![]() ![]() ![]() | "O Ser é e não é possível que não seja - essa é a senda da persuasão, porque atrás de si tem a verdade" - Parmênides de Eléia, Sobre a Natureza (séc.V a.C.) | |||
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A Substância da Realidade Matéria, pensamento, tempo: de que são feitos?
? para Maíra, que o poder da loucura filosófica se revele! ______________________
Esta é considerada por muitos a maior de todas as questões.
Mas dita assim, de forma tão direta, não parece grande coisa. Pois o que querem dizer com "princípio" de todas as coisas? A pergunta nem mesmo é clara. Será que perguntam sobre o que é o começo de todas as coisas? O Big-Bang, ou a vontade de Deus, não seriam resposta suficiente, neste caso? Ou será que se trata de qual princípio moral se deveria extrair da realidade em seu todo? Talvez, pelo fato de que as coisas existem, alguém conclua que devamos ser bons, ou outra conclusão óbvia qualquer...
Seja como for, o ponto é: e daí?
Esta é a reação típica a muitas questões filosóficas e, então, talvez o maior de todos os mistérios seja o de por que a filosofia parece tão maçante. Este texto é, em parte, uma tentativa de consertar isto. E nada melhor do que usar a maior de todas as questões como isca. Vamos devagar, pois boa parte da filosofia parece chata justamente porque as pessoas perdem o fio da meada e, assim, continuam lendo algo que não estão entendendo.
Vou começar explicando de que se trata o problema - e, aliás, não se trata nem do começo do Universo, e nem de princípios morais! Feito isto, vou mostrar a importância e o alcance da questão já que, no primeiro momento, ela parece tão desimportante e desvinculada do mundo real. A seguir, vou contar a interessante história das tentativas de responder ao problema.
Na parte final, vou dar o meu mais novo palpite sobre o tema.
Boa leitura!
1. De que é Feito este Problema? <<
Imagine que o Universo fosse feito de peças de Lego, como naquelas paródias de filmes de sucesso como Star Wars e Homem-Aranha. Nós, os habitante Legais (err...) deste Universo, talvez começássemos perguntando, à francesa, como os antigos pesquisadores:
de que é feito, ó, de que é feito? de que é feito meu corpo?
A resposta? Plástico.
A seguir, perguntaríamos de que são feitas as mesas e cadeiras, as roupas, a teia do Homem-Aranha, as armas dos jedis, o chão, as árvores. E a resposta, sem surpresas, seria: plástico.
Então, parece que estamos muito perto de dizer que, em nosso Universo de Lego, tudo é feito de plástico. Pois bem, esta é a nossa resposta Legal para a maior de todas as questões: qual o princípio de todas as coisas? Ou qual a substância da realidade? Se as coisas do mundo fossem "puro Legos", então o princípio de tudo seria o plástico.
E é disso que se trata o problema: querer saber qual é o princípio de todas as coisas é, mais ou menos, o mesmo que perguntar "de que é feito o Universo?", ou "qual a substância primordial da realidade?".
Outros leitores podem ter se irritado com algo ainda pior: esses bonecos de Lego do exemplo falam, agem, pensam. Será que este pensamento deles poderia ser feito de plástico? E o tempo entre o antes, o agora e o depois, será feito de plástico? Ora, se tempo, espaço e pensamento não são feitos de plástico, então é mentira que tudo é feito de plástico.
Parece que algo saiu errado.
Será que o plástico é apenas uma das substâncias, enquanto espaço e pensamento seriam outras? Afinal, quem disse que deve existir só um princípio?
=)
Seja bem vindo à problemática da substância da realidade.
Obviamente, a coisa é pior do que parece. O mundo real não é feito de peças de Lego, e mesmo que fosse, não seria preciso lidar com espaço, tempo e pensamento para ficar perplexo: cedo ou tarde os habitantes Legais veriam que o plástico, afinal, é feito de moléculas. Estas, por sua vez, seriam feitas de átomos que, por sua vez... Quem sabe onde isto vai parar?
Por hora, deixe o Lego de lado e pense no mundo real: todo mundo acha normal, por exemplo, supor que um muro é feito de tijolos, e os tijolos de barro, e o barro de argila e água. Mas de que é feita a argila? Quem ainda desconhece química, poderia supor que, oras, argila é argila. É o máximo que a nossa visão alcança, afinal: olhe a argila bem de perto e você só verá argila. Portanto, não é feita de nada, só da própria argila.
Se esta opinião intuitiva fosse correta, então a argila seria aquilo o que, em filosofia, se chama de substância sui generis, isto é, uma substância que só pode ser explicada com base nela mesma: argila é argila.
Certas coisas, como tijolos e vasos, são feitos de argila, e em filosofia dizemos, então, que tijolos e vasos se reduzem à argila, isto é, são redutíveis a ela. Outra maneira de dizer o mesmo, é dizer que vasos e tijolos são derivados da argila. Mas a argila, por sua vez, não é feita de nada. De novo, dizemos em filosofia que a argila não se reduz a nada, ou seja, ela é uma substância irredutível - ou básica, que não deriva de nada: sui generis.
Claro que sabemos que a argila é feita de silício, que é feito de átomos. Paremos nos átomos, por enquanto. Precisei usar a argila como exemplo de "substância básica" (mesmo ela não sendo) porque até hoje ninguém jamais encontrou uma substância que com certeza fosse básica. Até onde sabemos, todas podem ser derivadas de coisas ainda mais básicas.
Como veremos, o pensamento, o fogo, a água, o tempo, o ar e até os números, além da luz, dos átomos e do espaço, tudo isto já foi considerado sui generis, e alguns continuam sendo. Por outro lado, alguns foram provados como derivados de outras coisas - por exemplo, a água deriva dos átomos - e outros dividem opiniões: será o pensamento derivado da matéria? Ou não é feito de nada, isto é, pensamento é pensamento?
Ou outra alternativa: será que, ao contrário, é a matéria que deriva do pensamento? Essas dúvidas bastaram para dividir o mundo em materialistas (a mente é produto do mundo), e idealistas (o mundo é produto da mente). E isto nos leva à grande importância do tema, seja na história, seja em nossas vidas.
Não preciso dizer que ser idealista ou materialista implica a diferença entre, por um lado, crer numa vida eterna e, por outro, pensar que só se tem mais uns 40 ou 60 anos de crédito pra gastar. Só isto já seria suficiente para que o nosso probleminha da substância estivesse sempre na ordem do dia! Porém, há muito, muito mais em jogo, como veremos.
