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os devaneios de O TAO DA FÍSICA e do misticismo oriental
Tive, há cinco horas, uma experiência arrebatadora. Estava sentado no banco da praça, vendo pessoas dançarem na boate em frente, quando de súbito dei conta de algo. Sendo um leitor de física, eu sabia que um elétron encurralado em uma caixa se moveria cada vez mais freneticamente, conforme as paredes se fechassem sobre ele. Mas eu só tinha sentido isso através do livro de Brian Greene. Sentado na praça, vi as pessoas se comprimirem mais e mais, conforme chegavam outras e, a animação subindo, dançarem cada vez mais freneticamente. 'Vi' os elétrons de seus corpos participando nesta dança cósmica e frenética, e nesse momento eu soube: era o Funk das Cachorras a embalar o comportamento dos elétrons do Universo!
Você achou isto ridículo?
Se você pensava que a ciência ocidental não tinha nada a ver com o misticismo oriental, então precisa ler O Tao da Física: verá que é isso mesmo. Fritjof Capra inicia seu O Tao da Física comparando o movimento dos átomos com a Dança de Shiva, o Senhor dos Dançarinos adorado pelos hindus. É claro que Shiva não existe, que átomos não dançam e que “som” é algo que só existe no cérebro de alguns seres vivos. Fritjof Capra está, você pode pensar, apenas fazendo uma analogia inofensiva.
Infelizmente, no afã de comparar a física quântica com o misticismo oriental, ele chega a afirmar que "de acordo com a teoria de campo, cada partícula, de fato, 'canta, perpetuamente, a sua canção'" [esta ênfase é minha; todas nesta matéria também serão]. Então, parece que a comparação é séria. Mas ele admitirá, em seguida, que é tudo metáfora. E é assim que ele faz por todo o livro: afirma não querendo afirmar, desdiz, reinterpreta, diz o oposto.
A intenção, parece, é fazer afirmações bombásticas e, depois, de mansinho, torná-las "metafóricas" e poder negar o sentido literal que pareciam ter quando foram afirmadas. Isto, por si, já torna o livro bastante ruim, pois é fazer questão de confundir. Não é à toa que, entre as fileiras de seus adeptos, encontram-se relativistas, detratores da ciência (em favor de uma "nova ciência" que inexiste), solipsistas e pós-modernos.
O Tao da Física, lançado em 1975, defende a tese surpreendente de que as antigas tradições místicas do Oriente guardam "profundas semelhanças" com a física moderna. No caminho, fomenta uma série de confusões e mal entendidos, comete abusos epistemológicos e faz afirmações tolas sobre a sociedade - levadas ao extremo em O Ponto de Mutação, livro seguinte de Capra.
Para ser justo, não é um livro tão ruim quanto se pensa. No seu melhor, faz explanações interessantes sobre aspectos experimentais e teóricos da física, como o processo de observação de partículas e o significado das dimensões adicionais. Embora sempre com um viés na direção do oriente, há passagens verdadeiramente empolgantes e esclarecedoras sobre física, mesmo para quem já leu Stephen Hawking ou Brian Greene. Sim, é recomendável.
Este, contudo, é o problema. Se fosse um livro inteiramente ridículo, seria fácil esquecê-lo. Mas as boas passagens acabam servindo como cavalos de Tróia carregando as passagens ruins, dando um ar de legitimidade a idéias que não fazem sentido. Para os amantes da ciência, é fogo amigo. Para os detratores, é um sonho: um físico conceituado defendendo o relativismo e o misticismo, louvando o "conhecimento intuitivo" e criticando as leis da lógica!
Ao contrário do que o autor diz, ou parece dizer pra muitos, os fatos da física moderna não implicam que espaço e tempo sejam ilusões; que objetos e leis da física sejam criados pela mente; que a objetividade da ciência é um mito; que o saber científico é relativo; que a linguagem e a lógica são incapazes de explicar os fatos; que o mundo não é composto de partes menores; que "mente" e "realidade" são a mesma coisa. Nada disso é verdade.
Este texto visa identificar e criticar todo o estrago causado por Capra.
Pra logo cortar o barato dos pós-modernos, vou começar com aquilo que está somente no final, no epílogo, de O Tao da Física:
"Estará a ciência moderna, com todo o seu sofisticado equipamento, a redescobrir, meramente, a antiga sabedoria, conhecida dos sábios orientais há milênios? Deverão os físicos, portanto, abandonar o método científico e começar a meditar? Ou poderá existir uma influência mútua entre a ciência e o misticismo, talvez até uma síntese? Penso que todas estas perguntas têm de ser negativamente respondidas."
Ora, senhor Fritjof Capra, por que não disse antes?!
Eu poderia apostar que o livro não teria vendido a metade se esta clara e eloqüente mostra de lucidez estivesse no prefácio do livro. Mas vamos à tese maior de Capra: segundo ele existem duas formas de conhecimento, a racional e a intuitiva. A primeira é limitada, relativa e aproximativa: típica dos cientistas; a segunda é superior, absoluta e capta a essência das coisas: típica dos místicos. Este é o ponto de partida do livro.
Além disso, a intuição é capaz de compreender verdades inacessíveis à razão. De fato, a razão não apenas é desnecessária à obtenção do conhecimento verdadeiro: ela atrapalha. Aprendizes budistas são alvo de questões paradoxais, no intuito de fazê-los abandonar a razão e mergulhar num estado "intuitivo", livre das "limitações do intelecto" que, de outro modo, se fariam insistentemente presentes, impedindo o aluno de alcançar a verdade.
Procedendo mais ou menos assim, as demais tradições orientais teriam acesso ao verdadeiro conhecimento da realidade. E Capra é tão entusiasta desta "sabedoria intuitiva" que chega a afirmar que a humanidade não ficou mais sábia nos últimos 2 mil anos "apesar do incremento do conhecimento racional". Mas que sabedoria é essa? Ela existe? "Os místicos orientais insistem repetidamente no fato de a realidade última não poder ser nunca objeto de raciocínio ou de conhecimento demonstrável". E que motivos resta então para acreditar, se o mesmo pode ser dito sobre qualquer disparate?
