Bastidores da Suástica AzulDiário da Aventura Humana v2.0Inteligência na WebFala, esculhamba, desabafa, pergunta...Comunidade Aventura HumanaA Lista Negra da Discordância!

"Toda evolução no pensamento e comportamento deve primeiramente aparecer como heresia e má conduta"

- George Bernard Shaw

 

 

Soy contra!

 
   

 

Por Que Não Sou...

A lista negra da discordância

 

Foi um insight simples: numa das tantas vezes que deparei com o Por Que Não Sou Cristão? de Bertrand Russell, percebi que negar e criticar as opiniões contrárias (em vez de defender as próprias opiniões) é uma ótima maneira de se fazer compreender - no mínimo, é irresistível, uma vez que se tem a idéia. A postura ofensiva é mais polêmica e, portanto, mais emocionante que a postura defensiva. E isto significa que o leitor terá mais interesse.

 

Tais razões me bastam. Mãos à obra!

 

Por que não sou ambientalista? [atualizado]

 

      Por que não sou agnóstico?

 

            Por que não sou capitalista?

 

                  Por que não sou místico?

 

                        Por que não sou monogâmico?

 

                              Por que não sou moral?

 

                                    Por que não sou nacionalista?

 

                                          Por que não sou nazista?

 

                                                Por que não sou niilista?

 

                                                      Por que não sou pós-moderno?

 

                                                               Por que não sou religioso?

 

                                                                     Por que não sou Sith?

 

                                                                           Por que não sou trabalhador?

 

                                                                                 Por que não sou vegetariano?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

P. S.: Esta matéria pode ser atualizada no futuro, incluindo outros temas.

 

 

Por que não sou ambientalista? <<

 

Tentando viver em nome de algo maior (o que, em si, é fabuloso), algumas pessoas parecem estar simplesmente trocando "Deus" por algo vago e apenas sutilmente místico como "a vida" ou "a natureza". Isto ajuda a não se sentir um iludido esperando Papai Noel, sem dúvida, mas acho que a razão é que a ilusão é de melhor qualidade - e não que não seja ilusão.

 

Como amoral, eu não acho nada sagrado. Mas é claro que acho algumas coisas bem importantes. A natureza, porém, não é uma delas. A vida tampouco. Mas a dor e o sofrimento, o prazer e a alegria, de alguns seres vivos capazes de sentir tais coisas, estas sim são coisas muito importantes pra mim.

 

Mas sofrimento e alegria são estados mentais e, como tais, para existir precisam de um cérebro que processe informações. Essa é a razão básica de eu me importar diretamente com macacos, vacas e humanos, mas não me importar com árvores, fetos humanos, "a natureza" ou mesmo "a sociedade". É óbvio que se a natureza for muito mal, então vacas e humanos pagarão o pato - mas isto é apenas um interesse indireto na natureza. No mais das vezes, a corrupção da "ordem natural" mais nos ajuda que nos prejudica, seja na cura da tuberculose, no avanço da expectativa de vida ou nos alimentos transgênicos - e, nesse caso, pro diabo a natureza. Devemos usá-la em nosso favor, não cultuá-la. A "ordem natural" não tem mente, não sofre, não "quer" continuar intocada.

 

Mesmo assim, ainda me resta a alternativa de ser ambientalista naquele sentido indireto: se a Terra vai de mal a pior, cedo ou tarde vamos sofrer as conseqüências. Mas será? Aí eu fico dependendo dos fatos científicos, e estes não são nada claros até aqui. É perfeitamente possível que o impacto humano no mundo seja desprezível. Ainda não se pode provar o contrário - e a atitude xiita e moralista da turma "greenpeace" só me levanta suspeitas: quase nunca eles debatem o problema ambiental, mas apenas condenam moralmente quem quer que questione os dados. Isso é religião, não ciência.

 

Além do mais, a Terra precisaria estar muito pior do que os pessimistas dizem que está, para que meu sentimento de urgência fosse despertado. Pelo visto, as conseqüências negativas do descaso ambiental só irão aparecer daqui há pelo menos cem anos, quando todas as pessoas vivas hoje estiverem mortas. Alguém pode pensar que eu tenho o dever de me importar com o sorriso de não nascidos que jamais conhecerei e desfrutarei, mas duvido que alguém seja capaz de argumentar racionalmente sobre isso.

 

Gosto da alegria nos outros. Mas gosto mais de gostar dessa alegria. Se eu deixar de existir, realmente não me importa (como poderia? Só posso ter o estado mental de "me importar" se estiver vivo) se o Universo (ou a natureza, ou a vida, ou a humanidade) deixar de existir junto comigo ou não.

 

*****

 

Atualização: Foi uma surpresa ver que este tópico foi o mais polêmico. Quando o escrevi, tinha em mente um certo tipo radical de ambientalista, capaz de afirmar que a extinção da humanidade seria boa, pois a Terra "agradeceria". Agora acho que deveria ter avisado sobre isto. Minha ênfase na desimportância da natureza era em relação à importância da humanidade, afinal.

 

Por isso, não ficou clara a frase: "É perfeitamente possível que o impacto humano no mundo seja desprezível". Com "no mundo" eu me referia ao planeta inteiro. Mas é claro que, em menor escala, nosso impacto pode ser avassalador e, neste caso, contra os próprios humanos. E isto sim é algo terrível e desolador, como deixei claro na nota de 18.07.07, no fim desta página.

