![]() ![]() ![]() | "A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver” - Paul Klee, pintor suíço, 1879-1940 | ||||
Daqui pro Futuro O álbum mais comportado do Pato Fu
01. 30.000 Pés 02. Mamã Papá 03. Espero 04. Cities in Dust 07. Woo! 09. Quem Não Sou 10. Vagalume 11. Nada Original 12. 1000 Guilhotinas
Capa: uma espécie de robô-vitrola estranho e desengonçado toca um vinil e libera a música em forma de borboletas coloridas. A imagem parece sugerir que a tecnologia seria melhor desperdiçada neste aparelho absurdo do que em máquinas de destruição. Neste caso, a semelhança com um tanque de guerra não é coincidência. Vide a música que encerra o disco.
"É melhor ser a maior banda independente do Brasil do que ser a menor banda do mainstream." – Fernanda Takai
Sim: é melhor reinar no inferno do que servir no céu - sobretudo quando o "céu" é o "paraíso do conservadorismo e hipocrisia" do Império fonográfico. E talvez o climinha infernal no encarte de Toda Cura Para Todo Mal, o disco anterior e independente do Pato Fu, quisesse dizer algo nesta linha. Então, pra começar, uma notícia muito boa: o Pato Fu continua independente!
Esta notícia é duas vezes boa: primeiro, significa que a banda continua livre dos pitacos e pressões das fonográficas - os mesmos que quase evangelizaram Gabriel o Pensador e amansaram o Skank; segundo, é o sinal dos tempos para as mesmas fonográficas, pois se Toda Cura Para Todo Mal deu certo sem elas, quem precisa deste Império na época da Internet?
Quando a arte não é livre, simplesmente não é arte.
É bom frisar, também, que o Pato Fu chega ao seu nono disco tendo sucumbido apenas uma vez a um "Ao Vivo MTV", um verdadeiro recorde de integridade artística - e, mesmo assim, este "Ao Vivo" possuía quatro músicas inéditas sensacionais. Até agora, nada de "acústico". Maravilha.
Mas as notícias boas não vão muito além disso - pelo menos para os fãs como eu, um confesso admirador da veia maluca da banda. Como disse a Takai: "não esperem o Pato Fu do tempo do Rotomusic". De fato, apesar de uma música dizer "a confusão pode ser doce, a perfeição pode matar", o disco está mais pra perfeição tranqüila (demais!) do que pra confusão anárquica.
Mas ainda é Pato Fu!
Para os padrões da banda, é comportado sim. Mas para os padrões da música pop atual, parece ser o mais criativo musical que há na praça agora.
O que o público vai encontrar em Daqui pro Futuro? Algumas tragédias românticas nada óbvias, idealismo político, as já tradicionais e ótimas alfinetadas na religião, uma crítica às pessoas apáticas e até uma inesperada apologia da fama - que, aliás, poderia bem ter ficado de fora. A marca do Pato Fu, isto é, a anarquia musical, só aparece de leve em uma faixa.
Este também é o disco do Pato Fu mais "Takai" da história da banda. Ela assina quatro músicas e, certamente, influencia o restante do CD, que está bem romântico e melódico, e com muitas letras curtas e simples.
Particularmente, prefiro o mais ousado Toda Cura Para Todo Mal, que a meu ver continua sendo o melhor trabalho do Pato Fu. Mas, é claro, Daqui pro Futuro é plenamente digno da carreira dos patos e está muito longe dos fiascos que outras bandas e músicos, cedo ou tarde, acabam cometendo.