Fica claro então que, segundo o autor e os próprios místicos, esta forma de sabedoria é assumidamente irracional, isto é, não pode ser expressa pela linguagem e não pode ser compreendida pelo intelecto. Também não pode ser confirmada de maneira alguma, a não ser de forma pessoal e introspectiva.
E isto, é óbvio, deveria ser razão suficiente para não se acreditar nela.
Afinal, os católicos prometem que, embora não possam provar, seguir os ensinamentos de Cristo é o caminho certo rumo ao paraíso (e que, aliás, perder tempo com crendices orientais é paganismo e blasfêmia). Sem evidências de um lado e de outro, como escolher? Aliás, por que escolher? E é claro que não há somente estas duas opções, mas dezenas.
Mas, tudo bem, vamos analisar o que este "conhecimento intuitivo" nos revela. Apesar de ele ser incomunicável, as tradições orientais bem que tentaram comunicá-lo. O resultado, segundo eles mesmos, é fragmentário e limitado. Mas é este resultado que o autor usará para fazer as comparações com a física.
Na verdade, como veremos, são diversas "sabedorias" orientais, mas Capra encontra (ou seria procura?) uns poucos princípios supostamente comuns a todas. Basicamente, as grandes descobertas da mística oriental, inexplicáveis em termos racionais limitados, são estas:
- Não existem entidades isoladas, tudo é parte integrante do todo.
- A realidade não é mecanicista, mas orgânica.
- A realidade não é estática, mas essencialmente dinâmica.
- O Universo inclui sempre o observador de um modo essencial.
Parece que o alegado problema de tais verdades não serem traduzíveis em termos inteligíveis é mesmo sério. Capra nós: você entendeu algo? Pense rápido: um tijolo é uma entidade isolada, ou é uma parte integrante do muro? Se você foi levado a responder um dos dois, errou. A resposta é ambos. A pergunta insinuou uma falsa dicotomia. E a sensação é de que os dois princípios seguintes também insinuam falsas dicotomias (do observador, falaremos depois).
Não procure esclarecimentos em O Tao da Física. Nem por um momento Capra tenta explicar estas afirmações. Só as repete, vezes sem conta, após uma ou outra explanação sobre física. E o que ele poderia dizer? A maioria dos epistemólogos está de acordo sobre o que é conhecimento: crença verdadeira e justificada. Isto é, você só tem conhecimento sobre X quando:
a) você acredita em X b) X é verdade c) você possui justificativa racional para acreditar em X
Então, é difícil ver como "verdades" confusas, inexplicáveis em termos racionais, podem constituir conhecimento em algum sentido. Podemos até supor que os orientais acreditam de verdade em... "seja lá o que for" (eles não conseguem explicar, afinal); mas não há porque supor que aquilo que eles obtêm através de meditação e introspecção seja verdadeiro. Mesmo que seja, não há nenhuma justificativa racional para acreditar - e isto até eles assumem.
Isto mostra que a "sabedoria oriental" é na verdade irracional, vaga, ambígua e propositalmente paradoxal. No mais das vezes, não quer dizer nada. Capra protesta: “o misticismo (...) tem sido tradicionalmente associado, de maneira errada, com coisas vagas, misteriosas, acientíficas”. Eu diria que de maneira acertada. Não há absolutamente nada no livro que faça pensar o contrário. Edificâncias como “Quando um monge perguntou a Tozan, que estava a pesar linhaça, ‘o que é Buda?’, Tozan respondeu, ‘esta linhaça pesa um quilo e meio’” só pioram as coisas.
Tome como exemplo a sabedoria do Tao, que dá nome ao livro. Tao significa "o caminho" e, na palavras de Huai Nan Tzu, proferidas antes de Cristo, "aquele que se conforma com o percurso do Tao, adotando os processos naturais do céu e da terra, acha fácil lidar com todo o mundo". Que processos são esses? Movimento e mudança incessantes, de natureza cíclica. Em suma, aquela história do "eterno ciclo de opostos" captada pelo conhecido T'ai-chi T'u:
"O yang, tendo atingido o seu clímax, retrocede em favor do yin: o yin, tendo atingido o seu clímax, retrocede em favor do yang".
Eu juro que não entendo o que isto tem de "sabedoria". Vejamos.
Iluminado, ele contemplava a sabedoria milenar do Tao, o Yin-Yang:
Ó, eterna transformação de tudo em seu oposto! Quão bela, quão simples, quão sábia!
O dia vira noite, e esta volta ao dia! \o/
A calmaria dá lugar à tempestade, e esta retorna à calmaria! \o/
O saudável adoece, e o doente se torna são! – bem, às vezes. =D
A primavera se torna verão e este se torna primav... quer dizer, se torna outono, depois inverno e, agora sim, volta a ser primavera! =)
O jovem se torna velho, e o velho... ops, o velho morre. Mas, se tudo correu bem, ele deu origem a outro jovem no caminho! =|
A Terra gira pra esquerda e... jamais gira pra direita. Nunca. =(
Tudo o que sobe desce, e tudo o que desce... err... fica no chão, de uma vez por todas. ='(
Que fazer? O Yin-Yang não é uma lei do Universo como a gravidade, nem de forma vaga e aproximada: poucas coisas retornam ao seu oposto, muito menos de forma cíclica e regular. Aliás, a maioria das coisas sequer têm oposto. Qual o oposto de cinza? Se o oposto da água é o fogo (?!), qual o oposto do gelo? Se o oposto do líquido é o sólido, o que dizer do gasoso? Qual o oposto de banana, dedo, tato, número, parede?