 

Também foi bastante controverso afirmar que não me importo com os destinos do Universo e da humanidade após minha morte, e nada menos entre aqueles que sabem o quanto sou adepto da visão de Carl Sagan, um pensador sempre preocupado com o futuro da humanidade. Bom, isso foi um tanto exagerado. Como humano naturalmente empático que sou, é claro que me importo - só que não tanto a ponto de prejudicar a nossa geração em virtude das gerações vindouras. Acho que meu nível de "egoísmo" é bem alto aí.

 

Apesar disto, ainda sobra um bom espaço para sonhos otimistas sobre o futuro de nossa espécie. E isto porque é prazeroso para mim, hoje, sonhar com as conquistas da humanidade amanhã.

 

 

Por que não sou agnóstico? <<

 

Obviamente, estou falando de agnosticismo especificamente em relação a Deus. E, tecnicamente, sou agnóstico. Não posso saber que Deus não existe, como não posso saber que duendes ou o Pato Donald não existem. É impossível provar a inexistência de algo que é logicamente possível.

 

Mas há três razões porque nunca me digo agnóstico, e sim ateu.

 

Primeira: entendo que o Deus das três maiores religiões do mundo é um ser autocontraditório, porque não se pode ser onisciente num universo onde há o livre-arbítrio (não posso ser livre pra mudar meu futuro, se Deus já sabe o que vou fazer e não pode estar enganado). Além disso, Deus não pode ser um criador perfeitamente bondoso e sua obra ser tão cheia de sofrimento. Por fim, Deus não pode ser três e um ao mesmo tempo. Então, quando se trata do Deus no qual a maioria das pessoas acredita, posso saber que ele não existe - assim como sei que círculos quadrados não existem.

 

Segunda: até onde vejo, "a-teísmo" significa "não teísmo", ou ausência de crença em Deus. Ora, quem não acredita em Deus (e o agnóstico não acredita, pois se acreditasse seria teísta) é ateu. Na fórmula de Carl Sagan, a ausência da crença não implica a crença na ausência. Quem chega ao ponto de crer na ausência de Deus também é ateu, claro, mas um ateu radical. Eu sou um ateu "simples" no que se trata de Deus de um modo geral, mas sou ateu radical quando se trata do Deus da Bíblia.

 

Terceira: essa é a mais importante. É uma razão sociológica. É verdade que o meu ateísmo é, filosoficamente, igual ao agnosticismo (não sobre o Deus bíblico, contudo). Mas socialmente o dito "agnóstico" é visto como tolerante e complacente, enquanto o dito "ateu" é visto como imoral e litigioso. A razão é que criticar a religião é, sem razão alguma, visto como uma atitude antiquada - enquanto criticar partidos políticos e obras de arte não. Essa preeminência dos religiosos não faz sentido. Mas quem se rotula como "agnóstico" está dizendo nas entrelinhas: "eu me submeto a isso; os religiosos estão acima da crítica".

 

Sobretudo por isso é que me digo ateu.

 

 

Por que não sou capitalista? (28.09.08) <<

 

O prazer humano funciona de formas incrivelmente estúpidas.

 

E o capitalismo funciona com base nessa estupidez.

 

Aprenda com os ratos: os pobres roedores têm eletrodos conectados ao cérebro, e toda vez que uma alavanca é acionada pelo rato, uma substância que causa prazer intenso invade seus neurônios. Então, no começo, o rato se acha no paraíso: acionar a alavanca produz felicidade automática. Mas é azar, porque o cérebro é programado pra fugir de prazeres que não levam a nada. E faz isso cortando o barato do vício: a cada empurrão na alavanca, o prazer se torna menor. Para compensar, o rato empurra a alavanca com maior freqüência.

 

Você sabe onde isso vai parar: o cérebro volta a diminuir o prazer, com o rato ficando ainda mais obcecado. No fim da corrida, o cérebro sempre vence - pois não é possível aumentar as doses ao infinito. E o que aconteceu ao rato? Morreu de fome. Havia comida ao lado dele, mas a compulsão pela alavanca o tinha escravizado. Resumindo: deixar um prazer fútil e tentador ao alcance do rato é sinônimo de matá-lo.

 

Conosco funciona igual. Jogo. Drogas. Álcool. E também status.

 

Nossos instintos evoluíram em uma situação onde era impossível subir na hierarquia a ponto de não precisar de ninguém. Na melhor das hipóteses, um sujeito era mais forte do que os outros, ou tinha mais habilidade social. Mas por mais respeitado e temido que fosse, ele jamais deixava de precisar dos outros. A cooperação nunca se tornava fútil. Nesse contexto, fazia sentido obter todo o status que fosse possível. A sobrevivência e o amor dos outros estavam em jogo, afinal. Mas o capitalismo terminou de soltar os freios. Pela primeira vez na história, se tornou possível subir quase indefinidamente!

 

Tudo aquilo que antes só podia ser conquistado através de amizades confiáveis, como segurança, informação, comida, ajuda e abrigo, hoje pode ser comprado e protegido sem riscos. E, depois disso, continua sendo possível subir mais e mais na hierarquia social. E ninguém resiste à tentação. O que vejo é que, como ratos presos por "alavancas de prazer", as pessoas de fato querem sempre mais, e cada vez menos satisfeitas com os sucessos. Em vez de prazer, ganhar status se torna alívio - e logo depressão, pois cedo ou tarde não será possível subir ainda mais.