Agora o faixa a faixa do álbum mais comportado do Pato Fu:
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30.000 Pés (Fernanda Takai / John Ulhoa)
Acima das nuvens o tempo é sempre bom E o sol brilha tanto que pode te cegar Eu quero estar bem longe do chão Só pra não ver você chorar Mas o ar é tão puro que foge de mim
Pode acreditar Eu agora sei voar E num pé-de-vento Você vai me ver passar Pode acreditar
Há tanto oxigênio que chego a me esquecer De todo esse tempo que estou sem respirar A turbulência já vai passar E a terra treme ao nível do mar Só mesmo aqui a 30.000 pés
Pode acreditar Eu agora sei voar E num pé-de-vento Você vai me ver passar Pode acreditar
Mamã Papá (Fernanda Takai / John Ulhoa / Rubinho Troll)
Conte sua história Pois sua memória Pode um dia se apagar
Não faça segredo Não, não tenha medo Estou aqui pra te escutar
Mamã Papá
Quem já tem neném Sabe muito bem Tem história pra contar
Ele já cresceu Mas nunca se esqueceu do amor Que havia em seu olhar
Mamã Papá
Quando seu corpinho se meche na barriga É só um toquinho Mas transforma sua vida
Espero (Fernanda Takai / John Ulhoa)
Dizem que não sirvo pra gostar de ninguém Que não faço nada que não seja pro meu bem
Falo coisas de mau gosto Não posso evitar E há quem mesmo vire o rosto Ao me ver chegar
É difícil respirar sem você Não Ela só quer que eu goste algum lugar de ser má, e o que ela não mas sorrir pra quê? vá se lembrar
Espero, espero Já vai longe o tempo
Mas te espero Um dia pode ser Talvez eu volte a ver Todas as cores que fugiram junto com você
Eu só digo a quem me pede Que eu tenha um bom coração Que me dê uma razão
Cities in Dust (Siouxsie and the Banshees - Steven Severin / Budgie) (Tradução por Luiz Marcatto)
Water was running, children were running Água estava correndo, crianças estavam correndo
You were running out of time Você estava ficando sem tempo
Under the mountain, a golden fountain Sob a montanha, uma fonte dourada
Were you praying at the Lares shrine? Você estava rezando no templo dos Lares¹?
But oh your city lies in dust, my friend Mas oh, sua cidade jaz empoeirada, meu amigo
We found you hiding we found you lying Nós te achamos escondendo nós te achamos mentindo Choking on the dirt and sand Se sufocando em sujeira e areia
Your former glories and all the stories Suas glórias passadas e todas as histórias Dragged and washed with eager hands Arrastadas e lavadas por mãos ansiosas
But oh your city lies in dust, my friend Mas oh, sua cidade jaz empoeirada, meu amigo
Hot and burning in your nostrils Quente e ardente em suas narinas Pouring down your gaping mouth Caindo em sua boca aberta
Your molten bodies blanket of cinders Seus corpos derretidos encobertos de cinzas
Caught in the throes... Capturados em suas dores...
And your city lies in dust E sua cidade jaz empoeirada
NT: ¹ Lares - Religião Romana. Os espíritos que, se necessário, cuidavam da casa ou da comunidade à qual eles pertenciam.
Tudo vai Ficar Bem (John Ulhoa / Andrea Echeverri)
Sei que tudo vai ficar bem Só não sei se vou ficar também
Eu faço tanta coisa Pro mundo melhorar Eu faço de um tudo Que posso pra ajudar
Eu distribuo amor Eu curo solidão Mas peço por favor Alguém me dê a mão
Sé que todo va a estar bien Lo qué no sé es se sobreviviré Sé que todo va a estar bien Lo qué no sé es se yo me salvaré
Estoy comprometida El mundo hay que cambiar Y en esta corta vida El verbo es ayudar
Yo distribuyo amor Con toda soledá Y pido por favor Que mi tengan piedad
A vida dá trabalho Se lo digo señor Eu digo pra senhora La muerte es un horror
Eu luto só por paz Ajudo meu irmão Mas sinto que o destino Quer me jogar no chão
Sé que todo va a estar bien Lo qué no sé es se sobreviviré Sé que todo va a estar bien Lo qué no sé es se yo me salvaré
Sei que tudo vai ficar bem Só não sei se vou ficar também
A Hora da Estrela (John Ulhoa)
Ela esta pronta Pra mudar a sua vida pra sempre Já imagina Como tudo vai ser tão diferente E aquele lugar lá na frente Vai ser seu
Mais um minuto E tudo o que sonhou vai ser verdade Não há no mundo Quem não entenda a sua felicidade Que possa dizer com certeza Que o lugar é seu Que é de quem nasceu pra brilhar
Uh, a hora da estrela vai chegar Uh, agora ninguém vai duvidar Não hoje, não mais Nem nunca, jamais
Ela esta pronta Pra mudar a sua vida pra sempre
Woo! (John Ulhoa)
Faça algo mágico e faça agora Ahaaa Faça isso rápido e sem demora Ahaaa Sinta a sua lógica indo embora Ahaaa Faça algo cínico e dê o fora Ahaaa
Quando algo sai do seu controle o mundo volta a respirar A confusão pode ser doce A perfeição pode matar... ah...
