetos de várias espécies, etc.), seguirá robusta e inabalada.
As pessoas que têm apenas uma vaga noção da teoria são levadas, por suas próprias intuições, a fazer uma série de perguntas e críticas absurdas, fomentando ainda mais sua convicção de que a seleção natural é “apenas uma teoria” ou “fé científica”. Muita bobagem está sendo dita por aí. Por isso, vou tentar mostrar, passo a passo, o mecanismo da seleção natural, tentando desfazer todas as prováveis confusões pelo caminho. Vou seguir o caminho do biólogo Richard Dawkins, no clássico O Gene Egoísta*.
* Se puder leia o livro: não há leitura mais perfeita (e empolgante) para apreender corretamente a seleção natural, e vou evitar copiar (e, portanto, estragar) as surpresas e sacadas brilhantes que há no livro.
A propósito, dizer que a Teoria da Evolução é “apenas uma teoria” não passa de uma gafe: e a Teoria da Relatividade, de Einstein, também plenamente comprovada? Tecnicamente falando - e não no sentido vulgar - a palavra "teoria" representa o grau máximo de confirmação de uma hipótese científica.
3. O Mecanismo da Origem da Vida <<
Para dizer de modo simples: há 4 bilhões de anos a Terra sequer tinha oxigênio e seus mares eram infestados por certos tipos de átomos, trilhões deles.
É um fato da física que os átomos se atraem, conforme seus tipos e posições, segundo leis estabelecidas. Posto isso, uma molécula capaz de se copiar, uma “replicadora”, é formada por átomos cuja disposição geométrica, ao atrair os outros átomos soltos no ambiente, os vai organizando, um por um, segundo o padrão da molécula original. Partes iguais atraindo partes iguais, por exemplo. É apenas isso.
O processo está muito longe de ser tão simples quanto a seqüência abaixo (que pra começo de conversa é bidimensional) faz parecer, mas ela ilustra bem o princípio básico (não pule isto, é bem fácil):
1. Aqui vemos, grosso modo, uma molécula (E) cercada de átomos. 2. A estrutura dela, de acordo com as leis da física e da química, atrai certos tipos de átomos para as posições vistas na imagem, formando um padrão qualquer. Mas... 3. ...no caso da molécula replicadora, o padrão que ela sempre forma é, por acaso, exatamente um espelho de si mesma. 4. A replicadora acaba de concretizar sua cópia. 5. A matriz e a cópia se separam, ambas agora podendo fazer outras cópias. * Na parte inferior uma molécula não replicadora vagava ao léu...
Nenhum cientista nega que o surgimento da primeira replicadora tenha sido algo absurdamente improvável, mas somente do ponto de vista humano. O que os criacionistas esquecem é que o número de átomos, o tempo disponível e o tamanho do Universo superam toda dificuldade. Ganhar na Mega-Sena, por exemplo, é absurdamente improvável na escala humana, mas se você apostasse um bilhete por dia, em cada planeta do Universo, durante um bilhão de anos, ganharia muitas vezes.
Continuando, uma vez que esta primeira replicadora surgiu, tudo mudou: ela montou uma cópia com os átomos à deriva (como vimos acima), e ambas fabricaram inúmeras outras cópias que, do mesmo modo, fabricaram outras ainda.
Só que algumas cópias não eram perfeitas. Havia erros no processo, gerando “cópias mutantes”. E é importante dizer agora que, com trilhões de replicadores boiando durante um bilhão de anos, mutantes surgem muitas vezes, de todos os tipos, e a grande maioria são apenas aberrações incapazes de fazer cópias, ou que fazem cópias de um modo pior. A replicação é cega.
Mas, muito raramente, alguma dessas “cópias mutantes” ganhava, por acaso, a capacidade de se replicar mais rapidamente do que as outras: enquanto a vasta maioria das replicadoras fazia uma cópia por hora, esta “mutante” era capaz de fazer uma cópia por minuto – e cada uma de suas cópias, é claro, “nascia” com a mesma capacidade.