E os adeptos são ensinados não apenas a esperar que os opostos se sucedam ciclicamente. Eles precisam fazer a manutenção do ciclo (imagine se nós precisássemos "ajudar" a gravidade!): "No Oriente uma pessoa virtuosa não é aquela que empreende a tarefa impossível de lutar pelo bem e eliminar o mal, mas a que é capaz de manter um equilíbrio dinâmico entre bem e mal". Ou seja: se as coisas estiverem boas "demais", você deve... ! Além disso:
"Buda ensinava que 'todas as coisas compostas são transitórias, que todo o sofrimento do mundo surge do nosso apego a formas fixas — objetos, pessoas ou idéias — ao invés de aceitar o universo, em movimentos e mudança'". Outra vez, quanto sofrimento foi causado pela idéia de que a gravidade é fixa e imutável? Acho que nenhum.
Entre outras pérolas de "sabedoria" encontradas no livro, temos:
"Alegria, verdadeiramente, é o mesmo que Vazio.
"Quando se compreende que no mundo a beleza é bela, então o feio existe; quando se compreende que ser bom é bom, então existe o mal" - Lao Tzu
"Onisciência não é nem o existente, nem o não existente, nem aquilo que é simultaneamente existente e não existente, nem aquilo que não é simultaneamente existente e não existente" - Ashvagosha
A suposta sabedoria Oriental parece, assim, vazia e fútil. Mas, mesmo que ela não seja, não quer dizer que tenha quaisquer tipos de relações com a física moderna - sobretudo porque, em geral, a sabedoria oriental é tida como ética (pelo menos, é o que dizem seus adeptos quando pressionados com argumentos como os vistos acima), e a sabedoria científica é empírica, factual. Os sábios orientais se preocupam com aquilo que deve ser; os físicos com aquilo que é.
Mas a suposta semelhança entre ambos é nosso tema daqui pra frente.
Fritjof Capra é um gênio. Ele conseguiu ser levado a sério ao comparar trechos selecionados do hinduísmo, budismo, taoísmo, zen e, acredite, até do "pensamento chinês" (poderia haver "vertente" mais ampla?), com escritos sobre a física moderna, tendo aí diversas áreas, especialidades e interpretações para escolher à vontade. E boa parte do resultado consiste apenas em citações de textos orientais onde é possível ver paralelos com a física moderna.
Só que as citações mais impressionantes são de fontes recentes, de escritores que já conheciam as teorias modernas quando escreveram. Com tanta liberdade, impressiona que não tenha feito algo muito melhor. Nos moldes amplos de O Tao da Física, daria pra escrever um O Iglu da Economia (aliás, veja isto), ou um A Pomba-Gira da Química, sem problemas.
Quando ele diz "que tipo de afirmações vamos comparar? Que vamos selecionar dos dados experimentais, equações e teorias, de um lado, e das escrituras religiosas, mitos antigos ou tratados filosóficos, de outro?", a resposta honesta deveria ser: "qualquer coisa que cole". Sem dúvida, não é outro o "critério' utilizado por ele. Mas começarei com a promessa do livro:
"Veremos como a teoria quântica e a teoria da relatividade obrigam a perspectivar o mundo muito à maneira de um hindu, budista ou taoísta". As duas teorias mostram, segundo Capra, que a realidade é "um todo integrado". Um todo integrado? Mas elas são incompatíveis entre si! Ele não toca no assunto. E começa sua comparação entre física e misticismo nos métodos de ambas:
"Os cientistas e os místicos desenvolveram métodos altamente sofisticados de observação da natureza, inacessíveis às pessoas comuns. Uma página de um periódico de física moderna será tão misteriosa para o não iniciado como uma mandala tibetana. São ambos registros de indagações da natureza do universo."
"Quem pretende repetir uma experiência em física subatômica moderna tem de se submeter a muitos anos de aprendizagem (...) Uma profunda experiência mística requer, muitas vezes, similarmente, muitos anos de aprendizagem junto de um mestre experimentado (...) A experiência mística não é, portanto, mais singular que uma experiência em física moderna."
A retórica merece aplausos. Mas, no que de fato importa, a diferença é brutal: os métodos da física fazem previsões, comprovadamente eficazes, e estas são acessíveis aos não iniciados. Fosse diferente, ninguém se sujeitaria a estudar física por anos - a não ser, talvez, pessoas sufocadas por uma cultura que inibe a razão. Os "métodos" da mandala, é claro, não fazem nada parecido.
E embora os métodos orientais consistam sempre em alguma forma de meditação introspectiva, Capra insiste que eles são "observações" e, daí, salta a conclusão de que tanto a física quanto o misticismo se baseiam em observação empírica! Mas não é possível conceber uma busca menos empírica do que a oriental, que se trata de fechar os olhos e ignorar todos os demais sentidos - "a apreensão mística da realidade é essencialmente não sensorial".
Por outro lado, a ciência faz questão de ampliar os sentidos, com seus instrumentos. E você ainda poderia pensar que a "observação mística", sendo introspectiva, é uma análise da própria consciência, uma busca totalmente subjetiva. Mas a pretensão de objetividade deles é a maior possível: ao meditar, dizem "abarcar todo o Universo". Se isto saísse da boca de um cientista, seria com razão tido como pretensão ridícula. Capra está, portanto, transformando diferenças radicais em uma semelhança vaga e forçada.
Mas a alegada semelhança fundamental entre física e misticismo é "a unidade e inter-relação de todos os fenômenos e a natureza intrinsecamente dinâmica do Universo". Aí precisamos falar da física newtoniana. Por que, para o autor, a física de Newton trata os objetos como isolados, e a física quântica (bem como o misticismo) trata os objetos como inter-relacionados.
É preciso, antes, dizer algo importante. Ao criticar o "modelo ocidental" da ciência, Capra ataca dois erros do racionalismo que os próprios racionalistas rejeitaram profundamente: a idéia pitagórica e platônica de que a matemática "seja" a realidade; e o dualismo de Descartes, que separou a mente da matéria - ambos criticados por Carl Sagan na série Cosmos. Capra chuta cachorro morto e faz uma imagem errada, e mais fácil de atacar, da ciência ocidental.