Sinta seu espírito ir à forra Ahaaa Tranque esse cubículo por fora Ahaaa Veja como é ótimo, não tenha medo Ahaaa Conte o seu angélico segredo Ahaaa
Quando algo sai do seu controle o mundo volta a respirar A confusão pode ser doce A perfeição pode matar... ah...
Woo!
Woo!
A Verdade Sobre o Tempo (John Ulhoa)
Ele pensa que a vida ficou pra trás Então finge que nem liga, que tanto faz Ou não, ou não, a vida é como um gás Só um sopro, só um vento, nada mais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões De tão velho já quer ir descansar Daqui pro futuro falta só um piscar Que é pro tempo não mais nos enganar
Ele agora vê que o tempo é uma ilusão E o passado são as linhas em suas mãos Ou não, ou não, a vida é muito mais Que os dias, que os deuses, que jornais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões De tão velho já quer ir descansar Daqui pro futuro falta só um piscar Que é pro tempo não mais nos enganar
Ou não, ou não, a vida é como um gás Só um sopro, só um vento, nada mais
Quem Não Sou (John Ulhoa)
Quem conhece sua face não sou eu Quem aplaca sua fúria não sou eu Não sou, não sou, não sou
Quem consola suas mágoas não sou eu Quem castiga, quem te fere não sou eu Não sou, não sou, não sou
Quem escreve seu destino não sou eu Quem acorda todo dia não sou eu Não sou, não sou, não sou
Quem prefere linhas tortas não sou eu
Vagalume (Fernanda Takai / John Ulhoa)
Quando anoiteceu Acreditei que não veria mais Nenhum luar Nem o sol se levantar enfim
Mas na escuridão eu te encontrei A noite agora vem pra me dizer Que o luar vai me trazer você
Uma vida brilhava ali Peguei você Com cuidado em minhas mãos eu quero te guardar Só pra te ver piscar pra mim Pois minha casa tão vazia quer se iluminar Nem preciso te contar eu sei
Vem acende a sua luz perto de mim Estrelinha do meu jardim Me deixa ser teu céu pra sempre
Vem acende a sua luz perto de mim Estrelinha do meu quintal Na madrugada vagalume
Nada Original (John Ulhoa)
Eu sei o que ele vai dizer Já posso até prever qual vai ser o final Você é como um filme ruim Que eu já sei o fim e é nada original
Por que você não pára de ser Aquele de quem tudo já sei?
E o mundo inteiro vai comemorar O dia em que essa paz se acabar
Ou me mato, ou me mudo Sem te avisar Ou te bato, ou eu fujo, Ou escapo desse mundo pra outro lugar
Eu sei o que ele vai escolher É fácil perceber aonde quer chegar E aquele seu velho clichê Não vai me convencer que algo vai mudar
Por que você insiste em viver? Desista de ser sempre você
E o mundo inteiro vai comemorar O dia em que essa paz se acabar
Ou me mato, ou me mudo Sem te avisar Ou te bato, ou eu fujo, Ou escapo desse mundo pra outro lugar
1000 Guilhotinas (John Ulhoa)
Mais de 1000 soldados pra guilhotinar os mais de mil errados que estão do outro lado pra lutar
“Este é o lado certo, deus vai ajudar! Não queira estar por perto na hora em que o massacre começar”
E então o pobre soldado, sem ter o que perder, pois já esta condenado a morrer diz: “Não sei porque lutei. Não sei porque morri. Eu só queria não estar aqui"
Todos reunidos pra comemorar. Falta pouco agora, o mundo não demora se acabar.
“Santa crueldade. Males para o bem. Aqui não é lugar pra quem não tem coragem de atirar”
E então o pobre soldado, sem ter o que perder, pois já está condenado a morrer diz: "Não sei porque lutei. Não sei porque morri. Eu só queria estar onde eu nasci" |
Interpretar esta música de refrão agradável é osso duro de roer. Fora de contexto é lindo: "pode acreditar, eu agora sei voar". Mas de que o casal de patos estará falando? Que vôo metafórico a trinta mil pés é este?
Ao que parece, é o vôo da paixão.
Só que esta música é especial: canções exaltando a paixão existem aos milhares, mas esta aqui foge ao óbvio e aponta para o lado negro do cérebro apaixonado: a cegueira, as ilusões, o sofrimento, a dependência.
A paixão é um truque biológico que age como a cocaína no cérebro. Droga pesada.