Ou seja: agora temos os replicadores do Tipo A, fazendo uma cópia por hora; e os do Tipo B, fazendo uma cópia por minuto. Na primeira hora, portanto, cada indivíduo Tipo A fabricará apenas uma Cópia A, mas cada indivíduo Tipo B fabricará sessenta Cópias B! Dizemos, então, que a Espécie B foi “selecionada” para predominar na população – mas note que nenhuma “vontade” escolheu aumentar a Espécie B: o aumento era inevitável.
Aí está, mais cedo do que você pensava: a Seleção Natural em ação.
Mas até quando os replicadores da Espécie B vão se multiplicar?
Até quando existir “matéria-prima” para fazer mais cópias, é claro. E você já sabe qual matéria-prima é esta: os átomos à deriva. Podemos chamá-los de “alimento”. E quando este “alimento” acaba (afinal, o mar não é infinito), será que a multiplicação também acaba? De forma alguma. Os átomos que, antes, estiveram à deriva no mar, não desapareceram magicamente: agora estão nos “corpos” dos replicadores.
Cedo ou tarde surge um mutante capaz de “desmontar” os corpos dos replicadores das Espécies A e B e usar suas partes como alimento! Ele não apenas se replica, como destrói os concorrentes: passa, portanto, a predominar na população. Mas isso abre “mercado” para outra inovação de sucesso: a capacidade, antes inútil, de se defender. Este novo tipo pode assassinar sem ser assassinado. E ele pode fazer isto usando um “envoltório protetor”. E, neste caso, a seleção natural nos dá a primeira célula.
Chega, né? Esta história é longa demais: lá pelas tantas as células se tornam capazes de “cooperar” e, com isso, levam vantagem sobre as solitárias, devorando-as também e sendo, portanto, selecionadas: isto nos deixa bem perto das bactérias! A partir daí a coisa complica de verdade. Seres multicelulares e unicelulares coexistem, muitas vezes vivendo em guerra. Simples moléculas escapam do interior das células e, invadindo os organismos complexos, parasitam seu maquinário e multiplicam-se explosivamente: são os vírus. Para se defender, os organismos “criam” um mecanismo que “troca a fechadura da porta” a cada geração: é a mistura genética, isto é, o sexo.
Demora apenas umas centenas de milhões de anos até toda esta “simplicidade” evoluir para o complexo cérebro dos mamíferos. Como? Do mesmo modo cego, mecânico e automático com que o nosso simplificado “E”, lá da figura, gerou uma cópia de si. Funciona assim e ponto final. Porém se, a essa altura, você ainda estiver se perguntando “mas porque estas moléculas querem se multiplicar tanto?”, isto significa que você ainda não entendeu o espírito da coisa.
Hora de desaprender as intuições.
4. A Perplexidade Teleológica <<
Moléculas são minúsculos objetos físicos, não “querem” nada.
Esta é a famosa “perplexidade teleológica”: nossa intuição, programada nas savanas africanas há duzentos mil anos, fica indecisa entre imaginar as moléculas como objetos físicos (que apenas seguem a inércia, se movendo em linha reta e ricocheteando como bolas de bilhar) ou como “seres com mente” (que perseguem objetivos, que “querem coisas”, que têm vontade). Nossa imaginação jamais fica confortável, pois ambas as situações nos deixam perplexos:
As moléculas agem como se quisessem fazer cópias de si, mas sabemos que meros átomos não podem ter “vontade” ou “objetivos”. As moléculas não pensam e não têm “querer”. Mas, por outro lado, se as moléculas são apenas objetos físicos sem vontade, então deveriam, como “sabemos”, apenas vagar aleatoriamente – em vez de formarem bandos que se copiam! Só que, neste caso, sabemos errado. Aqui nossa intuição falha pela primeira vez.