Vou começar supondo que o chamado "materialismo" é correto.
Imagine que, tal qual no Universo de Lego, só existe um princípio, uma só substância da qual tudo deriva: a matéria. Dito assim, parece apenas um outro nome para "plástico". E é mesmo. Por isso, continua sendo difícil ver como espaço, tempo e pensamento possam ser "feitos de matéria".
Mas acredite: não é impossível.
Veremos isso depois.
O importante é que, se tudo for mesmo matéria, as portas do Inferno parecem se abrir: o mundo é apenas energia em forma de partículas e forças, que obedecem totalmente às leis da física. Assim, todos os processos são deterministas, e isto inclui o nosso cérebro. "E daí?", pergunta o distraído. E daí que o seu cérebro é comandado pelas mesmas leis da física que controlam o resto da matéria. Assim como os físicos sabem quando será o próximo eclipse, também poderiam saber (se conhecessem os seus trilhões de sinapses e tudo o que te cerca) tudo aquilo que você fará em 22 de julho de 2009 - que, por sinal, será o dia do maior eclipse solar do século.
Ou seja: você não é livre. Tal qual um asteróide ou um computador, seu cérebro obedece às leis da física. Isso é ruim, mas fica pior. Sem liberdade, não há responsabilidade moral. Tudo o que você faz não poderia ter sido diferente. Se, após um estupro, você desse rewind no Universo e voltasse até o momento em que o (ainda não) estuprador estivesse em dúvida, considerando os prós e contras do crime, e então desse play, tudo aconteceria exatamente do mesmo modo. Sempre. Era impossível o estuprador evitar o crime.
Assim como o raio não tem culpa de cair, e a nuvem de chover, também ninguém tem culpa de fazer o que faz, afinal. O mundo da matéria é um filme em DVD, em que o final já está decidido - e o final parece sombrio.
Mas mal começamos a apreciar a tragédia. O pior de não sermos livres é perder nossa responsabilidade moral. Mas antes mesmo de nos lamentarmos, a pobre Moral já estava sendo atacada por outro lado, e virou fumaça! Pois se "tudo é matéria", e se o Bem e o Mal não podem ser coisas materiais, então eles também são ilusões. A Moral é ilusão. Não existem "boas" ou "más" ações, apenas ações - é o que parece declarar o materialismo.
E não adianta olhar para a imensidão das estrelas, atrás de consolo. O Universo é grande, sim, mas não serve pra nada. Existe por acaso, à-toa. Não vá pensando que alguma "Inteligência" criou toda essa matéria com algum propósito, afinal a inteligência (essa mesma que alguns não têm na cabeça) é derivada da matéria, e não o contrário. O Universo e a vida, a vida inteligente inclusive, não possuem propósito ou finalidade: não possuem sentido.
Bom, façamos um balanço até aqui.
Ousamos perguntar: qual o princípio de todas as coisas?
E nos disseram: a matéria, somente a matéria.
O que "ganhamos", até agora, parece ser um mundo sem Deus, onde estamos sozinhos e desapareceremos pra sempre quando morrermos, onde não existe liberdade, onde estupros não são culpa dos estupradores e, talvez o pior de tudo, nossas existências são completamente gratuitas e sem sentido.
Maldita seja a matéria!
Então, que tal se experimentarmos dizer que a matéria não é o único princípio de todas as coisas, mas que há um segundo? Digamos que tudo seja feito de matéria, menos a nossa mente. A mente não é derivada da matéria, mas irredutível à ela. Onde isso vai dar? Ah, agora as coisas podem ficar boas!
Primeiro, uma Inteligência Imaterial pode, sim, ter criado toda essa matéria com um propósito. A seguir, nossas mentes, sendo independentes da matéria do cérebro, podem ser livres e, portanto, capazes de fazer escolhas. Talvez, após dar aquele rewind no Universo, nosso quase criminoso pensasse de outro modo e escolhesse evitar o estupro - afinal, sua mente não estava presa nas interações materiais fixas e pré-determinadas dos neurônios.
Mas, ei! É a mente que sente dor ou prazer, não? Então o Bem e o Mal não são materiais, mas existem. Existem na mente! Então, se alguém escolhe cometer o estupro e, assim, causar o Mal, é culpado e merece justa punição.
Por fim, se nossa mente está livre da matéria cerebral, não há razão pra pensar que desaparecemos quando o cérebro parar de funcionar. Nossa mente pode continuar, indefinidamente. Eis a vida eterna.
E, assim, parece que bastou acrescentarmos um segundo princípio em nossa resposta e, como mágica, recebemos de volta uma por uma de todas as coisas sagradas que havíamos perdido no materialismo: sentido, moral, justiça, vida eterna, liberdade e a companhia grandiosa de Deus.
Por incrível que possa parecer agora, sou materialista. Claro que pintei um retrato o mais horroroso possível do materialismo, e sei que muitos críticos vão achá-lo perfeitamente fiel. Sem surpresas, penso que o materialismo é bem melhor do que fiz parecer. Se estou certo ou errado, é outra coisa. Mas espero, acima de tudo, ter mostrado a enormidade que está em jogo aqui.
Se tive sucesso, agora a nossa questão sobre "o princípio de todas as coisas" deve estar muito longe de soar fútil e estéril, como parecia ser no início.
3. Uma História sui generis <<
Considerado o primeiro filósofo e cientista da humanidade, o grego Tales de Mileto não só propôs a questão, como foi o primeiro a respondê-la. Qual o princípio de todas as coisas, segundo Tales? A Água, ou o "líquido fundamental" que está na base de tudo, e do qual a água que bebemos é apenas uma forma. E sim: fogo, pensamento, vida, argila, tudo seria "feito de Água". A Água, é óbvio, não seria feita de nada: Água é Água - sui generis, pois.
De onde Tales tirou isso? Ele notou que as coisas em geral são úmidas, e que ressecamento significa deterioração e morte. Boa sacada. Mas deve ter sido difícil convencer os outros de que o fogo fosse feito de Água!
A seguir, Anaxímenes, Heráclito e Xenófanes, por aquela época, fizeram outras apostas: ar, fogo e terra, respectivamente, foram declarados o princípio de tudo. E você está com a sensação de que não vamos chegar a parte alguma simplesmente trocando o nome da substância! Você tem razão.
Mas novidades surgiram.