Dito isto, vamos ao odiado Newton e a "visão de mundo mecanicista da ciência cartesiana-newtoniana" (expressão usada em O Ponto de Mutação). O que significa dizer que, para Newton, os objetos estão isolados e, para a física moderna, eles estão inter-relacionados? Bem, o que Capra quer dizer (e não diz!) é que as partículas de Newton são qualitativamente diferentes do espaço que as cerca, e as partículas quânticas são qualitativamente iguais ao espaço que as cerca, por que este espaço está tomado por energia e as partículas não passam de uma forma de energia. Isto é fascinante, mas e daí?
Os orientais falam vagamente em "inter-relação de todas as coisas", mas todas as partículas newtonianas eram inter-relacionadas (pela força da gravidade) e relacionadas com o espaço (porque imersas nele). A inter-relação das partículas quânticas é apenas de outro tipo.
E sobre tudo ser "parte integrante do todo"? Se está dentro do Universo, faz parte dele; e ele é o todo. É uma tautologia! Não havia (e nem poderia haver) nada na física de Newton que deixasse de ser "parte integrante do todo".
O importante é que os orientais nunca falaram em partículas, muito menos especificaram o tipo de "inter-relação" ou "unidade" de que estavam falando. Se eles descobrissem que a sua majestosa "inter-relação de todas as coisas" está restrita a partículas invisíveis, dariam um belo bocejo.
Pulei, há pouco, a questão da "natureza intrinsecamente dinâmica". De fato, a interpretação prevalecente da física quântica é muito clara: partículas não têm posição e velocidades definidas num dado momento. É como se não existisse "a partícula que se move", mas apenas "o movimento da partícula". Se isto é verdade, não poderia haver concretização mais perfeita da expressão "intrinsecamente dinâmica". Acontece que esta expressão é de Capra, e não de algum texto oriental. O melhor que o autor consegue é O Livro das Mudanças, e suas idéias místicas sobre Yin-Yang e eterna mudança já abordadas aqui.
Mas os movimentos do Yin-Yang são movimentos no sentido clássico e trivial. Por exemplo, fala-se em "mudança incessante", mas até na visão de Newton as partículas sofriam mudanças incessantes de posição, pois se moviam. E nunca é demais lembrar que nenhum oriental está pensando em partículas, e tampouco em objetos maiores, "sem posição definida".
E, no entanto, há outras interpretações da física quântica segundo as quais as partículas possuem posições e velocidades definidas, embora nós não possamos conhecê-las. Estas versões, contudo, implicam num estranho efeito de "não-localidade", que Capra também usará para afirmar que "tudo afeta tudo" - mas ele não diz que se o efeito de não-localidade for real, a idéia de "dinamismo intrínseco" não será. Não se pode ter tudo, mas ele finge que pode.
Imperdoável é a sugestão de que tanto a física quântica quanto a fé oriental são capazes de "alcançar" a compreensão de paradoxos. Obviamente, a dualidade partícula-onda é, para Capra, uma verdadeira farra! Ele celebra que, depois disto, a ciência "não podia mais confiar completamente na lógica", e dá vivas ao paradoxo. É onde ele quer chegar: o conhecimento intuitivo seria superior à razão justamente porque esta última (tão limitada!) não seria capaz de compreender coisas paradoxais - como um círculo quadrado, por exemplo.
Eu não deveria precisar dizer que "compreender um círculo quadrado" é, longe de um conhecimento superior, loucura. Mas, em O Tao da Física, você aprende que a física quântica está justamente falando em círculos quadrados ("suas afirmações são paradoxais e cheias de contradições lógicas") - e, é claro, se aproximando da filosofia oriental por isso.
Mas a partícula-onda é como um círculo quadrado?
O próprio autor, depois de muito enrolar o leitor, recua: "a introdução do conceito de ondas de probabilidade resolve, de certa forma, o paradoxo de as partículas serem ondas ao introduzir a questão num novo contexto".
Vou frisar isto citando Brian Greene: "a natureza faz coisas estranhas. Ela vive perigosamente, mas toma o cuidado de esquivar-se do golpe fatal do paradoxo lógico". A natureza não contém paradoxos lógicos, porque paradoxos lógicos não podem existir. Não se compreende ainda o que significa a matéria obedecer a equações para partículas em certos experimentos, e equações para ondas em outros, mas sem dúvida não é um paradoxo real o que acontece.
De qualquer modo, se a questão é visualizar um objeto que seja onda e partícula ao mesmo tempo, o maior dos mestres orientais não se sairá nem um pouco melhor do que o ocidental médio neste exercício de tortura mental - mas o autor garante que "estes paradoxos são característicos do misticismo".
Ele fala sério quando diz:
"Exemplos de unificação dos opostos podem ser encontrados ao nível subatômico, onde as partículas são ao mesmo tempo destrutíveis e indestrutíveis; a matéria é simultaneamente contínua e descontínua, energia e matéria são dois aspectos de um mesmo fenômeno".
Note que "matéria" e "energia" viraram opostos nesta passagem. Vamos aos casos plausíveis: as partículas são destrutíveis e indestrutíveis? Bem, são destrutíveis, porque podem se desfazer em energia pura. E são "indestrutíveis" no sentido vago de que não podem se dividir em partículas menores - apenas em energia pura. Isto não é ser realmente indestrutível. Esqueça.
A matéria é contínua e descontínua? Vejamos: segundo Capra, "matéria" é apenas um ponto com alta concentração de energia, isto é, uma forma de energia. E, sabemos, nenhum lugar é realmente vazio: tudo está permeado por energia. Se nada separa a energia em "partes", ela é contínua. E como energia e matéria são "a mesma coisa" (insinua Capra), a matéria é contínua.
Mas, foi dito, "matéria" é apenas "muita energia num mesmo ponto". E estes pontos estão espacialmente separados entre si. Na grande maioria dos pontos do espaço não há energia suficiente para se "condensar" em partículas; mas em alguns poucos pontos, uns distantes dos outros, a energia é tão concentrada que adquire propriedades materiais, formando o que denominamos "partículas". E, neste caso, dizemos que a matéria é descontínua.