Estamos acostumados com os objetos feitos de átomos, que na prática apenas seguem a pura inércia. Mas desconhecemos os próprios átomos! Esperamos, em nossa intuição, que os átomos sejam como bolas de bilhar, cadeiras e pedras. É por causa disso que todos ficam intrigados na primeira vez que se deparam com um ímã.
Mas os átomos, na verdade, são ainda mais contra-intuitivos que os ímãs: eles não apenas se atraem, se repelem ou se “grudam”, mas também trocam elétrons, montam cadeias geométricas em formatos diversos, trocam de posição, pra não falar em poderem ficar em dois lugares ao mesmo tempo. Se os átomos agissem “como bolas de bilhar”, apenas seguindo a inércia, não poderiam existir bolas de bilhar! E nem planetas ou pessoas.
Tendo isto em mente, não é difícil ver que, mesmo sem ter vontade alguma, as moléculas replicadoras, feitas de átomos, simplesmente fazem cópias de si, automaticamente, por força das leis da física. Os replicadores não “querem” se replicar: a causa da replicação é tão física e inevitável quanto a causa de uma parede quebrar após um tiro. É apenas um tipo de causa física com a qual a maioria de nós não está acostumada. A humanidade ignorou os átomos até, pelo menos, o século XVI, com o modelo de Galileu.
Nossas intuições sobre os movimentos dos átomos estão erradas, só isso.
Imagino que, neste ponto, muitos dirão que expliquei a origem da replicação, mas não a origem da vida. Esta é a hora de começar a perguntar: o que é vida? Mas, antes de falar da resposta correta, tratemos de desaprender a resposta intuitiva errada que brota naturalmente na mente de todos.
5. A Intuição Animista da Vida <<
Prometi ilustrar a origem da Vida, vida mesmo, com v maiúsculo, mas parece que só falei de átomos que se juntam e fazem cópias de si. Isto é “vida”? Depende de nossas convenções, apenas isso. Mas convencer você disso levará um tempo. Alguns cientistas, hoje, dividem-se entre os que consideram os vírus “vivos” e os que os consideram “apenas um grupo de átomos”. Mas esta é uma divisão em certo sentido absurda: tudo aquilo que é vivo continua sendo “apenas um grupo de átomos”, mesmo que seja um grupo absurdamente complexo. Você, leitor, é um grupo de átomos.
“Mas...”, você pensa, “há uma óbvia diferença entre eu e uma pedra: eu sou vivo, a pedra não”. Sem dúvida. Ao contrário do que você acredita, porém, a diferença entre você e uma pedra é apenas de complexidade e não de qualidade. E isto, novamente, é algo que lhe parece absurdo. Afinal, você possui uma coisa, uma propriedade que falta totalmente à pedra: a tal “Vida”.
E isto nos traz à intuição animista.
Nossa intuição também é programada para dividir o mundo entre coisas “vivas” e coisas “não-vivas”. É uma divisão obviamente eficaz: é preciso correr das leoas, mas não se deve desperdiçar energia correndo de tufos de mato que voam pela areia. Então, para nossa intuição, o que define a “vida”? Apenas o tipo de movimento do objeto, acredite. Nossa intuição classifica os movimentos dos objetos como “mera inércia”, ou como movimento “animado”.
Conheça o experimento simples dos psicólogos sociais Fritz Heider e M. Simmel (na verdade, é outra simplificação minha):
Imagine dois pontos coloridos numa tela de computador, seguindo em linha reta, ricocheteando uns nos outros, batendo nas laterais do vídeo e retornando em ângulos previsíveis. Mera inércia: eles parecem apenas frios objetos vagando aleatoriamente no espaço.
Mas uma certa mudança em seus movimentos é suficiente para nos despertar a sensação de que parecem vivos: se um dos pontos faz uma curva em direção ao outro, e se este outro desvia saindo da rota do primeiro, então, subitamente, atribuímos uma mente, com desejos e objetivos, aos mesmos pontos! Vemos ali um “comportamento”, uma movimentação animada. O primeiro pontinho, pensamos, “quer” alcançar o segundo que, por sua vez, “quer” fugir do primeiro. É uma “perseguição”.