 

Indiferente, a roda capitalista enxovalha os ratinhos com propaganda e morais consumistas, esfregando na cara de todos o "sucesso maravilhoso" que é estar na alta sociedade, e de como isso depende de dinheiro, poder aquisitivo e ostentação. Você fica rico, ou bonito, ou famoso, e de repente o mundo te cobre de sorrisos. Falsos, automáticos, mas poucos têm visão pra ver a farsa.

 

Portanto, o problema é que o capitalismo encheu o mundo de alavancas de prazer. Estão todos expostos ao vício do status. Agora podem sempre tentar subir um pouco mais e, com isso, se distraem da vida, da alegria, do amor, das relações profundas, da felicidade. Como o rato, deixam o essencial de lado, em favor de um prazer mórbido e destrutivo.

 

A única diferença é que o pobre rato não possui inteligência para se dar conta do futuro sombrio que lhe aguarda e, portanto, não pode se defender.

 

Mas olhando ao redor... Será mesmo uma diferença?

 

 

Por que não sou místico? <<

 

Basicamente, porque não consigo.

 

A pessoa que acredita em alguma forma de misticismo, religioso ou não, só o faz por um, de dois motivos possíveis: ou ela é suficientemente ingênua ou desinformada para acreditar em evidências péssimas, ou ela tem a necessidade moral de acreditar. Em geral, o primeiro tipo de crença não é problema: ele é facilmente curado com a aquisição de conhecimento. Mas o segundo é terrível.

 

É um fato social: as pessoas exigem certas crenças de nós. Por incrível que pareça, se você não acreditar nisto ou naquilo, será considerado perigoso ou, pelo menos, alguém de menor confiabilidade. Sempre que isto ocorre, somos levados a desenvolver um sentimento de culpa por não acreditar no que for que as pessoas das quais dependemos considerem sagrado. Dependendo do lugar, isto será Deus, Iemanjá, vacas sagradas, reencarnação.

 

E, quando sentimos culpa, tudo o mais perde a importância. É a melhor forma de manipular alguém. Se vão gostar menos de mim, caso eu diga que não há evidências de X, então a única maneira de eu não me afundar em angústia é calando minhas dúvidas e críticas, "abrindo a mente" e, de forma dolorosamente "pacífica", considerando a possibilidade de X e... mais um pouquinho... quase-acreditando nela - a ponto de poder dizer que acredito em X sem me sentir um hipócrita. Assim faz o cérebro, que evoluiu para nos levar ao sucesso social.

 

Mas é claro que não somos cegos.

 

Se você possuir informação suficiente, é impossível negar o óbvio. É por isso que a Igreja parou de dizer que a Terra possui 5 mil anos de idade. Mas também é por isso que Zeus fez sucesso: os gregos não tinham meios de espiar por detrás das nuvens, para checar se alguém jogava os raios - então a pressão popular para acreditar em Zeus não sofria resistência. Assim, a única fé que pode sobreviver é a fé confusa, pois ela exige inteligência demais para ser desnudada. E sempre pode existir um misticismo tão confuso que até uma pessoa genial seja capaz de depositar fé nele. Teólogos que o digam...

 

Se não sou místico, é por que não estou sujeito à pressão das pessoas me exigindo crenças nisto ou naquilo. Felizmente, estou num mundo que, se há pessoas que me condenam pela minha ausência de crenças, sempre há outras capazes de me adorar pelo mesmo motivo. Isso não me deixa sentir culpa.

 

 

Por que não sou monogâmico? <<

 

Poucas coisas me deixam tão perplexo quanto as pessoas considerarem a monogamia algo suportável. Pior ainda: a fonte da verdadeira felicidade!

 

 

Ela poderia ter a beleza de Luize Altenhofen, a doçura de Fernanda Takai e a mente de Suzana Herculano-Houzel (céus!). Nem por isso eu deixaria de me sentir enormemente reprimido se só pudesse estar com ela ao custo de não poder me apaixonar mais por mulher alguma. Pois não importa de quem se trata, a paixão e a sensação de novidade acabam. O amor restante é magnífico, sem dúvida. É até melhor! Mas não justifica abrir mão de uma nova paixão ou amor, e uma outra sensação de novidade. Por que não ter tudo?

 

A meu ver, só uma razão é possível: ciúmes.

 

Mas há quem defenda outras.

 

A maioria pensa que amor "de verdade" é quando queremos uma pessoa só pra nós. Não entendo isso. Em tese, meus amigos monogâmicos amam "de verdade" suas namoradas. Se elas escorregarem no autocontrole e caírem nos braços de outro (e isso nem é algo totalmente controlável!), fim da relação, sem perdão, sem volta. Não vejo como isso possa ser amor. É crueldade. É colocar a vaidade pessoal acima da importância que a pessoa tem na sua vida. No poliamor não é assim. Pode haver ciúmes, posso sofrer por alguém, mas não vou castigar alguém que amo! E não consigo pensar que este amor não é maior que o amor monogâmico.

 

Então, que a razão para alguém ser monogâmico não seja a de ter um amor real - como se o amor poligâmico fosse "falso" ou coisa assim.

 

Insisto: só os ciúmes justificam a monogamia.

 

Bem, meus ciúmes são bastante escassos.