O jogo de palavras já deve estar claro, mas é bom esmiuçar. Pense num oceano cheio de icebergs à deriva: o gelo é "contínuo" ou "descontínuo"? Se você forçar a barra e disser que "gelo e água são a mesma coisa", então até pode dizer que o gelo é contínuo, pois estará chamando de "gelo" a parte líquida do oceano; mas se notar que o gelo é uma manifestação diferente da água, então dirá que o gelo é descontínuo: os icebergs são blocos de gelo, separados uns dos outros pela água líquida.
Conclusão: a matéria é descontínua, pelo menos segundo a definição que vimos acima. Para dizer que ela é contínua, é preciso mudar a definição do termo, chamando de "matéria" inclusive as baixas concentrações de energia, que não se condensam em partículas. Isto é o mesmo que chamar a água de gelo. Ora, se a "matéria" é contínua em um sentido e descontínua em outro, então não há paradoxo real.
Os pretensos exemplos de unificação paradoxal de opostos são apenas bobagens do tipo: a Terra tem fim ou não? Na verdade, ela é redonda... Tem fim, porque tem um tamanho limitado; e não tem fim, porque não se pode chegar ao "final" dela. Mas os sentidos são diferentes e, neste caso, este "fim" não é o oposto daquele "sem fim" - e o paradoxo não existe, portanto.
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Pra piorar, a unificação de opostos pretendida pelos orientais não é paradoxal. Quando eles dizem que os opostos são "dois lados de uma mesma realidade", não estão violando o princípio da não-contradição, dizendo que algo é "A" e "não-A" ao mesmo tempo, mas apenas frisando que há relação e unidade entre os opostos, o que é óbvio.
O frio e o calor, por exemplo, estão relacionados: um é o oposto do outro. E estão unificados: em uma escala que vai do frio ao calor. Isto vale para todos os opostos e é a grande "sacada" dos orientais - pelo menos, há três mil anos pode ser que ainda fosse novidade mesmo.
A verdade é que qualquer menino de seis anos entende isso. Ninguém trata "bem" e "mal" como "microchip" e "ornitorrinco", isto é, coisas totalmente separadas. E os orientais exageram, ou erram tudo, quando sugerem ou dizem que "na verdade" não existem opostos. O que eles dizem é "vida e morte são aspectos diferentes da mesma realidade". Diferentes!
Se fosse "vida e morte são aspectos iguais da mesma realidade", então não existiriam opostos mesmo... Mas isto seria ridículo.
Quando fala da (controversa) teoria da armadilha, Capra sustenta que ela se alinha com as diversas escolas do misticismo oriental no seguinte sentido: o Universo é um todo interconectado, e as propriedades de uma parte são determinadas pelas propriedades de todas as outras. Mas isto é falso: dois locais que se afastem em velocidade superior à da luz¹ não podem, em hipótese alguma, causar qualquer coisa um no outro, estando totalmente isolados.
E a comparação musical retorna: "para os físicos modernos a dança de Shiva é a mesma da matéria subatômica. Tal como na mitologia hindu, é uma contínua dança de criação e destruição que envolve todo o cosmos: a base de toda a existência e de todos os fenômenos naturais". Basta dizer que não há destruição alguma na versão da física: a matéria não é destruída, mas se torna energia pura, e esta volta a se tornar matéria. Tampouco é "dança".
Depois, ele chega a comparar o diagrama de um octeto mesônico, da física de partículas, com o diagrama dos oito trigramas do I-Ching e, embora admita que a semelhança gráfica é acidental, salienta que ambos enfatizam a mudança e a transformação, em vez de a estrutura e a simetria (mesmo que ambos sejam simétricos!).
E, no entanto, os trigramas chineses implicam mudança e transformação não de partículas subatômicas, mas de entes macroscópicos, como fica claro: "[os oito trigramas] estavam associados com muitas imagens retiradas da natureza e vida social. Representavam, por exemplo, o céu, a Terra, a trovoada, a água, etc". Mas a física nega que tais entidades macroscópicas estejam em constante transformação e mudança: como os efeitos quânticos se anulam, o mundo macroscópico é, para a física moderna, exatamente o mesmo que para a física newtoniana - ou seja, "estático" (segundo Capra). Insistir no oposto é dizer que "a água é seca, porque suas partículas não são líquidas".
Por fim, ele compara o ch'i hinduísta, que é "energia vital" (?) espalhada pelo cosmos, com o campo quântico moderno, que é o campo das flutuações de energia, gerando e diluindo partículas incessantemente. Segundo o autor (e não segundo qualquer fonte antiga) "o ch'i é concebido como uma forma de matéria tênue e não perceptível, onipresente em todo o espaço e que se pode condensar em objetos materiais sólidos".
Mas o ch'i é um "éter" carregador de vida, capaz de causar doenças ou promover a saúde, tendo, portanto, influências macroscópicas. Ao contrário, o campo quântico só tem existência na menor das escalas, e não entra em nosso corpo como um "gás invisível". Quer mais? O campo existe. O ch'i é lenda.
Relativismo e Anti-Objetividade <<
As comparações da física com o misticismo são indefensáveis. O próprio misticismo é indefensável. Mas O Tao da Física faz bem pior: ele não afirma que o misticismo tem base científica; ele afirma que a ciência tem base mística! E, por conta disto, certas passagens parecem negar a objetividade científica, razão por que os pós-modernos vêem em Fritjof Capra um aliado, embora ele não seja - ele é apenas péssimo em filosofia.
Este é o ponto: Capra não diz nada que realmente leve ao relativismo ou à negação da objetividade, embora pareça fazê-lo muitas vezes.
Hora de desfazer as confusões.
E vou antecipar que, apesar de tudo o que já veremos, ele escreveu que "os físicos constroem uma seqüência de teorias parciais e aproximadas, cada uma delas mais precisa que a anterior, mas não representando nenhuma delas uma imagem completa e final do fenômeno natural", isto é, a ciência chega cada vez mais perto da verdade, embora nunca descubra tudo. É esta, e apenas esta, a mensagem de Capra.