Daí os "30.000 pés", aquela sensação perigosa de estar "acima das nuvens", onde "o Sol brilha tanto que pode te cegar". Mas começar sabendo disso não torna a letra menos confusa.
Ao que parece, não se trata apenas de entender o que a paixão tem de ruim, mas de abandoná-la! Por isso "todo esse tempo que estou sem respirar" me cansou. Mas "eu agora sei voar": sou livre. E "num pé-de-vento você vai me ver passar": vou embora. E vou bem longe "só pra não ver você chorar". Mas não se preocupe, pois "a turbulência já vai passar".
Esta música, portanto, parece uma heróica recusa à ilusão química da paixão, pelo menos no caso de uma paixão fadada ao fracasso - como tantas são. Excepcional!
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Esta música precisava existir na carreira do Pato Fu, e devidamente assinada pela mamãe Takai. E não há outra palavra pra defini-la: fofinha!
Precisei da ambigüidade acima para usar um termo como "fofinha" sem maiores riscos... =) Mas, voltando à canção, ela coloca deliciosamente em poucas palavras a sensação, proporcionada pela maternidade, de ser uma nova pessoa.
O que Takai não sabe, ou a letra não diz, é que a gravidez está longe de ser "só um toquinho" mágico. Uma torrente química remodela perigosamente todo o cérebro de uma mãe, tornando-a de fato outra pessoa!
Uma verdadeira overdose de generosidade - específica para com o neném - é implementada na mente ("estou aqui pra te escutar"), o que torna qualquer mulher mais conservadora.
Felizmente, pra nós, parece que a gravidez de Takai não lhe tirou nem um pouco do espírito doce, alegre e ousado. Se bem que este disco, com ampla participação autoral da mamãe, está bem comportadinho pro Pato Fu...
Maldade à parte, o melhor desta canção é, sem dúvida, o singelo e psicodelirante refrão "Mamã Papá".
É preciso escutá-lo pra entender o que digo: qualquer um pode lembrar daqueles tempos nebulosos de quando o mundo era pura novidade e mamãe e papai eram como deuses míticos iluminando cada passo.
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Atualização: no chat UOL Fernanda Takai confirmou que esta é a única música que fala de sua filha, Nina, descartando assim as interpretações "família" para A Hora da Estrela e Vagalume, que estão circulando entre os fãs. Ou não.
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Parece que temos aqui uma continuação de Agridoce, música do último disco onde a personagem, tendo abandonado uma pessoa indiferente e distante, pensava: "direi que fui embora e que o mundo já pode se acabar, pois tudo mais que existe só faz lembrar que o triste está em todo lugar".
Ou seja: "sem você a vida não tem graça".
Mas Espero é uma dez vezes mais trágica do que Agridoce, porque fala de uma tristeza que é definitiva, não vai passar. Além disso, e ainda mais triste, esta dor crônica rouba toda a generosidade e alegria da personagem, que diz (em meio aos versos misturados): "não que eu goste de ser má, mas sorrir pra quê?".
A música mostra sobretudo a situação de egoísmo e rabugice que se pode atingir, por conta da frustração de uma relação. Este, aliás, é apenas um dos perigos da paixão que poderiam justificar a anti-paixão de 30.000 Pés, a primeira música do disco.
A música termina com a sugestão de que, na ausência da pessoa desejada, não há razão para ter um bom coração. "É difícil respirar sem você". O sofrimento de Agridoce era natural e humano, mas esta dependência beira o absurdo.
Uma música tão derrotista poderia ser um dos pontos negativos deste álbum. Mas, é claro, o derrotismo é da personagem, e não da música ou de quem canta - espero!
De qualquer modo, o sonzinho lento e a voz da Takai, que se arrasta, faz desta a música mais chata do disco, senão da carreira dos patos!
E, seja como for, prefiro o Pato Fu otimista que cantava "tristeza é sem razão".
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Cities in Dust (atualizado) <<
Com a nova tradução enviada (colaboração de Luiz Marcatto) há chances melhores de apreender o sentido de Cities in Dust.
Ainda segundo Luiz "a música é claramente sobre uma cidade em guerra, e acho que foca mais no desespero das pessoas, que rezam e se escondem".
Perfeito. Que hei de acrescentar?
Percebi, contudo, que o "você" do qual a música fala parece ser alguém com alguma responsabilidade pela situação de caos em que se encontra a cidade. Também parece ter se arrependido após ver a tragédia que resultou, porém tarde demais.
