Bastidores da Suástica AzulDiário da Aventura Humana v2.0Inteligência na WebFala, esculhamba, desabafa, pergunta...Comunidade Aventura HumanaNem toda a realidade é objetiva; parte dela é subjetiva

“É a inteligência que vê, é a inteligência que escuta - todo o resto é surdo e cego”

- Epicarmo, 540 a.C. - 450 a.C.

 

 

 
     

 

A Redescoberta da Mente

Nem toda a realidade é objetiva; parte dela é subjetiva

 

John R. Searle

 

Tradução: Eduardo Pereira e Ferreira, 1997

Editora: Martin Fontes

 ISBN: 8533606192

380 páginas

(The Rediscovery of the Mind, 1992)

 

É frustrante que o mistério mais genuíno e assombroso da filosofia e da ciência, até hoje intacto, seja pura e simplesmente difícil de explicar. Não por ser absurdamente complexo como a engenharia aeronáutica, ou loucamente contra-intuitivo como a teoria da relatividade - mas, de forma quase irritante, por ser simples: inconcebivelmente simples! Falo do mistério da consciência (ou da mente), é claro. Se você não o entende, isto dificilmente terá efeito, mas lá vai: como o seu cérebro, que é um objeto físico, dá origem à sua mente, que não parece ter nada de física? Eis o mistério.

 

É importante, aqui, rememorar as ideias de subjetividade e objetividade. Há a realidade e, dentro dela, pessoas, isto é, sujeitos. Pois bem: tudo o que está dentro do sujeito é subjetivo e tudo o que está fora dele, isto é, nos diversos objetos da realidade, é objetivo. Por exemplo, o Sol é um objeto físico fora do sujeito, é objetivo. Já algo como a alegria faz parte do sujeito, isto é, de sua mente ou consciência - logo, é subjetiva.

 

Isto é importante porque, para a ciência, toda a realidade é física, mas embora seja óbvio que a realidade objetiva é física, incluindo aí galáxias, cérebros e elétrons, não é nada óbvio que a realidade subjetiva seja física, pois ela inclui somente coisas como dor, alegria, reflexão, sabores, cores, etc. Um modo de enfatizar isto é notar que o cérebro, ou mesmo um neurônio, possui as típicas propriedades físicas como massa, tamanho e localização; por outro lado, a dor pode ser aguda ou crônica, ardida ou lancinante, mas não pode ser leve ou pesada, comprida ou larga. O que é a dor então? Que mágica é essa?!

 

Note que o que vale para a dor, vale para todo o resto da consciência.

 

É novidade pra você? Se for, saiba que isto não se trata de alguma viagem new age ou sensacionalismo anti-científico. Francis Crick, descobridor do DNA, pensa que a mente surge da sincronia de disparos de 40 hertz no cérebro. O cientista cognitivo Steven Pinker defende que nossa espécie não possui a inteligência necessária para entender a mente. Daniel Dennett, talvez o filósofo mais respeitado da área, diz que nada mental existe de fato (você só pensa que sente dor, mas não sente - não existem "sensações", só átomos). Roger Penrose, físico quântico, acha que a mente é o resultado de novas leis da física não-computáveis que ainda serão descobertas. E não faltam outros palpites bizarros de pesos pesados do meio intelectual.

 

O livro do filósofo John Searle, que estou prestes a cobrir de elogios, só não tem um mérito: o de explicar o que é o mistério da consciência. É preciso saber de antemão do que se trata o mistério para que, então, toda a obra faça sentido. Então, espero que minha tentativa de explicação, acima, seja de alguma ajuda. Mas, fora este inconveniente, Searle faz dois trabalhos fabulosos aqui: traz à tona, a meu ver com sucesso, o monumental engano de toda a filosofia materialista do século XX - e, pasme, ele o faz sem aderir ao dualismo (dualista é quem acredita existirem duas essências diferentes no universo: física e mental); e, além disso, também propõe, de modo esmerado, suas próprias ideias na busca de uma solução para o mistério da consciência. Ideias que talvez sejam seminais.

