![]() ![]() ![]() | "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." - WTF?! | |||
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Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago, 2005 O sensacional suspense claustrofóbico que não serve para nada
Esta obra do renomado escritor português José Saramago, que descreve uma inusitada epidemia de cegueira, é introduzida por uma epígrafe dúbia, "retirada" de um imaginário Livro dos Conselhos, que diz: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Sim, o autor tem a fama de inventar as epígrafes de seus livros). Este conselho torna-se enigmático através do termo "repara", que possui duas possíveis interpretações: "Se podes ver, observa" e "Se podes ver, conserta". A primeira frase se limita a aconselhar um uso pleno dos olhos, o que, em plena narrativa sobre cegos, é por demais antiquado; a segunda, quem leu a obra sabe, só faz sentido para a protagonista do livro, o que não ajuda muito. Temos, portanto, um conselho belo e poético, porém seco de conteúdo, mais ou menos como a narrativa que segue.
Ensaio Sobre a Cegueira começa, de fato, no meio do trânsito, entre um sinal amarelo e um vermelho, onde um motorista qualquer é acometido por uma inexplicável cegueira súbita, e branca. A partir daí a história se desenrola através de um suspense e de uma claustrofobia sufocantes, e mais não pode ser dito - as surpresas da narrativa são fundamentais para uma experiência genuína. De fato, o primeiro terço do livro é de tal maneira poderoso que poderíamos estar certos: se a obra seguisse até o fim com um ritmo tão dinâmico, estaríamos diante de um fenômeno de ficção científica, terror e suspense.
Saramago se utiliza de recursos simples e inventivos para forçar ainda mais o clima tenso de sua história que, por si só, já é insuportavelmente pesada. Evita de toda forma nomear personagens ou sugerir local e época onde seus eventos ocorrem, de maneira que o leitor esteja ainda mais perdido na crescente confusão. Segue lendo os parágrafos intermináveis e de poucas pausas, que ainda entram em simbiose com diálogos viscerais, onde sequer existem exclamações ou interrogações, pois o autor mostra sua habilidade - bem como a capacidade do idioma - em dispensar pontuações óbvias onde o contexto sozinho transmite emoções com bem maior eficácia. Chega mesmo o ponto em que o leitor pressente que, ao virar a página, já nem poderá ler, estará cego.
Assim é certo que não pairam dúvidas sobre a competência linguística de Saramago, prêmio Nobel de Literatura. A presente obra, porém, declina a partir do primeiro terço, tornando-se uma interminável descrição do caos. O leitor abandona a tensão e passa a acompanhar uma aventura minuciosa, centrada nos detalhes, nos problemas de logística e ética enfrentados por cegos. Seus pensamentos nunca são amplos, pouco sabemos de suas personalidades. São apenas cegos, todos iguais. Mas uma poderosa lupa é posta nas suas dúvidas mais imediatas. O circunstancial é a tônica, e o autor o faz de forma suficientemente boa para que fiquemos interessados em tantas minúcias comportamentais até a última página.
Fica claro, portanto, que se está falando de um ótimo livro de literatura. E aí, inevitavelmente, ressurge a questão: Ótimos livros de literatura são ótimos livros? E, desta feita, a resposta será não. E aqui, ainda por cima, se trata de um caso especial, pois Ensaio Sobre a Cegueira é considerado exemplo de literatura ideológica, o que de modo algum é! Impossível não transcrever aqui um relato da revista portuguesa Visão, de 1995:
Quase em ritmo de ficção científica, Ensaio... mantém, na escrita de Saramago e na sua aventura romanesca, uma dimensão rara e singular na atual literatura portuguesa: a constante demanda de um laço que prenda o romance à arte de questionar (...) Como se o romance fosse, e nunca tivesse deixado de ser, uma interrogação sobre o mundo como ele é e como ele devia ser.
Ora, a verdade é que Ensaio Sobre a Cegueira, por bem escrito e instigante que seja, não passa de mais uma história com início, meio e fim, e vazia de propósito. O livro trata do ser humano em condições anômalas, o que é precisamente não tratar do ser humano. A propósito, prestam demasiada atenção à fala de uma personagem, "dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos", frase esta que bem poderia ser "não sabemos o que somos". Assim o autor (não) definiria nossa espécie de forma mais simples e honesta. Tal é a insistência dele, porém, em não ser metafórico, que o ser humano, ali, beira a mudança de espécie. Público e crítica parecem querer enxergar, com ingênua boa vontade, associações que a narrativa seca jamais demonstra. Por exemplo, o mal branco não é, nem da maneira mais sutil, associado à ignorância humana.
Ainda por cima, a editora vende o livro como se este trouxesse a idéia da "responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". Mas a protagonista (com visão) do livro, que deveria fazer jus ao prometido e jamais é uma heroína, não vai além de se desesperar e seguir um instinto ético débil, além de o fazê-lo de modo absolutamente errático. O pior dos pontos, porém, é a idéia que Saramago teve de denunciar a "maldade" humana. Declarou sobre seu livro: "Tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso". Para tanto ele coloca o ser humano na pior das situações - isto é, cego, entre cegos, encarcerado, sem asseio, sem comida e sem esperança! - e retrata como nossa espécie se torna, assim, violenta, egoísta, facínora. Quer, com isso, demonstrar nossa essência (!), ou seja, que somos maus. E ainda há quem concorde! Se os personagens do livro, na situação que estão, cometem algum erro, na certa é o erro de abnegarem-se em nome de uma ética absurda, que o autor pretende defender. Terrível.
Apesar de tudo, isto é, do moralismo de Saramago, a verdade é que não é um moralismo tão forte assim. O autor, por vezes, coloca dilemas éticos e termina por concluir em favor das alternativas mais ousadas, como a sensação que deixa de que o estupro não é, apesar de mau, tão monstruoso como a moral pinta. Assim o faz parecer um personagem, ao perguntar: "que importância teria irem lá as mulheres duas vezes por mês a dar-lhes [em troca de comida] o que deu para dar-se a natureza". Tais alfinetadas nesta moral mais conservadora, a qual o próprio Saramago demonstra não aderir, estão no livro, mas em quantidade bem menor do que seria desejável, infelizmente.
Conclusão de tudo, Ensaio Sobre a Cegueira é leitura das mais empolgantes, porém já se sabe que isto até pode bastar para um filme, que costuma durar apenas duas horas e tem fascinantes recursos audiovisuais, mas nunca para um enfadonho bloco de trezentas páginas, abarrotado de palavras que nunca terminam. Você lê um livro e pode se emocionar bastante, a experiência é prazerosa, na certa. Mas é contraproducente, livros demandam um esforço grande demais para serem mero entretenimento vazio. Isto sim, ao contrário do que afirmava a nota da revista portuguesa Visão, é o que a literatura costuma ser.
Termino este texto denunciando o conformismo injustificável para um ganhador de prêmio Nobel. Eis as palavras de José Saramago em entrevista ao jornal português Lusitano:
- Lusitano: Considera que o Ensaio sobre a Cegueira poderá contribuir para que as pessoas se questionem sobre si próprias e o mundo?
- Saramago: Os livros podem pouco. Se pudessem muito, se pudessem tudo, imagino que a humanidade seria mais feliz. Desejaria que o Ensaio sobre a Cegueira fizesse pensar, que ao lê-lo as pessoas perguntassem a si próprias: 'É assim que somos? Aonde nos leva o caminho por onde vamos?' Se tal suceder já poderei dar-me por satisfeito.
por Lauro Edison, 28 de dezembro de 2004 (publicado anteriormente na versão antiga do site, hoje fora do ar)
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