 

Talvez essa seja toda a explicação que preciso dar. Mas talvez aquelas pessoas que são muito ciumentas não estejam só manifestando um sentimento inato fixo, que por acaso nelas é exacerbado. Talvez elas apenas acreditem demais na propaganda social pró-monogamia; talvez não tenham pensado o suficiente em o quanto o poliamor é tão ou mais belo que a imagem do casal feliz; talvez estejam cegas pela noção de que traição é humilhação.

 

Enfim, é um caso a se investigar.

 

P. S.: entre as três, eu escolheria a Suzana. Inteligência me leva às nuvens! ;)

 

 

Por que não sou moral? <<

 

Soaria menos torto perguntar: por que sou amoral? Ou ainda: por que não acredito em ética? Mas dito isso, tudo bem. Prossigamos.

 

O motivo é totalmente simples: não consigo me iludir.

 

Não existe uma base objetiva para conceitos morais, e penso que nunca haverá. É impossível. E todas as morais subjetivas, por definição, morrem na beira da praia. Ou você diz que "roubar é realmente errado", e se compromete com uma afirmação impossível, ou se disser "roubar é errado pra mim" isso não é moral, é um gosto pessoal. Nos dois casos, o ladrão vai roubar se quiser, e só o auto-interesse pode impedi-lo (o medo da polícia, por exemplo).

 

É fácil entender a futilidade de uma moral subjetiva: de que adianta ser errado matar "pra mim" se pra você não for? Nem faria sentido chamar de moral. Por definição, a Moral precisa sempre ser objetiva e universal, ou não passa de uma palhaçada que ninguém precisa respeitar.

 

E a moral objetiva? Onde na estrutura do Universo estaria "escrito" que roubar é errado "de verdade" por exemplo? Se alguém rouba, sai impune, não sente culpa e só tem lucro, como argumentar que não "deveria" ter feito aquilo? Não vou detalhar nada. Só vou avisar que, em dois mil anos de filosofia moral, ninguém jamais deu uma resposta minimamente satisfatória pra isso. Não há meios de mostrar que a Moral é "verdade". A Moral difere da matemática. "Roubar é errado" nunca será uma verdade como "2 + 2 = 4".

 

Mas eu vou mais longe. Não é apenas que a Moral seja ilusão. Seria algo péssimo se ela fosse "verdade" em algum sentido. Primeiro, seria inútil: se não queremos ser assaltados, basta coibir os ladrões com a polícia. É tudo. Não faz sentido que, além disso, precisemos acreditar que o ladrão "estava errado". Ele apenas tinha interesses prejudiciais a nós. Não somos os anjos da história.

 

Mas além de inútil, a moral cria mais sofrimento ainda. Por dois motivos: um, achamos natural e até justo violentar quem é visto como "imoral", e a maioria das "imoralidades" são apenas o nosso preconceito contra pessoas que não seguem as convenções estúpidas da sociedade; e, dois, a moral desperta culpa. Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer por culpa é mesquinho, falso, não livre, sem alegria ou amor.

 

E o pior: culpa nos leva ao auto-engano!

 

Quem sente culpa vive num estado de tortura mental, se fazendo crer que não deseja ou aprova coisas que, no fundo, adoraria fazer e aprovar. E como no fundo sabe que mente, não desfruta bem do amor que desperta nos outros, pois é um amor despertado por falsas posturas e insinceridades. Tal angústia cumulativa vai minar não só a felicidade, mas também a racionalidade: o único modo de se auto-enganar é não pensar. No fim todos serão marionetes com medo de si mesmas, do perigoso autoconhecimento.

 

A Moral é a mãe dos tabus. E os tabus são destruidores da alegria.

 

 

Por que não sou nacionalista? <<

 

Eu concordo entusiasticamente com H. G. Wells que a nossa verdadeira nação é a humanidade. Em A Guerra dos Mundos ele ilustrou o óbvio, que nossa estupidez natural só permite nossa união quando temos um inimigo comum. Tal tendência bairrista, esse "espírito de gangue", dominou toda a história da nossa espécie. Ora, eu penso que é positivamente idiota cultivar essa típica fidelidade especial ao lugar em que, por mero acaso, você nasceu.

 

Fazer parte de um grupo é se prontificar a ser xenófobo. Estudos já nos mostraram que até a cor das unhas é motivo para um grupo de mulheres (e eu disse mulheres!) se rachar em dois e despertar hostilidades mútuas - basta que algumas tenham unhas rosas, e outras tenham unhas vermelhas, por exemplo.

 

Mas o pior de tudo é que, sendo nacionalistas, aceitamos como se fosse normal o nacionalismo dos outros. Achamos justo que os Estados Unidos gaste quase todo o seu dinheiro para melhorar a vida já muito boa dos americanos, em vez de para solucionar os insuportáveis problemas do terceiro mundo. Aliás, o mesmo vale para o Brasil que, na média mundial, está é muito bem. Céus, quantos gênios nascem na miséria e não podem contribuir para a humanidade porque estão distraídos por uma fome insana? Enquanto isso, as dondocas burguesas acéfalas usam toda sua liberdade para importar vasos europeus.