 

Assim, Searle começa explicando e criticando o padrão recorrente - e constrangedor - que dominou a filosofia da mente por décadas: supostamente a ciência, para ser mesmo científica, precisa estudar entidades objetivas. Então, certa corrente propõe um modo de reduzir a consciência, que é subjetiva, a fenômenos físicos objetivamente observáveis. O behaviorismo, por exemplo, sustentou que fenômenos mentais são, na verdade, nada mais que disposições comportamentais. Basicamente do mesmíssimo modo, as teorias da identidade propuseram que a mente é idêntica ao cérebro e o funcionalismo defendeu que a mente é o conjunto das relações causais na interação física do organismo com o meio. Por fim, a inteligência artificial defendeu que a mente é como um software de computador: um algoritmo executado mecanicamente por objetos físicos (sejam neurônios ou circuitos integrados).

 

(Sem falar no materialismo eliminativo que, basicamente, afirma que a mente não existe e ponto. Pelo menos, o faz de forma explícita.)

 

Em todos os casos, a consciência deixa de ser subjetiva, isto é, a coisa que experimentamos internamente, e passa a ser um fenômeno objetivamente tratável: assim, não posso observar empiricamente sua sensação de dor, que é subjetiva, mas posso ver seu comportamento de dor; ou seus neurônios em ação; ou o funcionamento do seu cérebro interagindo com o meio; ou, ainda, o seu hardware (cérebro) que está apenas rodando programas. O problema é que todos eles deixam de fora exatamente a coisa importante: a própria sensação subjetiva da dor! A coisa mental que dói, afinal de contas. Não dá pra fugir da subjetividade - mas foi isso o que os materialistas fizeram nas últimas décadas, e continuam fazendo. Na contramão, Searle quer redescobrir a mente.

 

Assim ser materialista é, para Searle, ter "horror à subjetividade".

 

Aqui há também o melhor esclarecimento que já li sobre o reducionismo: ele nunca reduziu nada mental, afinal. Ao contrário do que se alardeia, nunca reduziram as sensações subjetivas de calor, cores e ou sons, pra ficar em três exemplos, a fenômenos físicos. O que fizeram foi descobrir a causa destas sensações - respectivamente, o movimento dos átomos, as frequências eletromagnéticas e as ondas de ar - e dar-lhes o mesmo nome das sensações subjetivas. Searle ainda diz que até havia boas razões pra isso. Eu acho o cúmulo do absurdo, e direi por quê.

 

A agitação de partículas é uma coisa (que ocorre lá na panela quando a água ferve) e a sensação subjetiva de calor é outra (que ocorre apenas na mente de quem se aproxima da panela). Dar-lhes nomes iguais (no caso, "calor") é fazer questão de confundir as coisas. Por exemplo, já não é fácil como deveria eu expressar a ideia de que, em si mesma, a água fervendo não está nada quente. A quentura é uma sensação subjetiva. A água, que não tem nada com isso, está apenas com suas partículas agitadas. O diabo é que, graças aos físicos, a água está quente, já que "quente" (= "com calor") também significa "com partículas agitadas". E pode apostar que, lendo isto, a maioria das pessoas atribui à própria água fervendo uma espécie de "essência-calor", como se a sensação subjetiva de calor pudesse saltar da mente e "impregnar" a água.

 

O ponto crucial, contudo, é que esta estratégia científica de descobrir as causas das sensações subjetivas, dar-lhes os nomes das sensações e, por fim, deixar as sensações de lado e ficar apenas com as causas, nunca poderá funcionar para a consciência, porque a consciência é a própria subjetividade. Toda a história da filosofia materialista nada mais é, assim, do que a tentativa fracassada de aplicar a estratégia científica que funcionou até aqui. Mas já que a ciência varreu, por dois mil anos, toda a subjetividade pra debaixo do tapete, essa é a hora em que toda a casa já foi investigada e só restou o tapete.