Seria um general? Um terrorista? Um governante? "Nós te achamos mentindo... Suas glórias passadas"...
Além da guerra e do desespero, portanto, a letra pode estar apontando para o desencadeador de tudo: sede de poder. O Pato Fu, por sinal, já cantou em Spaceballs - The Ballad: "se nós não temos a glória de uma guerra, é só por que nós não acreditamos em guerra".
O fato de a banda ter escolhido esta música apocalíptica para regravar, portanto, parece reforçar a idéia, aparentemente presente na capa e nome do disco, bem como na última música, de que o mundo pode estar caminhando para a destruição.
Se for verdade, isto dá uma certa coesão saudável ao trabalho. Um sentido maior para Daqui pro Futuro.
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Esta música é, ao mesmo tempo, a mais original, interessante e idealista de um disco que, para os padrões do Pato Fu, é pouco original, interessante e idealista.
Mas não acho que seja a melhor música. Há uma certa Quem Não Sou adiante. Além disso, esta aqui tem o defeito de ser repetitiva. Salvo este detalhe, o resto deu certo.
Andrea Echeverri, vocalista da banda colombiana “Aterciopelados”, consegue imprimir um clima de desespero e pessimismo que deixaram o climão da música no ponto.
Tanto a melodia cavernosa quanto a mistura de idiomas foram boas fugas do óbvio, e deram resultado dramático: por um lado sentimos o cansaço da luta dos otimistas, por outro um ar de América Latina perfeito para a ocasião.
O desespero de todo idealista é descrito aqui: generosidade, coração aberto e boa vontade são atributos que, neste mundo carnívoro, só têm como recompensa parasitismo e indiferença das pessoas mesquinhas.
"Estou comprometida, o mundo tem que mudar".
Ora, a América Latina é o cenário de revoluções, opressão e miséria por excelência. Tudo vai Ficar Bem parece falar justamente de todos os esquecidos que tanto fizeram no passado e viveram esmagados.
Aliás, por que falar no pretérito?
O mundo em que vivemos hoje continua justificando o inconformismo e causando o mesmo desespero descrito nesta música.
Oh não! O mundo não mudou!
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A melodia doce e agradável não me tirou a sensação de decepção. Quando atinei que o belo título "A Hora da Estrela" se referia não à estrelas no céu, mas da mídia, já foi um mau começo.
Depois, piorou.
Quis, tentei, fiz força para interpretar o "nem nunca, jamais" como "nunca, jamais a hora da estrela vai chegar"! Isto viraria a idéia do avesso, tornando a música uma sutil e irônica crítica à futilidade VIP de tantos quantos desejam seus 15 minutos de fama. Mas não... oh não... a letra não mudou!
É só ler: John, John Ulhoa mesmo que já cantou "quem quer ser o novo campeão? [...] A fila dos bonitos é aquela de lá!", escreveu desta feita uma estranha apologia às pessoas que "nasceram pra brilhar", com direito a um climinha de fascinação pela iminente conquista do sucesso.
A interpretação correta e inegável é: "nunca, jamais alguém vai duvidar que a hora da estrela chegou".
John escrevendo este tipo de coisa?
Parece que vi um OVNI!
Vou considerar esta música um estranho acidente na trajetória da banda e seguir na convicção de que, do Pato Fu, posso esperar o velho e bom anti-VIPismo de outrora:
"Você acha que eu tenho demais? Roubei! Você acha que eu não sou capaz? Matei!"
Este é o final de Tribunal de Causas Realmente Pequenas que o Pato Fu sempre "pula" nos shows, trocando o trecho por Licitação. Era um modo explosivo de sugerir como muitas pessoas de sucesso "chegaram lá".
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Atualização: Há um romance homônimo de Clarice Lispector e, no livro, "a hora da estrela" seria a morte. Uma segunda interpretação é oposta e vê na "estrela" o símbolo do nascimento (nas lápides, por exemplo). Acho realmente provável que o livro de Lispector seja a origem da música, embora a interpretação da letra seja bem difícil nesta linha. Para ver uma bela tentativa, clique aqui.
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O espírito de alegria fácil, uma das características mais deliciosas do Pato Fu (e da vida, para os que sabem), felizmente dá as caras neste disco, na música Woo!
Na verdade, esta música maluca fica parecendo uma "ilha de Pato Fu sonora e ideológica" em meio ao mar de um disco um tanto árido e comportado.