Observe quando o “mero movimento” se torna “comportamento”:
Você sem dúvida teve facilidade em identificar o momento, pois sua intuição está programada para saber a diferença. Aliás, eu nem preciso dizer as cores: você sabe qual é o que “persegue” e qual é o que “foge”.
Sabemos que os pontos não são realmente vivos, mas só porque somos adultos informados sobre as artimanhas da computação. Imagine, porém, esta cena sendo mostrada, sem mais avisos, a uma criança, a um de nossos ancestrais africanos, ou mesmo a um filósofo esclarecido da velha Grécia. Sem dúvida eles imaginariam que os pontos pudessem estar vivos.
Mas mesmo nós, esclarecidos como somos, não evitamos criar certas expectativas sobre os pontinhos. Em vez de pensar que, no próximo momento, os pontos voltarão a seguir meras linhas retas, só conseguimos nos perguntar – e sem as aspas: será que o primeiro “conseguirá alcançar” o segundo? Até quando o segundo “conseguirá escapar”? Somos até capazes de torcer por algum deles!
O mesmo tipo de movimento, “animado”, caracteriza o comportamento de qualquer animal – aliás, daí o nome dos bichos. É por causa do tipo de movimento deles – animado, em vez da mera inércia – que nossa intuição os considera vivos. E por que os animais têm o “poder” do movimento animado? Nossa intuição nos dá a próxima resposta errada.
A “alma” é uma tentativa de explicar esta impressionante animação da matéria. Adivinhe: a palavra vem do latim, anima, e significa justamente “princípio de vida”. É que supostamente a matéria só poderia seguir a inércia física se deixada por si mesma. Mas a auto-animação da matéria – sem qualquer mágica – é perfeitamente possível, desde que a matéria se organize de maneira suficientemente complexa. Ora, acabemos de ver que a seleção natural explica exatamente o surgimento desta complexidade: a replicação sem dúvida conduz ao tipo de movimento “animado” que nossa intuição julga “vivo”.
Mais do que uma teoria metafísica, contudo, a idéia da alma é uma intuição programada em nossos genes: é a nossa tendência natural a perceber estes seres “animados” – como os animais e os pontinhos do exemplo – como possuidores de uma “coisa”, um “princípio vital”, uma “força animista intrínseca” que, seja lá o que for, é algo que dá “ímpeto” ao corpo físico, que falta às pedras e que “sai do corpo” quando o ser vivo morre.
Enfim, um “fantasma na máquina”, como dizem. Quando lhe chamou “alma”, a tradição apenas deu nome ao objeto desta intuição primitiva.
E é por causa desta intuição que você se enfurece quando escuta que toda a diferença entre você e uma pedra é – que lástima! – “apenas de complexidade”. No fundo, o que você pensa é: “eu tenho uma alma (ou algo que o valha), a pedra não!”. A idéia suprema da “intuição animista” é a de que alguém poderia pegar todos os átomos de uma pedra e reorganizá-los de um modo dez vezes mais complexo que o do corpo humano e, mesmo assim, esta nova entidade complexa ainda seria “apenas matéria”, pois ainda lhe faltaria uma alma para “dar vida” ao conjunto de átomos.
Isto, contudo, é o de menos! Clonagem, aborto e eutanásia estão forçando as pessoas, sonolentas por séculos, a acordar para os absurdos da intuição animista. Aqui começa a ficar claro o quanto é confuso e inútil o nosso conceito intuitivo de “vida”: como já vimos, a alma não é necessária para explicar o comportamento animado.
7. Algum Fantasma entra na Máquina? <<
“A explicação tradicional para a inteligência é que a carne humana é permeada por uma entidade imaterial, a alma, em geral concebida como algum tipo de fantasma ou espírito. Mas a teoria depara com um problema intransponível: como é que o fantasma interage com a matéria sólida? Como um nada etéreo responde a lampejos, cutucadas e bips e faz braços e pernas se moverem?” – Steven Pinker, Como a Mente Funciona
“A vida é a animação da matéria provocada pela alma”.