 

Puxando o tapete, lá está: a consciência, com toda a subjetividade que foi deixada de lado durante a investigação. Bem, hora de investigá-la, afinal. E, não, desta vez não se pode apenas, como os materialistas vêm tentando fazer, encontrar suas causas - cérebro, disparos neuronais, algoritmos - dar-lhes o nome de "consciência" e, então, deixar o "aspecto subjetivo da consciência" de lado. Tal aspecto é a própria consciência. Fim da linha. Não há mais tapete pra onde se varrer o resíduo. O "resíduo" é o que está em questão!

 

Bem... É simplesmente grandioso o modo como Searle passa por cima de toda esta assustadora, mas desimportante, complexidade da filosofia da mente no século XX, apontando que, ao longo do tempo, tudo jamais passou do mesmo erro de sempre: uma explicação qualquer em termos de entidades objetivamente observáveis e, de soslaio, descarta-se o astro do filme, isto é, a própria consciência subjetiva que deveria ser explicada. Também aponta as táticas e a retórica da turma que, no fim das contas, está dizendo (e fingindo não dizer) este absurdo: "você não sente dor, na verdade".

 

 Ocorre que, para Searle, a mente é física, porém não é objetivamente observável. E ele critica, assim, o significado, herdado de Descartes, que a tradição materialista dá para a palavra "físico", segundo o qual tudo o que é físico é, automaticamente, objetivamente observável. Como está na capa do livro: "nem toda a realidade é objetiva; parte dela é subjetiva". Mas ambas as partes são físicas, eis o ponto. E é por isso que ele não é nem materialista (pois este acha que a mente só pode ser física se não for subjetiva) e nem dualista (pois este acha que a mente, por ser subjetiva, é não-física).
 

Nas palavras dele:

 

"Aquilo em que quero insistir incessantemente é que podemos aceitar os fatos óbvios da física - por exemplo, que o mundo é constituído inteiramente de partículas físicas em campos de força - sem, ao mesmo tempo, negar os fatos óbvios de nossas próprias experiências - por exemplo, que somos todos conscientes e que nossos estados conscientes têm propriedades fenomenológicas [isto é, subjetivas] irredutíveis bastante específicas. O erro é supor que essas duas teses são incompatíveis..."

- p. 45

 

De fato, estamos condicionados a encarar "subjetivo" como "não-físico", sobretudo porque, como eu disse no início do texto, é isto o que parece, já que tudo o que se passa na subjetividade, incluindo medos e sabores, não tem peso ou largura. Sem desvincularmos "subjetivo" de "não-físico" por um segundo, fica difícil compreender Searle e fica parecendo que ele é dualista. O fato é que, quando os filósofos da mente dizem que a mente é redutível, ou irredutível, o que eles querem dizer é que ela é redutível ou irredutível ao mundo físico. Mas o que Searle está dizendo, ao dizer que a mente é irredutível, é que ela é irredutível à ordem objetiva, ou seja, ela é irredutivelmente subjetiva - apesar de ser física. Ou você estuda cientificamente a subjetividade da mente, com suas propriedades qualitativas, sentimentos e estados de primeira pessoa, ou então você não está realmente estudando a mente.

 

Por isso ele diz:

 

"Não podemos atingir a realidade da consciência da [mesma] forma que, utilizando a consciência, podemos atingir a realidade de outros fenômenos."

- p. 146

 

Mas - dirá o materialista - "como assim estudar a subjetividade da mente? Se a ciência é basicamente uma investigação objetiva, tal pesquisa seria anti-científica". Searle responde que esta crítica não passa de mera confusão. De fato, objetividade e subjetividade ontológicas são uma coisa, e objetividade e subjetividade epistemológicas são outra. A ciência precisa de uma epistemologia objetiva, isto é, livre de preconceitos, falhas e de todos os fatores humanos (subjetivos) de distorção dos fatos. Mas isto não a impede de, enquanto se serve de tal epistemologia objetiva, abordar um fato cuja ontologia é subjetiva - e tal fato é a mente humana. Em outras palavras, a investigação científica da subjetividade não implica, por investigar a subjetividade, que a própria investigação será subjetiva. É apenas um mal trocadilho, diz Searle.