Detalhe: todos sabem disso. Nem o cientificista mais fanático - se há um - afirma que a ciência pode saber tudo. E, aliás, pra quê uma imagem completa do Universo? Quem quer saber a posição exata de todas as estrelas ou o valor completo de Pi (3,14159265358979323846264... ao infinito)? O importante é que o pouco que a ciência sabe (supondo que seja pouco) é garantido. E, apesar de toda a sua confusão, Capra está de acordo com isto.
Esta não é, infelizmente, a interpretação da maioria de seus adeptos.
Pudera. Veja as afirmações ambíguas e enganadoras do autor:
"Tendo as noções de espaço e tempo sido reduzidas ao papel subjetivo de elementos de linguagem (...) para descrever fenômenos naturais..."
"As estruturas e fenômenos que observamos na natureza não são mais que criações da nossa mente caracterizante e quantificadora."
"O método científico de abstração é muito eficiente (...), mas temos de pagar um preço por ele. À medida que definimos o nosso sistema de conceitos com mais precisão (...) e tornamos as conexões cada vez mais rigorosas, torna-se cada vez mais desligado do mundo real."
"Os físicos começaram a aperceber-se que todas as suas teorias dos fenômenos naturais, incluindo as ‘leis’ que eles descrevem, são criações da mente humana, propriedades do nosso mapa conceitual da realidade, em vez da própria realidade."
Algumas destas afirmações são facilmente mal interpretadas. Outras são simplesmente erradas. Por exemplo, espaço e tempo não são só "elementos da linguagem". Eles têm existência concreta, são capazes de se curvar e de afetar a matéria, como o próprio autor várias vezes diz. Como pode uma abstração da linguagem se curvar e formar buracos negros?
As duas frases finais, ao contrário, apenas dizem algo óbvio: teorias descrevem a realidade mas, mesmo que o façam de forma corretíssima, elas "não são a própria realidade". É tão bobo quanto "o mapa não é a cidade" - a analogia-chave usada pelo autor. Mas é fácil ler a frase como significando: "gravidade, elétrons, DNA e tudo o que está nas teorias científicas é invenção humana, não existe". E é assim que muitos entendem.
A segunda frase parece dizer: tudo o que vemos é criação de nossa mente! Mas, na verdade, apenas diz que o modo como percebemos as coisas é criação de nossa mente, e não as próprias coisas percebidas. E isto é outra trivialidade sabida por qualquer estudante do ensino médio: nenhuma maçã é realmente vermelha, mas é um objeto real, e que reflete freqüências luminosas que o nosso cérebro percebe como "vermelho".
A razão da confusão, em boa parte, é que o autor está comparando estas nuances da ciência moderna com afirmações orientais realmente radicais, como esta: "O hinduísmo afirma que todas as formas e objetos à nossa volta são criados pela mente sob o desígnio de maya". Isto é muito diferente de uma afirmação sobre o modo como percebemos o mundo, mas como Capra está buscando semelhanças entre fé oriental e ciência, ele faz questão de embaralhar as coisas.
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E, aqui, cabe uma breve digressão:
Capra usa o termo "mente", mas isto gera confusão. "Mente", em geral, é sinônimo de "consciência", isto é, sua mente é você. E não é você quem cria o vermelho, mas o seu cérebro. Esta diferença é fundamental. É o seu cérebro, e não você, que faz a freqüência de luz emitida pela maçã ser percebida como "vermelha". E isto não está sob controle da sua consciência, isto é, não está sob o seu controle. Ou seja: você não pode decidir ver a maçã como "azul"!
Quem vê Capra afirmar, sem maiores explicações, que "os fenômenos observados são criações de nossa mente" facilmente vê nisso a alegação de que, se tivermos vontade, podemos alterar o modo como percebemos o mundo - e até o próprio mundo! Se você entendeu isso e, pior, acreditou, sugiro um teste simples: tente! Fim da digressão.
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Mas nem tudo é mera confusão.
O autor realmente questiona a objetividade científica, e o faz por duas razões: primeiro, a física quântica mostrou que, como o observador influencia o sistema observado, a objetividade é um mito; e, segundo, a relatividade mostrou que espaço e tempo não existem concretamente, sendo apenas ilusões descritivas criadas pela mente humana. As duas coisas estão erradas.
A relatividade é tratada de forma ridícula em O Tao da Física. É possível encontrar tanto a afirmação de que tempo e espaço não existem, quanto a afirmação de que eles são capazes de se curvar e afetar a matéria. Mas veja esta citação de Hermann Minkowski, que está no próprio livro:
"As visões de espaço e tempo que quero apresentar-vos brotaram do terreno experimental da física, e aí reside a sua força. São radicais. Daqui em diante, espaço, por si só, e tempo, por si só, estão condenados a desaparecer em sombras difusas, e apenas uma união das duas prevalecerá como uma realidade independente."
Este é o ponto. Capra confunde o "espaço e tempo não existem" da fé oriental, com o "espaço e tempo não existem do modo como pensávamos" da teoria da relatividade. Einstein nos mostrou que o espaço e o tempo, isolados, são relativos aos observadores. Ser relativo é muito diferente de "não existir". Mas é pior: Capra esquece que, para Einstein, o conjunto espaço-tempo não é relativo, mas absoluto.
O outro ponto é outra bobagem, porém mais sutil.
Os experimentos da física de partículas levam o observador a influenciar o objeto observado: é o famoso "colapso de onda", quando o objeto deixa de ter propriedades típicas de onda e, logo que é observado, passa a ter propriedades típicas de partícula. Parece místico? Lembre-se de que só se pode "observar" uma partícula fazendo um fóton se chocar com ela. É como medir o giro de uma roda encostando um bastão nela: a medição afetará o giro.
E, na verdade, tudo isto apenas mostra que certos dados, sobre o estado das partículas, não podem ser conhecidos com precisão. Não se trata de os dados serem relativos e subjetivos, pois eles não podem variar segundo a vontade do observador. São apenas dados mais ou menos inacessíveis.