Senão vejamos: essa coisa anárquica de "woooo!" e "ahaaaaaa" é a coisa mais próxima que temos, neste disco, de todo o encanto de Toda Cura Para o Mal e, justamente aqui, lemos: "a confusão pode ser doce, a perfeição pode matar".
Pois, de fato, a perfeição do resto do disco quase mata o Pato Fu mesmo.
É de se notar, nas entrelinhas, a nada ingênua apologia entusiasta à sinceridade total: "veja como é ótimo, não tenha medo: conte o seu angélico segredo".
De fato: quem já arriscou ser totalmente sincero neste mundo hipócrita sabe o escândalo e a confusão imediatas.
Magnífico!
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A personagem da música Espero deveria escutar esta aqui! O otimismo sutil de A Verdade Sobre o Tempo é tamanho que chega até às portas da morte: "daqui pro futuro só falta um piscar".
Mas talvez haja um segredo aqui ou, no mínimo, uma coincidência inesquecível: Raul Seixas!
Dificilmente John pensou no velho Raul quando escreveu a letra ao lado, mas os paralelos me saltaram à vista de forma tão forte que não posso escrever sobre outra coisa aqui.
Os acordes iniciais lembram muito Maluco Beleza e Sapato 36, verdadeiros hinos raulseixistas.
E quem conhece os derradeiros dias do cantor idealista, facilmente os reconhecerá aqui. Raul Seixas morreu sozinho, esquecido por todos e, em seus últimos momentos, lutou bravamente para não perder o otimismo e a força.
E para os que conhecem a obra do Raul, o trecho "a vida é muito mais que os dias, que os deuses, que jornais" só aumenta a paranóia: "não existe deus senão o homem"; "todo jornal que eu leio me diz que a gente já era" são frases de Raul.
"Ele agora vê que o tempo é uma ilusão".
Em Banquete de Lixo, música de Raul de um disco que foi lançado dois dias antes de sua morte, ouvíamos o refrão:
"O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar / e eu aqui isolado, onde nada é perdoado, vi o fim chamando o princípio, pra poderem se encontrar".
Pois bem, o tempo é uma ilusão.
Esta parece ser a sensação típica daqueles que chegam à beira da morte. Para Raul e para o personagem da letra de John.
Os jovens como eu e, provavelmente, como os leitores deste texto, talvez um dia também descubram "a verdade sobre o tempo".
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Aqui, tenho que admitir, tive um orgasmo mental!
Vou precisar estragar a sutileza da música, portanto, se você ainda não matou a charada, melhor pular para o texto sobre Vagalume.
Para os que insistirem, vou preservar um mínimo de sutileza antes de entregar todo o ouro. Uma dica: quem geralmente está envolvido com "linhas tortas"?
Matou?
Se não, comece a lembrar da faixa 7 de Ruído Rosa, ou da faixa 2 de Toda Cura Para Todo Mal. E saiba que a letra ficaria óbvia se todos os "eu" fossem grafados "Eu".
Justo no mês em que o livro de Richard Dawkins ganha tradução no Brasil, o Pato Fu me vem com esta pérola do livre pensamento.
A melhor do disco!
Na primeira audição, achei tudo de um nonsense imperdoável, mas depois liguei os fios!
Sutil e inteligente. E em boa hora.
Este disco pode ser conservador em outros aspectos, mas não deve nada ao ateísmo - pronto, disse com todas as letras! - de toda a carreira do Pato Fu. Afinal, há outras agulhadas no divino em A Verdade Sobre o Tempo e 1000 Guilhotinas.
Fico me perguntando como o ardoroso fã religioso do Pato Fu se sai nestes momentos. Qualquer neopentecostal que se preze precisa enxergar a obra do demônio aqui, escritinha!
A propósito, o livro de Dawkins chama-se Deus, Um Delírio e está mesmo chegando às lojas em plena sincronia com Daqui pro Futuro: fins de agosto.
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O mais estranho de Vagalume é ter um climinha de "Clube da Esquina" quando sabemos que o Pato Fu não gosta desse estilo.
Quando, no disco passado, os Patos deram uma de Roberto Carlos, fizeram uma música (Agridoce) melhor do que quase tudo que o "Rei" já gravou. Mas não posso dizer o mesmo de Vagalume e Clube da Esquina.
Mas tudo bem, esta música é bonitinha. Uma singela overdose de Takai, que adora assinar músicas delicadíssimas, suaves e românticas. Dá pra resistir?