 

Não chamo isso de egoísmo indecente. Ser egoísta é normal e bom. Mas eu chamo isso de estupidez e cegueira. Cooperar é muito mais prazeroso do que competir, e é preciso ser burro ou distraído por propagandas alienadoras para não perceber isto. Enquanto isso, fazemos alegremente as nossas crianças cantarem, em 7 de setembro: "Ou ficar à pátria livre ou morrer pelo Brasil".

 

Isso não é bonito. É ridículo e perigoso.

 

 

Por que não sou nazista? <<

 

Eu não precisaria perder meu tempo respondendo uma bobagem dessas, se não existissem tantas pessoas moralistas incapazes de dissociar "suástica" (um símbolo com milênios de existência) de "nazismo" (uma política mística fracassada e promotora de sofrimento desesperador e gratuito). Na verdade, a existência de tais moralistas me parece tão perigosa e assustadora que, em boa parte, essa é a razão de eu manter o nome do site: polemizar e afastá-las.

 

Pois não consigo levar a sério a inteligência ou os julgamentos morais de alguém que fica paralisado por um símbolo. Uma pessoa assim não é lúcida, simplesmente. Os instintos dela estão acima de seu julgamento racional, e isto é a coisa que acho perigosa além do meu limite. Além do que, é ridículo! É como se toda vez que eu visse alguém portando um crucifixo, ficasse nervoso e com medo de ser mandado para a fogueira, para ser queimado vivo.

 

E, obviamente, estou a anos-luz de ser nazista.

 

Na primeira versão deste site, hoje fora do ar, eu já dizia: "o nazismo é religião, é preconceito, é imposição, é ditadura, é dogma". E continuava: "a Suástica Azul [ao contrário] é inteligência livre, é entusiasmo, é opinião, é liberdade sobretudo psicológica, é espírito aventureiro e constante estado de surpresa". E acredito que qualquer mínima dúvida restante foi dizimada, quando eu expliquei o "azul" de "suástica azul":

 

"E o ser humano, enquanto habitante do planeta azul, traz em seu próprio DNA uma afeição natural por essa cor que inspira horizontes infinitos, e não altos muros por todos os lados, como faziam os nazistas. Ou como faz a sociedade moderna..."

 

O ideário nazista é praticamente o perfeito oposto do que penso.

 

P. S.: clique aqui para saber mais sobre o nome do site.  

 

 

Por que não sou niilista? <<

 

Era de se esperar que um ateu, amoral e irreligioso fosse niilista. A lista de opções de "sentido da vida" que está no menu parece totalmente rejeitada. Nem Deus, nem o Bem, nem a conexão com a Realidade. O que resta? O prazer.

 

É isso o que sou: hedonista.

 

A vida tem sentido, e é a busca do prazer e a fuga do desprazer. Prazer é o único fim em si mesmo. Nada faz sentido senão à luz do prazer. Acho insano que os niilistas rejeitem até mesmo isso! O prazer, para ser sentido, não exige fé ou qualquer forma de ilusão. Ele é um fato mental, produzido pelo cérebro, criado pela seleção natural com finalidades que, do nosso ponto de vista, são aleatórias. Mas não importa que sejam aleatórias. Elas são prazerosas, é tudo.

 

O niilista, de algum modo, está num tal estado onde sequer agir em prol do prazer parece fazer sentido. Talvez ele pergunte: "pra quê quero ter prazer? De que adianta?". Ora, isto é um erro de cálculo bem exótico. O prazer em si já é bom, isso basta. Não precisa servir para "alguma coisa". Desde que você sinta prazer e não sinta desprazer, a vida está o melhor possível.

 

Há quem ache esta visão estéril, feia, até mesquinha.

 

O que estas pessoas precisam é de uma boa dose de cinismo. Acho que por isso Lobão cantou: "Nem sempre se vê mágica no absurdo". Outra vez, o problema é moral: as pessoas condenam quem só se preocupa com o próprio prazer. É mais uma espécie de crime. A razão é que o hedonista parece um interesseiro perigoso, incapaz de altruísmo - sobretudo se alardeia na maior cara de pau que só se preocupa com o prazer. O niilista, pelo menos, não vê graça nem mesmo em se aproveitar dos outros.

 

Então é irônico pensar que o niilista pode não ser hedonista apenas por que se importa com o julgamento alheio.

 

Mas, entrementes, o hedonismo automático não basta.

 

A mente humana é um labirinto de armadilhas. O cérebro possui diversos objetivos conflitantes, joga nossos desejos uns contra os outros, ilude-nos com falsas promessas de felicidade fácil, nos entedia com atitudes que, se levadas a cabo, nos encheriam de alegria e nos trariam sucesso.

 

Então, é preciso ser um hedonista racional. Não basta fazer aquilo que dá vontade. É preciso pensar nas conseqüências. Só assim é possível maximizar o prazer de forma concreta, sem frustrações gratuitas, sem arrependimentos.

 

Não sou niilista porque buscar o prazer é belo e maravilhoso.

 

 

Por que não sou pós-moderno? <<

 

Algumas pessoas têm uma necessidade de sentir que estão na crista da crista da crista da onda. Eu não. E tenho a sensação de que toda a esquisitice pós-moderna é baseada nesse desejo de "estar no máximo do máximo". Percebo que a própria expressão "pós-moderno" é calculada para passar essa sensação. Quem se diz pós-moderno se sente tão incrivelmente na vanguarda de seja lá o que for, que estaria "além do moderno", mas sendo que o moderno, em geral, já é a própria definição do que está vanguarda.