Questões sobre como e por que a substância origina todas as coisas se apresentaram. E isto é seriíssimo: se "tudo é ar", por que não existe apenas uma extensão infinita e homogênea de ar? Por que do ar derivam coisas mais elaboradas, como pedras, vida e fogo? O palpite de Anaxímenes é vago, mas engenhoso: o ar condensado é o frio, o ar distendido é o calor, e daí o resto decorre. De repente, vemos que a substância pode ter "modos": condensada e distendida, por exemplo. Já é um começo!
Agora veja que guinada inesperada: Pitágoras disse que a substância é o Número. Percebendo as regularidades matemáticas que existem na natureza, ele defendeu que os números são a essência da realidade. Uau! O pitagorismo degenerou em uma seita estranha, mas a idéia central, que ficou em banho-maria ao longo da história, se tornou mais atraente do que nunca em nossa era da computação. Alguém pensou em Matrix?
Mas, então, Anaximandro já havia dado um palpite original: a substância fundamental seria qualitativamente indeterminada, isto é, um coringa capaz de se tornar todo tipo de qualidade: água, fogo, uva, mercúrio, etc. Seu nome seria a-peiron. Mas a posteridade não decidiu se ele era uma resposta genial ou só um nome pra nossa ignorância. Postular um princípio sem qualidade definida, mas que poderia se metamorfosear em quaisquer qualidades, parecia fácil demais pra ser verdade. Fato: a idéia não vingou.
Empédocles, antes de Platão, rompeu com a idéia de um princípio único, e falou nos famosos quatro: ar, terra, fogo e água que, combinados, dariam origem a tudo o que se vê. Parmênides, no que até hoje não se sabe se é um jogo de palavras, disse que a substância básica é "o Ser" - e como veremos, o seu insight nada besta, de que o não-Ser não é, pode ser importantíssimo.
Outras sugestões apareceram, mas foi Platão quem fez diferença.
Os Tempos de Glória da Metafísica <<
Até aqui, os filósofos elegeram elementos físicos como a substância da realidade (os números eram pontos físicos para os pitagóricos). Mas Platão não apenas disse que os princípios, em vez de um, eram dois. Ele acrescentou que o segundo princípio era não-físico. E, deste modo, separou a mente da matéria, fazendo surgir o chamado dualismo. Como Platão fez isso?
Lembra-se quando, no Universo Lego, vimos que os bonecos de plástico pensavam? Perguntamos: o pensamento deles é "de plástico"? Platão, ali, diria um sonoro não: tudo é de plástico, menos o pensamento. Ou seja, para Platão tudo é físico, menos o pensamento. Ou melhor: tudo é físico, menos aquilo que o pensamento pensa. Mas o que o pensamento pensa?
Para Platão, o pensamento é uma espécie de "sexto sentido": enquanto os cinco sentidos captam a "substância sensível", isto é, a "substância física" que os filósofos chamaram de a-peiron, fogo, água, etc., já o pensamento nos permite captar o que ele chamou de "substância inteligível", ou seja, o mundo das Idéias, a realidade que está "por trás da física", isto é, metafísica.
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Vale à pena parar pra entender isto: note a página que você está lendo agora. Esta aqui mesmo: www.suasticazul.hbe.com.br/filosofia/substancia.html. É que há um código "por trás" dela, o código HTML. Seus sentidos não entram em contato com ele, você não o vê. Mas ele não só existe como dá origem ao que você vê aqui. Não por acaso, há trechos do código chamados de metas. O HTML é o equivalente da metafísica. E esta página equivale ao mundo físico.
Vejo um trecho da "metafísica" desta página:
<p align="justify" style="margin-top: -1; margin-bottom: -1; text-indent:50; margin-left:5; margin-right:15"> </p>
"Welcome to the real world" diria, com Platão, o Morpheus de Matrix.
Pois é, Neo, há algo "por trás" do que você vê e toca.
Para Platão, o mundo físico é só uma sombra da verdadeira realidade.
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Um argumento elegante: por que Sócrates se dirigiu à prisão? As causas do movimento foram físicas ou metafísicas? Isto é: qual dos princípios, o físico ou o inteligível metafísico, causaram o movimento de Sócrates?
Platão nos diz: o corpo de Sócrates, com os movimentos conjugados de ossos e músculos, que fizeram suas pernas caminharem até a prisão, são apenas o instrumento usado para executar o movimento. Mas a verdadeira causa não é física: Sócrates foi até a prisão por causa da sua vontade, que é pensamento e, portanto, algo não físico.
O que faz um ser vivo se mover, portanto, é sua alma. Obviamente (?) não é possível um corpo se mover sozinho se não tiver uma "força interna" capaz de impulsioná-lo. Esta força é imaterial, é anima, alma, "princípio de vida". A vida, portanto, também é metafísica.
Isto convenceu a humanidade por 2 mil anos!
Depois de Platão, o debate sobre a substância não foi mais o mesmo. Críticas surgiram, mas sem eficácia: parecia impossível explicar de que modo o pensamento poderia ser físico, afinal. E, pra piorar, os cristãos logo dominariam o mundo e, tendo feito suas as teses de Platão, congelaram o debate por mil anos. Era a Idade Média, onde o dualismo platônico foi o dogma central.
E é óbvio que o dualismo é central para a Igreja até hoje, já que tanto Deus quanto nossas almas são concebidos como entes imateriais.
Mais tarde, já às portas do Iluminismo, Descartes tornaria o dualismo de Platão ainda mais sólido e radical, concebendo a mente como a única coisa da qual nos é verdadeiramente impossível duvidar: agora a matéria nem mesmo era uma substância autônoma, mas possível fruto da mente! E eis que o mundo foi dividido em idealistas (a mente é tudo) e realistas (a matéria é tudo).
Num momento propício, Kant aproveitou para dizer que tempo e espaço nada mais são do que partes do pensamento, matando assim mais dois coelhos muito serelepes! Os realistas (materialistas) ficaram atrás na corrida até o século XIX, afinal parecia inconcebível que realidades intangíveis como espaço, tempo, vida e pensamento pudessem ser coisas materiais em qualquer sentido.
Materialismo: a maior virada de mesa da história! <<
Mas as coisas começaram a mudar com Charles Darwin, em 1859.
O mecanismo físico da seleção natural, por ele descoberto de forma genial, era o princípio do fim para a tradição platônica. Mostrou a maneira como a vida poderia surgir da matéria: bastava que moléculas assumissem um padrão capaz de se copiar, e então a complexidade naturalmente aumentaria com o tempo. Numa anotação perfeita, que sintetiza a revolução ocorrida, Darwin comentou a idéia platônica de que nosso conhecimento a priori (como "2 + 2 = 4") teria origem em uma "preexistência da alma". Assim ele assinalou:
"No lugar de preexistência, leia-se macacos."