Este é, basicamente, o conceito intuitivo de “vida” que todos têm na cabeça. Os menos religiosos apenas tiram o “pela alma” e, no lugar, colocam “por ‘algo mais’ – a vida não pode ser apenas matéria”. Mas, é claro, a vida pode ser apenas matéria. Além disso, os defensores da alma enfrentam um problema que já dura séculos: como uma entidade não-física pode afetar a matéria? Supondo que haja uma boa resposta pra isso – até hoje não há – ainda assim não há porque falar em alma. A matéria, sozinha, explica a vida.
Como poucos admitem isto, os problemas do aborto e da eutanásia, por exemplo, continuam sendo debatidos em bases absurdas: primeiro, não é permitido “tirar a vida” de um feto; segundo, é preciso decidir “quando a vida começa”; terceiro, será permitido somente o aborto anterior, e não o posterior, ao “início da vida”. Os debates sobre eutanásia e “fim da vida” funcionam de forma análoga.
Estão todos, como diz o psicólogo evolucionista Steven Pinker, tentando escutar o suposto trovão que anuncia quando o fantasma entra na máquina.
Obviamente, não existe nada parecido com este trovão.
Como veremos, é inútil tentar descobrir um momento específico onde a vida “comece” ou “termine”. Ou, no caso da clonagem, descobrir se há ou não uma alma naquele corpo, se é a “mesma alma” do clonado, ou absurdos do tipo. Só exorcizando estes fantasmas – o que faremos a seguir – é que poderemos vislumbrar os meios racionais de se debater as polêmicas questões enfrentadas pela medicina.
8. A Vida Está na Complexidade Física dos Organismos <<
Mas, se não há um trovão, se nenhuma alma “entra” no corpo, quando começa a vida? Como saberemos a diferença entre o vivo e o não-vivo? Sem dúvida há uma diferença entre você e uma pedra, mas, se não é a alma, o que pode ser? Já vislumbramos a resposta: é a complexidade do seu organismo, eis a verdade. Uma pedra não a possui, você sim. É ela que permite a você – e a todos os demais organismos – assumir o tipo de movimento “animado”, comportamental.
E isto também explica, como veremos, o motivo de não haver linha divisória separando o vivo do não-vivo: a complexidade é de natureza gradual.
Obviamente os outros mamíferos, as aves e os peixes nos parecem vivos. Outros seres menos complexos (e menos animados), como os carrapatos, nos suscitam dúvidas. Algumas conchas só “sabem” boiar aleatoriamente por aí e ir automaticamente pra cima quando tocadas: serão mesmo “vivas”?
Por fim, voltamos aos vírus: eles nem mesmo são células, mas meras fitas de DNA flutuantes, como dentes-de-leão ao vento, que quando por acaso substituem o DNA do núcleo de uma célula, fazem com que ela crie milhares de cópias do mesmo DNA flutuante! São, portanto, menos complexos do que o “replicador E” do exemplo lá de cima, pois nem conseguem se replicar sozinhos, precisando parasitar o maquinário complexo das células existentes.
Os vírus, por tudo isto, se tornaram a coisa mais indefinida, para a intuição humana, entre “pontinhos que se movem por inércia” e “pontinhos animados que perseguem objetivos” – no caso, o objetivo de se replicar. Não por acaso, os vírus também estão no limiar entre a complexidade dos replicadores, e aquela completa simplicidade inofensiva das moléculas e átomos, que apenas vagam por aí. Não são nem uma coisa, nem outra.
Chamá-los de vivos ou de não-vivos, portanto, só pode depender de uma decisão arbitrária, de uma convenção. E este é nosso último problema.
Mas antes...