Esta, no entanto, é a segunda letrinha mais esquisita e difícil do álbum. É que a metáfora do vagalume vai muito longe! Tudo bem falar sobre alguém que te salva quando você está na pior, e comparar isto com o brilho de um vagalume em meio à escuridão. Muito simpático.
Mas, a menos que seja um vagalume literal, ficou esquisito dizer que "peguei você com cuidado em minhas mãos" e "quero te guardar só pra te ver piscar pra mim". Se o vagalume é uma pessoa - é claro que é! - a metáfora ficou realmente enviesada.
Esquizofrenia à parte, continuo preocupado com a personagem de Espero... Além de ouvir A Verdade Sobre o Tempo, ela também precisaria encontrar um vagalume destes por aí.
Só assim ela começaria a deixar de ser mais uma pessoa do tipo...
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Atualização: os problemas de metáfora que apontei seriam prontamente resolvidos se a pessoa-vagalume da letra fosse uma criança. Mas Fernanda Takai disse que somente Mamã Papá fala da filha deles. E agora?
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"Nada original" poderia ser um título justo para duas ou três músicas deste disco, mas ficou bem melhor nesta que, no entanto, é uma música bem original!
E é também a mais objetiva do álbum. Direta, clara, com conteúdo. Até o tom da Takai está convicto aqui - ela não está simplesmente "cantando", mas também reclamando e implorando por algo mais.
Às vezes me pergunto porque as pessoas gostam tanto de letras ambíguas, irremediavelmente "subjetivas", que não dizem nada. Provavelmente é porque o "vale tudo" da interpretação lhes economiza o trabalho de pensar. Não existe mensagem objetiva, afinal.
Não é o caso aqui. Esta música fala, nitidamente, daquelas pessoas apáticas que vivem a vida como se assistissem à décima reprise do pior programa de TV: emburradas, ranzinzas, cansadas não sei do quê!
São os "nada originais", gente que vive no piloto automático.
Na verdade, a música descreve a atitude de quem não é assim e, contudo, se descobre vivendo ao lado de um "nada original": suicídio, violência, rebelião, seja o que for!
Para os que têm entusiasmo e paixão pela vida, os nada originais são simplesmente insuportáveis.
Algo mais: a letra parece estar falando de uma pessoa, sem dúvida, mas há abertura para pensarmos que "ele" é "o mundo inteiro" que está nada original - o que é bem verdade! Esta interpretação alternativa é um belo bônus para a música.
E cuidado! Os nada originais estão em toda parte, na vizinhança, no colégio, sobretudo no trabalho e, talvez, até ao seu lado na cama...
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Poderia ter sido uma canção histórica!
Faltou pouco. Dois probleminhas comprometeram a música: um refrão sonoramente enviesado, em que a Fernanda quase não consegue cantar a longa frase que termina em "diz".
O pior, contudo, é o verso final.
Ora, o maior motor das guerras é justamente o patriotismo, a mentalidade de rebanho, que os governos fomentam a fim de ter a pronta disposição suicida dos que serão soldados.
Preciso dizer: em tempos de guerra há mais voluntários para a violência nos campos de batalha do que, em tempos de paz, há voluntários para ajudar os necessitados!
Diante de tudo isso, um soldado que clama por estar "onde nasceu" parece que não entendeu nada.
Pra uma música que critica o absurdo da guerra, nada poderia ser mais inadequado do que este encerramento de sabor nacionalista.
Vá lá: perdoa-se.
É ótimo ver o Pato Fu, num disco que já havia falado de revolução e idealismo (Tudo vai Ficar Bem), criticar também a guerra e, sobretudo, colocando o dedo na ferida: as guerras são baseadas na estúpida idéia de que "este é o lado certo".
Acrescentar que "deus vai ajudar" é uma sutil forma de lembrar que as religiões são baseadas na mesma estupidez.
Pra um álbum intitulado "Daqui pro Futuro", encerrar com 1000 Guilhotinas não poderia ser mais sombrio. Pra onde estamos indo, afinal? Não é de hoje que o Pato Fu sabe ser sombrio...
"Hoje as pessoas vão morrer, hoje as pessoas vão matar. O espírito fatal e a psicose da morte estão no ar...".
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por Lauro Edison, 25 de agosto de 2007
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As músicas do Pato Fu estão disponíveis no UOL Megastore, a 99 centavos cada. Clique aqui.
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