Era um xeque-mate!
Nenhuma "alma imaterial" era necessária, afinal (detalhes aqui).
Agora faltavam o espaço, o tempo e o pensamento.
Foi a vez de Albert Einstein.
Ele primeiro mostrou o que parecia impossível: a matéria afeta o espaço e o tempo, fazendo-os se distorcerem. Onde há matéria suficiente, o espaço é recurvado e o tempo começa a transcorrer numa velocidade diferente. Espaço e tempo existem concretamente, portanto. Pior para Kant. Mas o desfecho era melhor ainda: Einstein provou que a distorção do espaço-tempo era a própria aceleração da matéria, e que a matéria era uma forma de energia.
E voilà: E = mc². A energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. Einstein é Einstein, pois. O bloco do espaço-tempo é uma bolha de energia maleável, cujas partes podem se "condensar" em alta energia, isto é, partículas com massa. Matéria! Agora faltava só o pensamento.
Sr. Alan Turing, pode entrar!
Injustamente pouco celebrado e, muito pior, condenado à prisão por ser homossexual (pelo que se suicidou), o gênio da Teoria da Informação obteve a chave de como a matéria, sozinha, poderia pensar, ter vontades, memória, conhecimento. E a resposta é: do mesmo jeito que os computadores já fazem, ou poderão fazer. De fato, nenhum computador pensava na época de Turing. Não havia computadores. Ele é o pai da computação!
Quando disse que a causa de Sócrates ir para a cadeia era metafísica, Platão estava olhando pros detalhes físicos errados: é verdade que músculos e ossos não causaram o movimento de Sócrates, mas os neurônios sim! Eles são, em nós, o equivalente dos chips dos computadores, isto é, são processadores de informação. Captam inputs ("estou condenado à prisão"), processam tais dados e, então, emitem outputs ("músculos e ossos, levem-me até a cadeia").
Um robô pode fazer isto e, de fato, foi o que Sócrates fez.
*****
A virada materialista foi absolutamente impressionante, e não só pelos resultados que obteve, mas pelo modo como os obteve. Platão havia começado uma tradição apática de "busca da verdade através do pensamento puro", e até Kant e Descartes o seguiram neste tipo de especulação às cegas. A ciência empírica, por outro lado, fez o favor de olhar para o mundo real, e conseguiu mais resultados em um século do que os filósofos em dois milênios!
Entrementes, ficou provado que nenhum filósofo e nenhuma metafísica podem, por si sós, conceber as complexidades e sutilezas do mundo real.
O pensamento puro é um cego no labirinto.
A Última Fronteira do Materialismo <<
Então a matéria, ou energia, é a substância-prima da realidade?
Ao que tudo indica, sim. A matéria não é como uma página da web, mas como o próprio código HTML por trás dela. É a substância fundamental, é o primum do qual tudo é feito e deriva. Parece um slogan brega da Nova Era, mas sim, "tudo é energia". Ou não. A verdade é que nem tudo está resolvido. Ainda falta algo no quadro. Não é a vida, nem o tempo. É a consciência.
É isto o que afirmam os modernos dualistas: a consciência é sui generis. Lá fora há ondas eletromagnéticas, e um robô pode processá-las. Um robô pode distinguir tais ondas no trânsito, e saber quando avançar o sinal ou parar. Mas enxergar o vermelho e o verde, isto só seres conscientes podem fazer.
Então, se o leitor torceu o nariz para a afirmação de que um robô pode pensar, ficamos assim: pensar é apenas processamento de informação, e isto um robô pode fazer sem dúvida. Mas a sensação de pensar é outra coisa, é a consciência. E esta é a última fronteira do materialismo.
A verdade é que ninguém faz a menor idéia de como a energia, seja em forma de partículas, espaço-tempo ou informação, pode originar as sensações subjetivas, os sentimentos, a sensibilidade em primeira pessoa, em suma, o Eu, o "alguém em casa" que há dentro de nossas cabeças.
Será que a consciência é um princípio autônomo?
Será que a consciência é irredutível à matéria?
Estamos em 2008 e, uns 25 séculos depois de Tales, este é o ponto em que todos estão encalhados na tentativa de responder a sua pergunta.
Ninguém sabe a resposta.
Os dualistas, a maioria defendendo Deus dos ataques materialistas, vê no chamado mistério da consciência a desculpa para postular o imaterial, e aí a metafísica do divino fica sã e salva. Se a consciência não pode ser material, é óbvio que só pode ser imaterial. Pior pro materialismo ateu, melhor pra Deus.
Mas os materialistas possuem respostas vigorosas. Primeiro, quem disse que a consciência não pode ser material? Ainda não se sabe como, é verdade, mas também ficamos 2 mil anos sem saber como vida, pensamento, espaço e tempo poderiam emergir da matéria, até que descobrimos.
Além disso, não somos anjos. Assim como bebês e macacos não podem entender Einstein ou Darwin, humanos adultos talvez não possam entender de que modo a consciência emerge da matéria - embora haja um modo. Se há ETs com uma cognição diferente da nossa, podem ter resolvido o enigma de forma fácil e óbvia, mas jamais conseguiriam nos explicar.
E tenho outro palpite: embora não saibamos como a consciência surge da matéria, talvez possamos saber que precisa ser assim. É impossível a um robô apenas "processar as ondas eletromagnéticas do semáforo" sem, afinal, ver o vermelho e o verde. Processar imagem implica ver. Processar os dados do exterior implica o pensar. Processar um dano implica doer. E assim por diante. Isto minaria a idéia de que seria possível um robô inconsciente.
Mas o argumento decisivo do materialismo é: o dualismo não ajuda. Se a matéria não explica a consciência, uma mente não material tampouco o faz. A "alma metafísica" não explica nada, afinal.
E assim estamos, por hora.
A seguir, farei a esmerada defesa de minha hipótese atual sobre qual é a tal substância da realidade. A consciência continuará sendo um mistério, é verdade, mas talvez todos os outros problemas se resolvam.
Existe um problema com a matéria. Mesmo que a consciência seja feita de matéria, e que esta seja a substância da realidade, uma dúvida persiste: por que a matéria existe? De onde veio toda esta substância? Se for verdade que a matéria é o princípio de todas as coisas, então este poderá ser um incômodo eterno. Não pode haver explicação de por que a matéria existe, a não ser num caso: se provarmos que era impossível a matéria não ter existido.