Não pense que é tão diferente assim com bactérias: algumas são conjuntos enormes e muito mais complexos de células, e efetuam uma série de atividades interessantes. Se você vir uma bactéria em ação ou souber o que ela faz, terá a convicção de que ela é viva, mas se você aprender como ela funciona (de forma mecânica, cega e automática, como os nossos melhores robôs) tenderá, ao contrário, para a convicção oposta!
É que não há nada de “não físico” no mecanismo de uma bactéria. Todos os átomos obedecem às leis da física e o resultado, esperado, é que a bactéria faça exatamente o que ela faz! Não se vê uma só molécula ser “movida por mágica” para a parte da bactéria onde deveria executar sua função. Não se vê, afinal, em que momento, ou em que parte, uma “alma”, ou um “princípio invisível” seria necessário para explicar o comportamento da bactéria. É tudo completamente físico, determinado, material.
E o mesmo vale para cada célula, o cérebro e o corpo do leitor.
Todo o processo embriológico, incluída aí a formação do cérebro, é completamente material, sem nenhuma lacuna que precise ser explicada com a mágica de um espírito invisível. Em suma: se não existir alma, de qualquer modo a física, a química e a biologia são perfeitamente suficientes para explicar todo e cada aspecto de qualquer ser vivo – salvo, talvez, a consciência sensível, mas este é um outro assunto, polêmico, vertiginoso e fascinante, e onde a alma certamente também não ajuda.
Aqui, contudo, estamos falando de vida.
9. A Zona Nebulosa do Espectro <<
Você ainda está incomodado, eu sei. “Como não saber com certeza se a maldita bactéria possui ou não possui vida? Como dizer que a verdadeira Vida, com v maiúsculo, é questão de pura convenção arbitrária?”, você protesta, “vou ter que engolir que pedras podem ser vivas e macacos não?!”
Claro que não!
É óbvio que macacos são seres vivos, pedras não.
A categoria “vida” é nebulosa apenas nas fronteiras.
Por exemplo, não existe uma linha divisória separando claramente os adultos dos não-adultos, isto é, os que são responsáveis por seus atos daqueles que precisam se submeter à autoridade de seus pais. Mas isto não significa que podemos chamar de adultas pessoas com seis anos, e nem de adolescentes pessoas com 37. Significa somente que a passagem da infância à idade adulta é gradual e, portanto, existe um certo trecho do espectro – a longa fronteira entre a criança e o adulto – que é confusa. É uma “zona nebulosa”, pouco nítida: alguém de 15 anos é mais adulto ou mais criança?
Quando é assim, precisamos convencionar em que ponto do espectro fica a divisão. E a convenção depende de nossos objetivos: o governo brasileiro convencionou que, para votar, 16 anos é maioridade. Para dirigir ou ser punido pelos próprios atos, no entanto, a idade é 18. Em outros países há convenções diferentes, embora bem parecidas.
Assim é com a Vida:
Ela se estende em um espectro que sai da “óbvia não-vida”, com seus átomos soltos, pedras, água e moléculas acidentais; passa por uma “zona nebulosa e confusa” envolvendo vírus, replicadores cegos, fetos com uma semana de idade, Inteligência Artificial e pacientes com morte cerebral; e atinge a plenitude inquestionável em criaturas cheias de vida – como a Angelina Jolie!
É apenas dentro da “zona nebulosa”, o trecho confuso do espectro, que os cientistas precisam convencionar uma linha divisória.
E, se a categoria “vida” é nebulosa em suas fronteiras, isto é porque ela depende da complexidade e do comportamento dos seres: ambos variam de forma gradual. Os cientistas hoje, ao lidar com problemas recentes como eutanásia, aborto e epidemias virais – todos dentro da zona nebulosa – precisam estabelecer os limites da categoria “vida” por convenção. As decisões éticas devem seguir o mesmo caminho.