Voltemos ao giro da roda: se ela girava a 30km/h e, quando você pôs o bastão, ela desacelerou para 28km/h, é este valor que você medirá. Mas isto é subjetivo? Ou relativo? Não, é perfeitamente objetivo: sua medição mostra o valor de um giro de roda que foi afetado por um bastão, de um certo modo. É verdade que você não obteve a medição que pretendia, mas mediu outra coisa - e esta coisa é objetiva: um bastão afetando uma roda.
O que temos são dados objetivos, porém de eventos diferentes. Não há dado ou distorção subjetiva. E isto porque, na verdade, é o ato da observação que afeta o objeto, e não o observador. E, pra ser mais exato, a observação não afeta nem o objeto, mas somente a situação do objeto. Capra não sabe a diferença e, por isso, em mais uma afirmação confusa, ele manda essa:
"A característica crucial da física atômica é o fato de o observador humano ser necessário, não só para observar as propriedades de um objeto, mas também para as definir."
Parece dizer que o observador é essencial para o objeto - e logo para o Universo. Mas significa apenas o que acabamos de ver: que a observação afeta a situação do objeto. Só que é dito da pior maneira: em vez de "a 'observação' é 'uma das causas' do 'fato observado'", Capra simplifica para "o 'observador' 'define' o 'objeto'"! E, então, muitos entendem até que objetos não podem existir sem observador - ignorando assim todas as evidências de que o Universo existiu por bilhões de anos, sem ninguém pra ver.
Tiro de misericórdia: Capra ignora a descoerência, fenômeno que nos mostra o óbvio: não é apenas o ato humano de observar que causa o "colapso da onda", mas qualquer interferência sofrida pela onda, seja de elétrons, fótons ou o que for. O observador humano e sua consciência nada têm de especiais. E é irônico, agora, ver por que a onda não colapsa em experimentos controlados: é porque ela está perfeitamente isolada, seja do observador humano, seja de qualquer partícula - isolada, coisa julgada impossível em O Tao da Física.
Tantos devaneios, e fica pior.
Entre os maiores absurdos de O Tao da Física temos, por exemplo, a idéia ridícula de que a razão é "masculina" e a intuição é "feminina": "O yang, o poder forte, criativo e masculino, estava associado com o céu, enquanto que o yin, o elemento sombrio, receptivo e feminino, era representado pela Terra". Se isto não é machismo, eu não sei o que é...
E seria novidade? A cultura oriental é extremamente patriarcal.
As únicas coisas realmente femininas ou masculinas são os seres vivos do tipo sexuado. Mas claro: é uma longa tradição, na jamais escrita História da Filosofada, taxar como "femininas" ou "masculinas" uma coleção de coisas sem sexo, de objetos a conceitos nebulosos, na sempre irresistível tentação de dar eloqüência e enlevo a afirmações bobas.
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Outra: "Os resultados da física moderna (...) podem levar-nos até Buda ou até à bomba atômica, e compete a cada cientista decidir que caminho tomar". Ou seja: quem discorda de Capra é, automaticamente, apologista da guerra, da destruição e da morte. Isto é que é apelação!
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E ainda na introdução, enquanto não é preciso argumentar e o leitor ainda ignora o que virá, Capra aproveita pra soar radical: "os padrões que os cientistas observam na natureza estão intimamente ligados aos seus modelos mentais, com os seus conceitos, pensamentos e valores". É fácil entender isto assim: dois cientistas, um ateu e outro religioso, observam as mesmas células; um vê DNA, outro vê "energia vital". Ou seja: as mesmas observações mostram padrões diferentes, conforme os vieses subjetivos de cada observador – o que é ridículo e, embora pareça, Capra não o diz. Por que ser tão vago?
A mensagem real, depois fica claro, é tola como sempre: se a ciência visar ao lucro, pesquisará a parte da natureza cujo estudo gere riqueza; se a ciência valorizasse a saúde dos escorpiões, pesquisaria escorpiões - e, é claro, enxergaria outros padrões aí. Se você pesquisa X, observará padrões de X; se pesquisa Y, padrões de Y. Conclusão: grande coisa!
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O Tao da Física foi escrito em 1975, mas em 1982 Capra retornou, com um posfácio. Quem o esperava mais ponderado, deu de cara com: "O novo tipo de interconexão que emergiu recentemente (...) faz surgir a possibilidade intrigante de ser possível relacionar a física subatômica com a psicologia de Jung e talvez mesmo com a parapsicologia". E ele deixa essa afirmação no ar, sem ao menos dizer do que se trata. Sem comentários.
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Num dos piores parágrafos do livro, Capra acusa o dualismo cartesiano (a idéia nada científica de que mente e matéria são substâncias diferentes) de ser a principal causa das tragédias do mundo. E o raciocínio é uma pérola:
"Esta fragmentação interior espelha a nossa perspectiva do mundo 'de fora', visto como uma multiplicidade de objetos e acontecimentos separados. O meio ambiente é encarado como se se tratasse de partes separadas a ser exploradas por diferentes grupos de interesses. A visão fragmentária estende-se à sociedade, dividida em diferentes nações, raças, religiões e grupos políticos. A convicção de que todos estes fragmentos - em nós próprios, no nosso meio ambiente e na nossa sociedade - estão, de fato, separados pode ser tomada como a razão fundamental para as presentes séries de crises sociais, ecológicas e culturais. Tem-nos afastado da natureza e dos seres humanos nossos semelhantes. Acarretou uma grosseiramente injusta distribuição das riquezas naturais, criando conflitos econômicos e políticos; uma onda de violência crescente e imparável, espontânea e institucionalizada, e um meio ambiente feio e poluído, onde a vida se tomou muitas vezes física e mentalmente pouco saudável."
Esta passagem é, sem dúvida, a semente de O Ponto de Mutação, de 1982. E quanto simplismo! Isto é obviamente ridículo, posto que: antes de Descartes, o mundo já era dividido em facções e, obviamente, tanto mais cheio de guerras quanto mais se recua no tempo; mesmo o Oriente, com sua "visão orgânica", é dividido em países, religiões e grupos políticos; a ciência ocidental, ao contrário das religiões, é materialista em vez de dualista.