Mas isto parece francamente absurdo. Até onde podemos ver, parece óbvio que a matéria poderia nunca ter vindo a existir. Parece uma possibilidade lógica perfeitamente legítima. E então? Se poderia não ter existido, por que ela existe, afinal? Não sabemos, jamais saberemos. Ou então podemos mudar nossa tática: se a matéria poderia jamais ter existido, o que não poderia?
Será que há alguma coisa cuja inexistência é algo impossível?
Assombre-se: vou argumentar que sim.
E, se existe uma coisa assim, então ela é a perfeita candidata a ser o princípio de todas as coisas. Afinal, ela não teria o problema da matéria, a qual não podemos saber por que existe. Ao contrário, desta vez a resposta seria óbvia: a nova substância da realidade, que vou propor logo mais, existe porque é impossível que ela não exista. Conclusão: origem do Universo explicada!
Para conhecer meu palpite, vamos entrar num vespeiro.
A Verdade Abstrata Está lá Fora <<
Isto é um fato?
É uma verdade?
É algo que existe?
Eis um problema que divide opiniões há milhares de anos: Platão diria que sim, e os materialistas tendem a dizer que não. Mas por que esta questão incomoda tanto os dois lados do debate, e até quem está no meio? É que ela espreme o pensador racional entre a bizarra extravagância da metafísica e o vale-tudo niilista do relativismo. Vejamos:
Se "2 + 2 = 4" é algo que só existe na mente, então outras pessoas ou culturas poderiam, sem estarem erradas, ter "outra matemática" onde dois e dois somassem cinco, mas isto soa absurdo. Por outro lado, dizer que "2 + 2 = 4" é uma verdade universal, um fato objetivo, nos leva a admitir a existência de algo imaterial, ou seja, metafísico - mas isto é até pior: parece ser preciso imaginar os fatos matemáticos como "entidades" flutuando em algum lugar.
As verdades abstratas incluem não só fatos matemáticos, mas também fatos da geometria e lógica, por exemplo. Você sabe: dois vezes dois produzem quatro, a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180°, o valor de pi é 3,1415, nada pode ser A e não-A ao mesmo tempo, etc.
Tais "coisas" existem de verdade, ou apenas em nossas cabeças, sendo abstrações do pensamento humano? Quem afirmar que elas existem, precisa explicar como isso se dá. Afinal, não tocamos em números e nem vemos estruturas lógicas voando por aí. Já quem afirmar que elas não existem, precisa explicar como dois e dois poderiam somar cinco ou, se isto for impossível, como algo "da nossa cabeça" pode estar totalmente fora de nosso controle.
Uma solução típica para este impasse é tentar comer o bolo e tê-lo, isto é, querer as duas coisas: tanto as regras abstratas (matemáticas, geométricas e lógicas) são verdadeiras, quanto são criadas pelas nossas mentes. É simples: uma regra é verdadeira quando nós convencionamos que ela é verdadeira. Por exemplo: se decidirmos que certa disposição no xadrez é um xeque-mate, então passa a ser verdade que se trata de um xeque-mate, graças a nós.
O mesmo funciona com as regras do futebol e o valor das moedas: por nossa causa, é verdade que existem gols e moedas de 10 centavos. Do mesmo modo, seria por nossa causa que algo como "2 + 2 = 4" seria verdadeiro, pois um dia nós assim decidimos e concordamos que deve ser. É uma convenção.
Frustrado com a solução?
Eu estou, e muito.
É claro que amanhã podemos decidir, se quisermos, que não existe mais xeque-mate no xadrez, que só existirão moedas de 15 centavos, e que o gol ocorre quando a bola bate na trave. Mas não podemos decidir, mesmo se for de nosso interesse, que "2 + 2 = 5", que um círculo tenha um valor de pi maior que 3,1415 ou que uma mesa possa ser azul e vermelha ao mesmo tempo (do que até poderia sair uma bela decoração!). Essa diferença é crucial. Ela mostra que as regras abstratas não são convenções.
Portanto, elas existem independentemente do pensamento humano.
Há um bom modo de enfatizar isto:
A matemática, por exemplo, foi descoberta pela seleção natural, antes de existir qualquer inteligência consciente na Terra. Tomemos o caso da visão: a imagem que chega à retina só tem duas dimensões, e nenhuma informação sobre o que está distante ou próximo. O cérebro, sem que o seu dono saiba, aplica um cálculo de trigonometria para deduzir, das imagens 2D levemente diferentes em cada olho, o que está perto ou longe na cena. Até um bebê é capaz de diferenciar o distante do próximo, e bebês (pra não falar em insetos) não conhecem trigonometria: algo no cérebro (e fora da mente) faz as contas.
A conclusão retumbante é que os fatos matemáticos são tão reais e tão independentes da mente humana, ou de qualquer mente, que podem ser usados até no funcionamento da fisiologia das bactérias, quando algo nelas calcula o custo/benefício do gasto de energia em determinada ação.
Não havia nenhum ser inteligente aqui, muito menos humano, quando a seleção natural, com sua cegueira automática, "descobriu" ou, de todo modo, "fez uso" de regras matemáticas na construção de olhos, ouvidos, dentes, etc.
Não resta muito a dizer neste ponto: as leis matemáticas, geométricas e lógicas existem de verdade, objetivamente, "lá fora", não tendo elas nada a ver com a nossa existência, nosso modo de pensar e nossas convenções. É por isso que, no filme Contato, as inteligências extraterrenas acham muito simples nos traduzir seus símbolos. O símbolo para "verdade", por exemplo, aparece ao lado de ••|•• | ••••, que é uma conta correta. Já o símbolo para "falsidade" é acompanhado de um ••|••• | ••••. A foto ajuda a entender o padrão.
"A matemática é a linguagem do Universo", conclui a protagonista!
Então, já que as verdades abstratas existem, como elas existem?
Esta é a nossa próxima e principal questão.
De que Modo o Abstrato Existe? <<
Adianto que as verdades da matemática, geometria e lógica não existem como "entidades flutuando em algum lugar". Não são "coisas" em sentido algum. E é isto o que tanto incomoda os materialistas: essa absurda substancialização das verdades abstratas - que era, adivinhe só, a visão de Platão. Chamadas de Idéias por ele, as verdades abstratas eram "substâncias", "coisas inteligíveis". Não eram materiais, mas tinham sua própria espécie de "concretude". Eram, portanto, feitas de outra substância, mais básica, e diferente da matéria, até superior a ela. É isto o que eu chamo de "lambuzar abstrações".