A maneira racional de debater estes problemas, portanto, não envolve uma alma, mas sim a decisão de quais são os objetivos em causa. Evitar sofrimento de todas as partes, por um lado, e não violar o direito à vida de ninguém – eis um bom começo. Ainda há que se debater questões espinhosas, sem dúvida: se o surgimento da vida é gradual, em que ponto é melhor convencionar que começa o direito à vida do feto? A resposta não é fácil, mas virá mais rápido se as pessoas debaterem a questão relevante, em vez de procurarem a chegada de fantasmas.
No passado longínquo, e na ausência de casos dúbios – como o conhecimento sobre vírus ou fetos e pessoas com morte cerebral, sustentadas por aparelhos – o cérebro humano encontrou um meio mais simples de estabelecer a divisão: são “vivas” apenas as criaturas de comportamento animado, que possuem dentro de si uma “alma” de onde tiram força para suas ações. Funcionava bem na África do paleolítico. Não mais.
10. Por que Nossas Intuições Falham? <<
A seleção natural atua numa escala de centenas de milhares até milhões e bilhões de anos. Nossos ridículos dez mil anos de civilização são apenas um piscar de olhos para a natureza e, exatamente por isso, nosso cérebro ainda está sendo montado pelos genes do mesmo modo que era montado há 200, há 100, há 50 mil anos.
Não houve tempo para que a natureza “atualizasse” nosso cérebro e, a bem da verdade, é difícil jurar que ainda exista alguma seleção natural relevante em andamento: a medicina, ainda bem, faz sobreviver inúmeros que teriam perecido no passado. E a imposição da monogamia torna muito mais fácil que qualquer um passe seus genes adiante. Por quê? Quando os poderosos mantinham cinco, vinte, ou trezentas esposas, isto acarretava cinco, vinte ou trezentos homens condenados ao celibato!
Só os genes dos poderosos e sedentos por status passavam adiante.
Mas, se todos se reproduzem, não há seleção.
Por isso continuamos, e talvez continuaremos por milhões de anos, a ter intuições, programadas pelos genes, que já não servem para o mundo microscópico e macroscópico que a ciência descortinou nos últimos séculos – sem falar do capitalismo, da religião e do McDonald’s.
Na maioria das vezes as intuições estão corretas, afinal o mundo não mudou tanto assim! A sensação instintiva de que o copo vai quebrar, se largado ao chão, seguramente é útil e está muito bem afinada com a verdade. Mas, se a gravidade mudasse, você continuaria tendo a mesma velha – e então obsoleta – intuição. Na verdade, isto realmente ocorre em qualquer parque de diversão razoável, e sentimos que vamos cair quando estamos perfeitamente seguros!
O que temos a fazer é raciocinar mais e, sobretudo, não depositar cega convicção naquela conhecida sensação subjetiva: “eu sinto que isto é verdade”.
E, por falar em água, nós passamos a chamá-la de “gelo” após uma certa temperatura. Não há nenhuma mudança qualitativa em ação: as moléculas de H2O apenas se organizam de uma maneira cada vez mais padronizada. Se ficarmos olhando a água vagarosamente congelar, sem dúvida haverá também uma “zona nebulosa”: é água ou é gelo? É, sem dúvida, H2O cada vez mais apertado! Se é “água” ou “gelo”, isto é apenas uma discussão sobre palavras, e não sobre fatos.
Nossas intuições têm alguma dificuldade com coisas graduais, preferindo classificar tudo em categorias “preto e branco”.
O vírus é “vivo” ou é “não-vivo”? É, sem dúvida, um mecanismo complexo o suficiente para assumir um comportamento próximo do “animado”. Se sua complexidade, ou sua “animação”, atingem o que merece ser chamado de “vida”... Jogo de palavras!
12. A Vida que Realmente Quer Coisas <<
Falei, o tempo todo, que moléculas, replicadores e bactérias não querem nada de verdade, apenas agem “como se quisessem”. Isto talvez seja verdade inclusive para insetos, quem sabe até para peixes, aves... Alguns mamíferos? É difícil dizer. Seja como for, eles estão perseguindo cegamente o objetivo de se replicar, de modo inconsciente e automático – é como uma bola de futebol: ela não “quer” ir pra frente quando é chutada, ela simplesmente vai.