 

Nem sei se por isso, mas tenho a sensação de que o pós-modernismo é uma besteira enorme. É que pessoas medíocres, por definição, são a maioria. Algumas delas parecem só conseguir viver se estiverem no topo, e parecem ter criado um método de auto-ilusão, para conseguirem acreditar que a expressão aleatória de o que quer que elas sejam capazes de fazer é, por si só, genial e está a altura dos grandes produtos e obras da humanidade. Basicamente, se você pinta um quadro ruim, o defeito é dos observadores, não do quadro. E todo um discurso insano sobre a "pouca visão" de quem não aprecia obras de quinta categoria é sistematicamente elaborado.

 

Minha aposta, pois, é que a pós-modernidade é um fenômeno causado pelo fato de que, pela primeira vez na história, as pessoas medíocres tinham condições o suficiente para, pelo menos, entrar no tiroteio com balas de festim. Um pobre camponês do passado não tinha condição sequer de fazer um texto péssimo, para poder fingir que era um texto bom. O medíocre hodierno pode.

 

Uma analogia com dinheiro ajuda. O dinheiro "pós-moderno" seria aquele que você jamais gasta, mas "sabe" que, caso resolva gastar, vão aceitar. Aqui o truque é óbvio: exatamente porque você não gasta, é que pode se iludir que tem dinheiro de verdade no bolso. Esse é basicamente o truque pós-moderno para, de forma fácil e automática, você se sentir na crista da onda. Como os medíocres são a maioria, é de interesse mútuo se iludirem uns aos outros, isto é, parar em frente a um quadro ridículo e comentar, com ar de superioridade, o quão profunda é a obra - mas sem a parte de explicar a tal profundidade.

 

Obviamente a analogia do dinheiro é um exagero. Nem os pós-modernos conseguem ser tão estupidamente exóticos.

 

Ah sim: não sou pós-moderno porque ser pós-moderno é ridículo.

 

 

Por que não sou relativista? <<

 

O sentido profundo de ser religioso não é algo tão mal assim. Religião é, na sua essência, o "re-ligare" ou a reconexão com um mundo maior. Em geral, o tal mundo maior é Deus e ponto final. Mas não necessariamente. É por isso que muitos cientistas ateus, quando maravilhados com a majestade do Universo e da Vida, acabam não encontrando palavra melhor para descrever o que sentem do que o termo "religião". Isso até seria adequado, se não fosse óbvio que as pessoas de fé acabariam entendendo tão mal o sentido dessa "religião".

 

É uma religião que não envolve fé, afinal, pois neste caso o tal "mundo maior" com o qual há o sentimento de conexão é o próprio Universo que está aí, à vista de todos. E isso é belo. Mas não sou religioso sequer nesse sentido.

 

Sim, eu me maravilho com a imensidão e sutileza do Cosmos.

 

Não, eu não me sinto "conectado" com o Cosmos de forma alguma.

 

Carl Sagan dizia, belamente, que somos "poeira das estrelas". Claro que ele encontraria a maneira mais científica possível de estabelecer tal conexão. É Carl Sagan, afinal! Mas ainda é uma conexão acidental e sem um sentido mais profundo, embora possamos ofegar, fascinados, quando damos pelo fato.

 

Devo estar perdendo algo. Algum "arrebatamento" ou uma sensação de otimismo universal que acomete os monges que meditam, as pessoas com certo problema neurológico e até os torcedores de futebol, quando Roberto Baggio erra o pênalti decisivo (se bem que essa eu senti, aos 12 anos!). Mas acredito que faz muita diferença acreditar que essa "sensação" é algo objetivo, ou saber que se trata de um jogo de espelhos sináptico do cérebro.

 

Não estamos conectados a nada. Ou pelo menos, é preciso a velha fé, que eu não tenho, para acreditar numa coisa dessas. Além disso, acho bonito o suficiente saber que o Universo existe, que é assim, que guarda seus mistérios. Por que eu preciso ser um ator do filme para amá-lo? Pelo contrário, me agrada bastante a visão cínica de que estamos aqui por sorte, e por nossa conta.

 

Meu prazer e minha dor bastam para dar um sentido à minha vida.

 

 

Por que não sou religioso? <<

 

O sentido profundo de ser religioso não é algo tão mal assim. Religião é, na sua essência, o "re-ligare" ou a reconexão com um mundo maior. Em geral, o tal mundo maior é Deus e ponto final. Mas não necessariamente. É por isso que muitos cientistas ateus, quando maravilhados com a majestade do Universo e da Vida, acabam não encontrando palavra melhor para descrever o que sentem do que o termo "religião". Isso até seria adequado, se não fosse óbvio que as pessoas de fé acabariam entendendo tão mal o sentido dessa "religião".

 

É uma religião que não envolve fé, afinal, pois neste caso o tal "mundo maior" com o qual há o sentimento de conexão é o próprio Universo que está aí, à vista de todos. E isso é belo. Mas não sou religioso sequer nesse sentido.

 

Sim, eu me maravilho com a imensidão e sutileza do Cosmos.

 

Não, eu não me sinto "conectado" com o Cosmos de forma alguma.

 

Carl Sagan dizia, belamente, que somos "poeira das estrelas". Claro que ele encontraria a maneira mais científica possível de estabelecer tal conexão. É Carl Sagan, afinal! Mas ainda é uma conexão acidental e sem um sentido mais profundo, embora possamos ofegar, fascinados, quando damos pelo fato.