Mas o materialista e o senso comum sentem que, se os números não podem ser "lambuzados" com alguma substância que os "concretize", então eles não podem existir de modo algum, salvo em nossas mentes. Mas a verdade é que, para existir fora de nós, nada precisa existir "como coisa", mas apenas "como abstração". Foi isto o que Platão e seus adversários não viram.
Sendo assim, vamos apreender a diferença entre os dois.
Parece fácil: os cavalos existem de forma concreta, "como coisa", já os unicórnios existem "apenas como abstrações", isto é, pensamentos, delírio, imaginação - então não existem? Ora, sem surpresas há detalhes sutis aí, e Aristóteles foi quem melhor os entendeu. Em sua filosofia, o "existir como coisa" é existir em ato. Já o "existir abstrato" é um existir em potência, quero dizer, um existir como possibilidade. Mas é um existir, e é isto o que muda tudo.
Um exemplo: meu nascimento se deu em 3 de julho de 1982. A idéia de Aristóteles é que, enquanto possibilidade, eu já existia antes desta data. E depois dela, claro, passei a existir em ato - fui "atualizado", como se diz.
"Atualização". Este conceito será importante.
O que Aristóteles fez foi dividir a existência em duas: aquilo que existe como possibilidade, "em potência", e aquilo que existe "atualmente", de forma concreta. Mas a intuição humana diz que só o "existir em ato" é um existir "de verdade": eu só teria começado a existir "de verdade" quando nasci. Mas isto pode ser totalmente falso, e talvez até o oposto da verdade - contudo, calma! Não é o disparate que pode estar parecendo.
Antes, um esclarecimento: o que unicórnios tem a ver com números? O que significa dizer que ambos existem "em potência", que são possibilidades? Em primeiro lugar, o termo "possibilidade" não denota, aqui, uma possibilidade de existir, posto que ser uma possibilidade já é ser algo, já é existir.
De que tipo de possibilidade estamos falando, então?
Agora é óbvio: é da possibilidade de ser atualizado, ou se "concretizar". O número dois só existe em potência, mas quando temos duas laranjas na cesta, ele se manifesta em ato, é atualizado nas laranjas. Já os unicórnios, que se saiba, nunca foram atualizados. Continuam sendo apenas seres logicamente possíveis. Possibilidades, portanto. E existem. Existem em potência.
E é assim que ficamos: tudo o que é possível existe. Pelo menos, existe como possibilidade. Não como possibilidade de existir, pois já existe, mas sim de se concretizar. Existência e concretude, pois, não são a mesma coisa.
Agora posso responder a questão desta seção: afirmar que as verdades abstratas existem não significa que elas existam de forma concreta, como se fossem coisas soltas por aí, e sim que elas existem como possibilidades lógicas (em tese, como seres passíveis de se tornarem concretos de algum modo).
Ainda se pode duvidar de que o "existir como possibilidade" seja mais do que um jogo de palavras. Não seria bem mais realista falar em "possibilidade de existir"? Neste caso, o que é possível ainda não é existente. E parece o óbvio. O materialista está constantemente flagrando o metafísico neste ato ilícito de reificar ("coisificar") o inexistente. Não será este mais um flagra?
É bem possível que sim.
Mas Parmênides (V a.C.) tem algo que pode ajudar aqui.
Vejamos o Não-Ser de Parmênides. Como apontei lá atrás, tal insight poderia ser importante. Hora de testar isso. Atenção para as sutilezas: o Não-Ser, pra ele, é a completa inexistência. Só que tudo que é algo faz parte do Ser. Então dizer que o Não-Ser é a completa inexistência é, no mínimo, uma expressão que cria confusão. Melhor seria dizer que o Não-Ser não é existência alguma, ou seja, não existe de nenhum modo.
Mas isto é revelador! Pois faz ver que o Não-Ser de Parmênides é um não ser mesmo, a sério, total, absoluto. Você entenderá o grau enorme de tal inexistência quando souber que Parmênides te proíbe de perguntar algo como "e se existisse o Nada?", pois é claro que o Nada não pode existir. Pense: o Nada significa, justamente, não existir. Captou a nuance?
E o Ser, obviamente, é o conjunto de tudo o que existe.
Pois prepare-se, agora. E apenas não se esqueça de que "existir", aqui, não significa apenas o "existir concretamente".
O ponto importante é que o Não-Ser, justamente por não ser, não pode ser falado e nem mesmo pensado. Escreveu Parmênides: "não se pode pensar o que não é". Pensar o nada é não pensar. O Não-Ser é impensável. E eis o tiro de misericórdia: tudo aquilo que está fora do Não-Ser, está dentro do Ser. Tudo o que é pensável, portanto, existe! Ergo: as possibilidades existem.
Cubos, círculos, números, estruturas lógicas: tudo isto é pensável. Tudo isto existe, portanto, já que não se pode pensar o Não-Ser, o inexistente. Mas por outro lado cubos redondos, o último número, se mover parado: nada disto é pensável. E, portanto, não existe - nem mesmo em potência.
Talvez você esteja imaginando que é possível pensar o Não-Ser, pensar o Nada. Mas não é verdade. Na melhor das hipóteses, apenas imaginamos um espaço vazio e escuro. Mas isto ainda é alguma coisa. O Não-Ser não é.
Também é importante esclarecer que, enquanto tudo que é pensável é possível, nem tudo o que é possível é pensável - a 5ª dimensão é um exemplo. Mas isto não é problema aqui. Parmênides não disse que o impensável (a 5ª dimensão) é sempre impossível, só disse que o impossível (um cubo redondo) é sempre impensável - fechando o círculo: o pensável é sempre possível.
E tudo o que é pensável está dentro do Ser, existe.
"Tudo aquilo que não é um puro Nada, faz parte do Ser a pleno título", comentam G. Reale e D. Antiseri, em sua História da Filosofia, sobre Aristóteles.
E assim, a idéia de que seres "apenas possíveis" ou abstratos existem ganhou um belo reforço. Mas você ainda não viu nada.
A Impossibilidade da Não-Possibilidade <<
Na última seção evitei cuidadosamente a afirmação de que tudo o que é possível existe, pois embora seja verdade, não decorre do argumento do Não-Ser: apesar de tudo o que é pensável existir, a 5ª dimensão mostra que nem tudo o que é possível é pensável. A filosofia de Parmênides mostrou que "meras possibilidades" podem ser existentes, mas não mostrou que todas existem.