Mas, obviamente, ao menos algumas criaturas vivas – como o ser humano e, talvez, todos os mamíferos, e ainda algumas outras – têm objetivos conscientes de verdade, pois possuem um cérebro capaz de pensar, de realmente querer coisas e buscar objetivos. Sem dúvida você possui um cérebro, e quer de fato muitas coisas.
Mas, embora eles sejam os construtores do cérebro, os genes não possuem, eles mesmos, um cérebro!
Seus genes, portanto, não pensam e não podem “desejar” nada, mas mesmo assim programaram, por exemplo, o desejo sexual no seu cérebro, em você – e por conta disso provavelmente serão copiados (se já não foram!). Pela última vez: por que os genes “querem” se copiar? Não querem, eles simplesmente se copiam: sem dúvida existiram outros genes, tão cegos quanto estes, que (também por nada) programaram o cérebro do seu “hospedeiro” sem o desejo sexual, mas não é difícil imaginar o que aconteceu, naturalmente, com esses genes: não se copiaram, duh! Sumiram da população.
Pois é: aqueles que se copiam são os que têm cópias. Isto é tudo.
O primeiro replicador surgiu por acidente e gerou inúmeras cópias. A partir daí, a seleção natural “peneirou” as mutações aleatórias, descartando a maioria aberrante e preservando a minoria que melhor se copiava. É uma questão lógica: tinha que acontecer. O processo foi ganhando complexidade durante bilhões de anos, até criar seres com cérebros dotados de uma intuição distorcida, “animista”, do próprio processo. Por fim, o processo criou um organismo capaz de superar a intuição primitiva e encontrar a verdade por trás do processo: Charles Darwin.
A ciência descobriu, nos últimos dois séculos, que o mundo material, meramente físico, é perfeitamente capaz de explicar a vida. Quando criança, eu me perguntava: “como um gato pode se mover pra todos os lados sem estar ligado na tomada?”. Eu era, então, incapaz de conceber os sutis movimentos atômicos e moleculares que, subindo nível após nível rumo ao todo do organismo, fundamentam as capacidades maravilhosas de que um gato – mas não uma pedra – é capaz.
A despeito do conhecimento científico, nossas intuições ainda enxergam espíritos invisíveis onde apenas há uma fantástica complexidade mecânica. As mesmas intuições falham na estatística (tememos mais um acidente de avião do que um acidente de carro), na física (achamos que um pião girando deveria cair ao inclinar-se) e até no cinema (temos medo de vilões que não sairão da tela). Apesar disso, continuamos confiando em nossas intuições de forma irrefletida, acrítica, sem saber onde e como elas entraram no cérebro.
Por causa de nossas intuições primitivas é que uma legião de ativistas religiosos consegue insistir, honestamente e com boas intenções, que a versão criacionista da vida está correta; que a seleção natural é “aleatória”; que o darwinismo é “apenas uma teoria”; que a probabilidade de a vida surgir “por acaso” é próxima do impossível. Sobretudo: que os genes não podem “querer” se replicar (correto) e, portanto, não podem se replicar (errado)!
Espero ter mostrado, neste dedicado passo a passo, que todas as críticas dos criacionistas – e dos demais insatisfeitos com Darwin – sobre a vida, e sua origem, não passam de confusões originadas de um conjunto de intuições que, embora indefensáveis, evoluíram juntamente com o cérebro humano e ainda fazem parte de nossa mentalidade.
Cabe a cada um usar de sua razão e senso crítico para superar aquelas opiniões intuitivas espontâneas que nos surgem e, simplesmente, “parecem” verdadeiras – não só quando se trata da palavrinha “vida”, mas também em tudo o mais.
Aos criacionistas, que eles, por força dos fatos objetivos, desistam de uma vez!
por Lauro Edison, 13 a 19 de julho de 2007
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