 

Devo estar perdendo algo. Algum "arrebatamento" ou uma sensação de otimismo universal que acomete os monges que meditam, as pessoas com certo problema neurológico e até os torcedores de futebol, quando Roberto Baggio erra o pênalti decisivo (se bem que essa eu senti, aos 12 anos!). Mas acredito que faz muita diferença acreditar que essa "sensação" é algo objetivo, ou saber que se trata de um jogo de espelhos sináptico do cérebro.

 

Não estamos conectados a nada. Ou pelo menos, é preciso a velha fé, que eu não tenho, para acreditar numa coisa dessas. Além disso, acho bonito o suficiente saber que o Universo existe, que é assim, que guarda seus mistérios. Por que eu preciso ser um ator do filme para amá-lo? Pelo contrário, me agrada bastante a visão cínica de que estamos aqui por sorte, e por nossa conta.

 

Meu prazer e minha dor bastam para dar um sentido à minha vida.

 

 

Por que não sou Sith? <<

 

 

Sou tão devoto de Star Wars que decidi incluir esta pergunta mesmo sabendo que muitos leitores não estão familiarizados com a saga. Espero ser perdoado por este ato de fideísmo. O mais próximo que tenho de uma religião é me considerar, simbolicamente, um Jedi. Isto não é apenas um rótulo lúdico pra mim. Possui significado profundo. E vou falar disso.

 

Sigam-me os que são fortes com a Força.

 

Por que eu seria um Jedi e não um Sith, se sou amoral?

 

Porque os Jedis são, ao menos em princípio, capazes de ver mais longe. A ortodoxia moral de Yoda cega. Mas a sede de poder de Sidious cega muito mais. Yoda teme a cooperação calorosa e o amor instintivo, porque eles nos dominam em certo grau e, portanto, nos levam a desejar poder, mesmo que seja apenas para cuidar de quem amamos - sem falar em impressionar e controlar nossos amores, e afastar a concorrência, o que já são objetivos em tudo mesquinhos. Yoda quer o desapego budista.

 

Mas tal desapego é tão insosso e desumano!

 

É isto o que faz da queda de Anakin a tragédia grega primorosa que é.

 

Yoda tem seus motivos: o amor pela mãe e por Padmé de fato levaram Anakin à busca, a princípio desinteressada, por mais e mais poder. Mas o poder corrompe. Secamos por dentro. Criamos hostilidade ao nosso redor. O amor e a alegria definham. Nos tornamos zumbis emocionais, viciados numa superioridade alienada. Nesse sentido, a corrupção física que os Sith sofrem, e o fato de Anakin se tornar meio máquina, serão para sempre ícones da verdade.

 

Sim, da verdade! Afinal, nada disso é apenas sobre os personagens dos filmes. Trata-se de uma armadilha neurológica que herdamos de nosso passado evolutivo e que, aliás, alimenta todo o poço sem fundo do Império Capitalista. É o poder. Queremos mais, mais, mais. Sem prazer. Sem vontade.

 

Por ser tão cegamente egoísta, o caminho Sith é um suicídio hedonista. Afastar os afetos em favor da hierarquia é jogar a felicidade fora. Mas isto não significa que Yoda esteja certo. Yoda é um ortodoxo covarde. É possível ter o melhor dos dois mundos: se importar com os outros e buscar o prazer, sem cair na corrupção do poder. Aquilo que Anakin não foi capaz de fazer, Luke o fez.

 

Contra Yoda e contra Sidious, Luke escolheu os amigos e até o amor de um pai emocionalmente dilacerado. Luke viu mais longe. Ele possuía o idealismo necessário para recusar a tentação de poder oferecida pelos Sith. No momento derradeiro, ele vai além de Yoda: abandona o combate e confia nas emoções. E vence de um modo clássico, eterno.

 

O que Luke nos dá é um terceiro caminho entre a melancolia ascética e a lascívia cega do poder. O ascetismo ortodoxo religioso, encarnado por Yoda e pela rígida Ordem dos Jedi, tem o nobre desejo de evitar o vazio da corrupção e do mal. Mas o faz de modo covarde, meramente fugindo das tentações. Luke nos mostra que o controle sobre si mesmo não é a mera fuga dos instintos, que é fria e artificial, mas sim a capacidade de usufruir e gozar dos desejos e paixões, com maioridade e idealismo, sem a eles se submeter irracionalmente.

 

Não sou, pois, um Jedi como Yoda. Sou um Jedi como Luke.

 

 

Por que não sou trabalhador? <<

 

Dois motivos: status me dá desprazer. E não sou orgulhoso.

 

Por que alguém labuta 8 horas por dia em algo repetitivo e maçante? É preciso uma motivação enorme pra se submeter a algo tão absurdo. O horizonte do trabalhador médio nos diz o que é: depender de familiares é horrível, pois há coisas que você deseja e não pode ter e, sobretudo, recebe uma chuva ácida de condenações morais, humilhações, ataques à sua vaidade e orgulho.