Será preciso mostrar isto de outro modo.
E é simples, na verdade. Voltemos ao ato e potência: tudo o que existe em ato, poderia não ter começado a existir em ato; por outro lado, tudo aquilo que existe em potência, não poderia não ter começado a existir em potência. Explico: o cavalo que existe de forma concreta poderia nunca ter existido. Sua existência, portanto, é contingente, acidental. Do mesmo modo, eu poderia não ter nascido, a Terra poderia jamais ter se formado, etc.
Já quando se trata de entidades e possibilidades lógicas, como números, círculos e unicórnios, tudo muda. É simplesmente impossível que um unicórnio jamais fosse, ou deixasse de ser, uma possibilidade lógica. O que é possível, é possível necessariamente. Em outras palavras: o que existe como possibilidade, existe porque seria impossível que não existisse.
Seja o seguinte: o lance de cara ou coroa. Em cada lance existem duas possibilidades, mas apenas um desfecho concreto. Boceje: duas potências e um ato. O lance "coroa" pode ou não se concretizar, mas necessariamente é uma possibilidade. É impossível não ser assim. E o mesmo vale pro "cara", óbvio.
Tudo o que é possível existe.
Só o impossível não existe.
Amém.
Agora posso, afinal, declarar "oficialmente" o que há muito já deve estar óbvio para o leitor: a substância da realidade aqui proposta é a própria "verdade abstrata", ou o conjunto das possibilidades lógicas (que inclui as geométricas e as matemáticas, além de tantas outras, como as algorítmicas). E, sendo assim, a substância da realidade acaba nem sendo, veja só, uma substância de fato: ela seria "feita" da mesma essência insubstancial de que são "feitos" os números.
A essência da realidade é, pois, a impossibilidade de inexistir.
Repito: a mera impossibilidade de não existir.
É apenas deste modo que as realidades abstratas existem.
Precisávamos de alguma "coisa" que, diferentemente da matéria, não só existisse, mas cuja inexistência fosse impossível. E por fim encontramos. Agora não precisamos explicar "por que a verdade abstrata existe?" ou "de que é feita a verdade abstrata?": ela existe porque seria impossível que não existisse.
Em suma: se não existissem energia ou matéria, partículas ou células, vida ou consciência, espaço ou tempo, ainda assim dois mais dois seriam quatro, de verdade, realmente, pois este é um fato impossível de apagar da realidade - e nisto se resume a existência insubstancial do princípio de todas as coisas, a até aqui dita "substância" (agora entre aspas) da realidade.
E no entanto eu pretendo tirar estas aspas.
É o que veremos depois, na parte final desta viagem. Mas antes...
Obviamente, todos estão se perguntando: se as verdades abstratas são realmente existentes e, também, são o princípio de todas as coisas, então isto significa que a matéria concreta é "feita de" meras possibilidades lógicas. Ou dito de outro modo: o existente em ato deriva do existente em potência. Mas como uma coisa dessas é possível? Por que um tipo de existência se torna o outro tipo? Por que possibilidades se concretizam?
Bem, não se concretizam.
(Coloquem seus assentos na posição vertical.)
Não existe concretização.
Não existe atualização.
Não existem substâncias.
Não existe matéria.
...
Como eu já disse, não é o que parece. Explicarei o significado de tudo isto logo mais, quando for o momento de responder a uma pergunta-chave.
Mas outra pergunta já começa a esclarecer as coisas por aqui: se todos os universos existem na esfera do possível, por que somente o nosso Universo foi concretizado, ou atualizado? A resposta é que nenhum Universo foi jamais atualizado, e nunca existiu ou existirá "atualização" de espécie alguma. O ponto é que todos os Universos, inclusive o nosso, existem "apenas na esfera do possível" e, então, é isto o que significa existir.
Não apenas "tudo o que é possível existe", como também "existência" é o mesmo que "ser possível". Não existe algo como ser possível e concreto.
Mas agora que chegamos a tal ponto, as palavras perderam totalmente o seu significado original! Aprendemos que "potência" era uma potência "de se tornar ato", e que "possibilidade" era, igualmente, uma possibilidade "de se concretizar". Porém não existe ato do qual se possa ser potência, e nenhuma "concretude" é possível. Ao se eliminar o ato e o concreto, então a potência e a possibilidade perdem seu referente e, portanto, devem mudar de nome.
Como eu disse, existir é o mesmo que "ser possível". Mas se ser possível é o mesmo que existir, ou seja, se é a única forma de existência, então o que costumamos chamar de ser "possível" é, afinal, ser real. Melhor ainda: é ser.
A essência da realidade é a impossibilidade de inexistir.
Existem inúmeros tipos de possibilidades lógicas - ou, como deveríamos dizer aqui, realidades lógicas. Imagine todas as combinações em que se pode dispor as 26 letras do alfabeto: são infinitas. Todos os livros possíveis estão aí incluídos. Imagine todas as formas geométricas possíveis. Ou todos os jogos de xadrez possíveis, todas as séries de 0 e 1 da informática (que incluem todos os algoritmos que o Linux pode rodar), todas as séries A, T, C e G (incluindo o conjunto de todos os corpos vivos baseados em DNA possíveis). Não há fim.
Nosso Universo não é um livro ou um corpo. E não é possível assegurar que ele seja um algoritmo. Mas ele é algum tipo de possibilidade lógica, e agora vamos supor, como exemplo, que ele seja um algoritmo - como o Windows XP e o padrão de processamento de informação do cérebro.
Estamos acostumados a pensar que algoritmos só podem "rodar" quando baseados num meio concreto: o Front Page onde digito este texto depende de um chip processador físico para funcionar. Mas aqui vale o oposto: a hipótese é que as coisas ditas "concretas" é que são um algoritmo, afinal.
Uma excelente razão para supor que o Universo [e o cérebro, aliás] seja um algoritmo é que qualquer coisa capaz de implementar as leis da física [e os padrões mentais] será uma produtora de resultados com base em regras, e seja lá o que for isto, será um algoritmo. As possíveis exceções não importam aqui.
Bom, vamos às conclusões.
Algoritmos são informações, isto é, são exatamente um tipo "puro" de possibilidades lógicas e, como tais, são insubstanciais, sem cor ou extensão no espaço. Então, afinal, eis a pergunta-chave:
Como poderíamos estar cercados de algoritmos e, mais do que isso, sermos nós mesmos apenas algoritmos, se aquilo que vemos e sentimos é colorido, espacial, pesado e, em suma, concreto?