E nem seria preciso dizer tanto. É óbvio que uma simples idéia filosófica, sobre a natureza da consciência, jamais poderia direcionar o comportamento dos indivíduos, o tratamento do meio-ambiente e toda a organização social e política. A colocação de Capra, que virou livro, é exatamente o que parece: a opinião irrefletida de um físico-místico sobre questões psicológicas e sociais.
Concluindo: a Dança de Shiva e de Capra <<
Quando o senhor Fritjof Capra admite que a Dança de Shiva é, afinal de contas, apenas uma metáfora para falar do Universo, é só para ele poder dizer que a física moderna também não passa de uma espécie de metáfora sobre a realidade: "Quer o deus bailarino quer a teoria física são criações do espírito: modelos para descrever a intuição do seu autor acerca da realidade".
Ocorre que a teoria física não é "criação" da mente de ninguém, e sim uma descoberta. A elaboração de teorias não é guiada por imaginação, mas por fatos. A mecânica quântica, por exemplo, não é mais "criação humana" do que a geometria. E extraterrestres jamais reinventariam Shiva, mas redescobririam a física quântica e a geometria, porque estas são verdades independentes da mente de seus descobridores.
É bastante adequado, então, que o ícone central da proposta de O Tao da Física - a Dança de Shiva - revele-se também o ícone ideal para simbolizar toda a confusão que permeia a obra: ora tratando a dança divina como a exata realidade, ora assumindo que é pura imaginação - e então fazendo o mesmo com tudo o mais que sustenta a obra - o autor vai enredando o leitor em um texto cheio de ambivalências e contradições dissimuladas.
O Tao da Física foi apenas o início. Nele, ainda podemos ler (apesar do que vimos há pouco): "a visão orgânica do mundo não é vantajosa do ponto de vista da construção de máquinas, nem adequada para lidar com problemas técnicos de um mundo superpovoado". Capra concedia que a "visão limitada" do (suposto) dualismo ocidental era, embora incapaz de alcançar a "verdadeiro saber", adequada à tecnologia e aos problemas mundanos da sociedade.
Mas ele mudou de idéia.
Em O Ponto de Mutação, Capra resolveu que a sua "visão orgânica" não era boa apenas para descrever partículas ou "intuições" de sábios orientais, mas para quase tudo no mundo - até para acabar com a fome! Hoje, em sua obra mais recente (Conexões Ocultas), ele chega a citar Morowitz, e sua Teoria de Gaia, com aprovação: "a vida é uma propriedade dos planetas, e não dos organismos individuais". Pelo visto, um astronauta que saia do planeta estará morto, embora ainda fale, pensa e seja saudável.
O Tao da Física, vale lembrar, ousa até explicar o porquê de a ciência ocidental ter cultivado uma tradição tão "mecanicista" e "limitada", abrindo mão do "conhecimento superior intuitivo" hoje típico dos orientais. A explicação é incrível: a idéia de lei fundamental, que é o cerne da visão mecanicista, teve origem na tradição judaico-cristã e em sua idéia de um legislador divino. A ciência ocidental é limitada, segundo Capra, por culpa do cristianismo!
Mas... Ele mudou de idéia.
Em 1991, participou de outro livro, desta vez tratando das semelhanças entre "a nova visão de mundo" (a mesma de O Tao da Física) e, adivinhe, a teologia cristã. Você leu certo: em Pertencendo ao Universo (título redundante, magnificamente Capriano!) não só a física moderna e a fé oriental têm paralelos entre si, mas ambas têm paralelos com o cristianismo! Pelo visto, a suposta influência cristã na ciência ocidental não pode ter sido tão má assim.
Por essas e outras, não admira que o físico Fritjof Capra tenha suas obras listadas em "ocultismo" na biblioteca virtual do Projeto Democratização da Leitura. Tampouco causa espanto ver O Tao da Física ser oferecido no site Submarino junto com O Segredo, o mais recente clássico da temerária pseudociência quântica de quinta, com sua já famosa "lei da atração".
O Tao da Física, é claro, é pseudociência quântica de primeira.
É, na verdade, o manifesto fundador do movimento.
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Encerro citando Brian Greene, em O Tecido do Cosmo. Ao falar sobre o fenômeno da conexão entre duas partículas distantes (que Capra usa para dizer que "tudo está em tudo"), parece que Greene lembrou de O Tao da Física:
"Na interpretação de algumas pessoas, isso significa que 'todas as coisas estão conectadas a todas as demais' ou que 'a mecânica quân-tica nos emaranha a todos em uma única totalidade universal' (...). Esses arrebatamentos, ainda que eu aprecie o sentimento por eles produzido, são exagerados e insustentáveis."
E citando a bela passagem de Carl Sagan, que eu evidentemente escolhi a dedo para a ocasião. É de O Mundo Assombrado pelos Demônios:
"Algumas religiões orientais, cristãs e da Nova Era (...) afirmam que o mundo é irreal, que o sofrimento, a morte e a própria matéria são ilusões; e que nada realmente existe a não ser a "Mente". Em oposição, a visão científica predominante é que a mente constitui o modo como percebemos o funcionamento do cérebro (...).
Há pessoas que desejam que tudo seja possível, que não querem nenhuma restrição à sua realidade. Elas sentem que nossa imaginação e nossas necessidades requerem bem mais que o relativamente pouco que a ciência nos ensina a ser razoável ter como certo."
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por Paralelo, 10 de dezembro de 2007 / 6 de janeiro de 2008
------------------------------------------ Extras do DVD:
• Discuta esta matéria em nossa comunidade do orkut, Aventura Humana
• E-books de Fritjof Capra (incluindo O Tao da Física)
• E-book de O Universo Elegante, Brian Greene
• E-book de O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Carl Sagan
• Site A Tal da Física, separando a física do misticismo
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