 

Fora de casa a coisa não é melhor: os parceiros sexuais te evitam como fracassado perigoso. Os amigos, se trabalham, só reforçam o blá-blá-blá de sua família. Se não trabalham, provavelmente só falam em conseguir emprego, como se fossem viciados obcecados por alguma droga. Isso se há família e amigos! Se não há, então o problema é simplesmente passar fome. Seja como for, será um cenário melancólico, sombrio, depressivo, feito de frustrações seguidas de frustrações, solidão na multidão, indiferença dos que estão felizes lá fora. Você se sente um nada. Todos estão acima de você. O pior dos mundos.

 

Assim, parece que tudo se inverteu.

 

Como alguém pode não querer trabalhar?!

 

Compreendo o pânico. Mas desde cedo percebi que, mais fácil do que trabalhar 8 horas por dia durante 30 anos, seria encontrar as pessoas certas. Ou seja: amigos e parceiros sexuais menos estúpidos. Não estou dizendo que é fácil, mas compare com trabalhar! As pessoas simplesmente assumem que não existe ninguém diferente daquelas vinte e poucas pessoas medíocres que elas por acaso conheceram razoavelmente bem em sua vida.

 

Se você conhece as pessoas certas, terá amor, sexo e amizade de uma maneira ainda melhor do que as pessoas típicas, pois haverá idealismo, laços de idéias, impressão mútua de que todos são raros, envolvimento natural.

 

Estar na era da Internet ajuda horrores, é claro. Só a comunidade anti-trabalho do orkut tem mais de 2 mil membros, por exemplo.

 

Mas não vou dizer que trabalhar seja estupidez. Não ainda. Se escolhi não trabalhar, é possível que seja apenas por conta de características pessoais minhas. Não estou certo. Mas sei que, ao contrário de quase todos, eu não me sinto bem quando vejo alguém numa situação pior que a minha. Quando elogio alguém, sinto inveja. Mas quando me elogiam, meu ego não infla: é como se me amargasse a inveja que a pessoa está sentindo. Desejo trazê-la até meu nível. Eu quero amigos, não pessoas que me invejem. E é por causa disso que o meu custo de vida é tão baixo. Não quero nada com quinquilharias caras, capazes de anunciar aos quatro ventos "o quanto sou bem de vida". Isso me faria mal.

 

Além disso, não sou orgulhoso. Não vejo significado em qualquer ataque à minha "honra". Não tenho honra. Não "mereço" nada. Ninguém merece. Sinto os valores hierárquicos como tão ilusórios quanto os valores morais. Tudo o que importa é o prazer, mas o prazer não depende de poder pisar nos outros, muito pelo contrário: depende de ter amizades e amores reais e, portanto, uma total ausência de hierarquia - uma hostilidade direta à hierarquia.

 

As coisas que mais desejo não se compram, pois estão na profundidade das relações. E das coisas que se compram, desejo o mínimo. Trabalhar não me faz a menor falta, portanto. Ao contrário, é uma felicidade enorme e constante essa de ter tanto tempo livre para viver. E creiam-me: acho pouco tempo!

 

 

Por que não sou vegetariano? <<

 

Por dois motivos simples e capazes de mudar: primeiro, gosto de carne; segundo, não está claro que a dieta vegetariana seja lucrativa para a saúde - muito menos lucrativa o suficiente para justificar o árduo empenho em mudar. Os dados são ambíguos até aqui. Não consigo acreditar em dados selecionados quando ainda há professores de biologia me dizendo que carne é fundamental na digestão humana. Posso estar sendo iludido, mas não é minha culpa.

 

E o gostar de carne é fundamental. Uma adorável amiga, vegetariana e muito idealista, me disse detestar o sabor da carne. Céus! Essa idiossincrasia é mais da metade de qualquer idealismo! Como seria fácil defender com paixão o celibato dos padres se, por acaso, você não sentisse desejo sexual algum...

 

Existe a questão do sofrimento animal, também. Eu acho que concordo que, do ponto de vista dos animais, todos os seres humanos são nazistas. E eu me importo. Diferente do "ambiente" ou da "natureza", os animais sofrem. E dor é dor! Não tenho a menor pretensão de me importar mais com a dor de um ser humano que com a dor de um macaco. Isso é uma espécie de racismo - ou melhor, é um "racismo" entre espécies. Um "especiísmo".

 

Ouvi um argumento conformista para aceitarmos o sofrimento animal: é que ratos de laboratório, bois e porcos só existem por nossa causa. É verdade, mas daí não se segue que o sofrimento deles inexista ou seja irrelevante. E tal argumento é ridículo sobretudo porque, a bem dizer, nossos filhos também só existem por nossa causa. Não preciso dizer mais sobre tal argumento.

 

Mas não vejo por que parar de comer carne. E o motivo é o mesmo de eu não me preocupar em "votar conscientemente". Um voto não faz diferença, ponto final. É a pura verdade: tanto faz em quem eu votar, o candidato eleito será o mesmo. A resposta típica é: "ah, mas se todos pensarem assim...". Pois bem: eu sei que todos não vão pensar assim. Do mesmo modo, posso nunca mais comer carne em minha vida, e duvido que salve um único animal com essa atitude - e não é como se um único animal valesse tanto assim.

 

Então, só posso torcer para que os responsáveis sejam pressionados e, então, criem meios de minimizar ou erradicar o sofrimento animal. Mas não acho que parar de comer carne vá ter qualquer impacto aí.

 

por Lauro Edison, 11 de agosto de 2008*
* As exceções são datadas ao lado de cada tema.

 

 

 

  
   
 

 

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