A maçã de Eva e de Newton é a convidada de honra agora.
Você sabe: as maçãs não são vermelhas. Elas são objetos que emitem ondas eletromagnéticas de um certo tipo, que o cérebro traduz como vermelho. Mas o vermelho está no cérebro, não na maçã. Pelo menos no caso das cores, isto é consenso científico. Mas o mesmo pode ser verdade no caso da solidez e da extensão espacial, por exemplo. Nada impede.
E isto nem é tão difícil de imaginar como parece: a solidez das paredes só diz que não podemos atravessá-las, o que é verdade, mas não diz o porquê disto. Pois nada impede que certos algoritmos sejam programados para serem impenetráveis: eis a versão algorítmica das leis da física. Mas se você está pensando que coisas "insubstanciais" como bits e algoritmos não podem ser impenetráveis, pense nas paredes de qualquer game 3D, como Tomb Raider ou Half-Life, e verá o erro: tais paredes "não passam de bits", mas são até mais sólidas do que as paredes ditas "reais", porque absolutamente impenetráveis.
E é isto: toda a sensação de "concretude" é só a maneira como uns bits (nós) percebem, lêem ou processam outros bits (o mundo dito "concreto"). As paredes não são concretas do mesmíssimo modo que as maçãs não são vermelhas. Ou melhor (muito melhor) do que isto: as paredes são concretas do mesmíssimo modo que as maçãs são vermelhas.
Estranhou a mudança de rota?
É que chegou a hora de tirar as aspas da "substância" da realidade.
É que as maçãs são vermelhas, afinal. Pense melhor: o que significa um objeto ser "realmente vermelho"? Talvez que o objeto, em si mesmo, de algum modo "seja" vermelho. Mas o "vermelho" não é o tipo de coisa que possa "fazer parte" de um objeto. Depois que a ciência descobriu os detalhes da luz, dos olhos e do cérebro, isto ficou óbvio. O vermelho, como cor, é relativo à visão, ou seja, é um tipo de rótulo para processar informação em forma de imagem.
Se não há qualquer coisa vendo a maçã, isto é, processando a imagem da maçã, então o "vermelho" não pode existir de forma alguma. Mas ele também não pode existir se a maçã, ou outro objeto, cujas propriedades são o tipo de coisa que impressiona a mente humana como vermelho, não estiver lá.
Mas agora que descobrimos a verdade, estamos livres para afirmar que maçãs são vermelhas de fato, pois "ser vermelho" é possuir uma propriedade que, percebida por mentes do tipo humano, será "lida" como vermelho.
Outra vez, as paredes podem ser concretas no mesmo sentido. Se algo "ser concreto" significar apenas possuir uma propriedade tal que, percebida por nós, é "lida" como concretude, então as paredes são concretas de verdade. E poderia ser diferente? Há muito tempo que a ciência já não vê os átomos como "bolinhas sólidas", mas como padrões - padrões! - de energia. A solidez, o peso, a dureza, a substancialidade, a concretude, tudo isto existe de verdade, mas existe da mesma forma que o vermelho.
Da solidez, convenientemente, só restou a única coisa que importa: a resistência que nós sentimos ao lidar com as coisas que, exatamente porque nós sentimos como resistentes, são realmente sólidas.
Eis, portanto, a conclusão final e maior desta investigação: assim como existir é ser possível, ser substancial é ser percebido. A substância (agora sem aspas) da realidade nada mais é, portanto, do que a realidade quando esta é percebida por algum processador de informação.
Mas como assim tudo isto ainda é materialismo?
Será difícil convencer os dualistas, os idealistas e, ainda mais do que estes, os próprios materialistas, de que a tese aqui defendida é o materialismo no grau mais extremo possível. Mas é exatamente isto o que esta tese é.
Vejamos:
Dualismo não é, porque a realidade aqui tem essência única.
E, surpresa!, idealismo também não é. Longe disso: como a essência da realidade é a impossibilidade de inexistir, é óbvio que tal essência não depende de mente alguma para existir. Os fatos matemáticos, por exemplo, não precisam ser pensados para que sejam fatos reais. O princípio de todas as coisas não é a mente, e nem depende desta: a mente é só um tipo de possibilidade lógica, que não é especial a não ser para nós, os seres com mente.
De fato, nossas mentes são fruto da seleção natural que fez evoluir o cérebro. Nada disto é mentira. Nosso Universo é um enorme algoritmo para um cenário majestoso, com quarks, planetas e galáxias. Quando Einstein descobriu que as partículas são feitas de energia, não significou que as partículas fossem "ilusão". Do mesmo modo, dizer que a energia é um processamento de bits, não torna a energia e, a seguir, as partículas, coisas "ilusórias".
Então eu tenho duas boas opções para me afirmar como materialista: a primeira é dizer que a matéria é o resultado que percebemos da simulação. Com as devidas explicações, isto não significará que a matéria é "falsa", tal como não é falso o vermelho. Mas uma segunda opção é melhor ainda: mudemos a definição de matéria, de um modo justificado. Vale à pena esmiuçar isto.
A "matéria" sempre foi a "coisa" que nós percebemos, não? Que ela seja dura, substancial, extensa, dinâmica, tais propriedades só nos faziam perguntar do que a matéria era "feita". Pois bem, é feita de bits. Bits são a matéria. Qual o problema nisto? Uma frase, por acaso de Lênin, subscreve isto plenamente:
"A única 'propriedade' da matéria, cujo reconhecimento está na base do materialismo filosófico, é a propriedade de ser realidade objetiva, ou seja, existir fora de nossa consciência."
Ora, parece que isto basta.
Ser material é ser objetivo.
E isto é justamente o que os bits e, como eles, todas as possibilidades lógicas, são - e no grau máximo, porque impossíveis de inexistirem. Além do mais, o "espírito" materialista está aqui também, e em grau máximo: só há uma substância (monismo); é exterior à mente (objetiva); pode ser conhecida por nós (cognoscível); é cega, irracional e sem objetivo (ateleológica); e não só não foi, mas sequer pode ter sido "criada" por alguma Inteligência, posto que sua existência é uma necessidade lógica (não sobrenatural).
A nova matéria, se me permitem, é o conjunto das realidades lógicas.
E como se chama o fundamento de tal conjunto? Sim, é o Logos.
Ironia das ironias, no princípio era o Logos.
por Paralelo, 11 a 27 de junho de 2008
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