 

A meu ver o impacto mais significativo na leitura de A Redescoberta da Mente é entender que os materialistas estão apenas enrolando: fingem falar da mente quando, na verdade, deixam a mente de lado e ficam tentando, com truques de toda espécie, nos convencer de que coisas nada subjetivas como comportamento, neurônios, funcionamento do cérebro, hardware eletroquímico, são a nossa própria mente. É um caminho perdido. E quando eles não aguentam mais o ridículo de afirmar que a mente é algo não-mental, só lhes resta abraçar o diabo de vez e negar que a mente exista.

 

Mas embora Searle consiga, penso eu, redescobrir a mente, impedindo que os materialistas finjam que ela não é subjetiva, ou que não existe, ainda paira no ar a estranheza de considerar que a subjetividade seja física. Volto ao ponto-chave do início do texto: coisas subjetivas como alegria, medo e pensamento não possuem propriedades físicas como largura ou peso. Além disso parece óbvio que, se algo é físico, então deve poder ser visto e tocado ou, ao menos (se for muito pequeno, como átomos ou supercordas), objetivamente detectável de algum modo - o que não é o caso com estados mentais.

 

Diante de tudo isto, como pode a subjetividade ser física?

 

Este acaba sendo, de fato, o ponto mais delicado da filosofia de Searle e não é surpresa que ele seja acusado de dualista por muitos. Note uma das passagens mais claras - e vertiginosas - do livro, a esse respeito:

 

"Quando digo que a consciência é uma característica física de nível superior do cérebro, a tendência é entender que isto significa físico-em-oposição-ao-mental, significando que a consciência deve ser descrita somente em termos comportamentais ou neurofisiológicos objetivos. Mas o que quero dizer, realmente, é que a consciência enquanto consciência, enquanto mental, enquanto subjetiva, enquanto qualitativa, é física, e física porque mental. Tudo isso mostra, creio eu, a inadequação do vocabulário tradicional."

- p. 26

 

E, então, Searle usa outro vocabulário. E quando diz: "a consciência é física", o que muda é o significado de "física". E ele nos diz: "quando chegamos à proposição de que a realidade é física, chegamos ao que é talvez o ponto crucial de toda a discussão".

 

Ele argumenta que nós ainda pensamos o físico em termos cartesianos de res extensa (para Descartes, físico é tudo aquilo que possui "extensão no espaço"), ao passo que a própria teoria da relatividade já não considera, por exemplo, os elétrons como entidades com extensão espacial, e sim como pontos (sem extensão, pois) de massa/energia. De modo que a definição de "físico" utilizada pelos filósofos da mente, herdada de Descartes, implicaria que elétrons não são físicos. A definição é, portanto, obsoleta.

 

Infelizmente, Searle não dá o passo de afirmar com todas as letras que, portanto, a mente também não precisa ter extensão espacial para ser física, embora isto fique obviamente implícito. É uma ideia e tanto. E tampouco ele propõe alguma definição melhor de "físico". Contenta-se em repetir que, seja como for, físico não precisa significar oposto ao mental/subjetivo. A verdade é que ele está ocupado com outra estratégia:

 

"Se formos chamar de física qualquer coisa que é constituída de partículas físicas, então, trivialmente, tudo no mundo é físico. Mas dizer isto não é negar que o mundo contenha gols marcados em jogos de futebol, taxas de juros, governos e sofrimentos. Tudo isso tem sua própria maneira de existir - atlética, econômica, política, mental, etc."

- p. 41

 

Esta é uma afirmação "bomba-relógio", prestes a explodir numa série de controvérsias filosóficas: causais, metafísicas, ontológicas, reducionistas, etc.  De cara, os materialistas ficarão tentados a dizer que, na verdade, não existem literalmente taxas de juros e governos. Com Demócrito, o primeiro materialista da história, repetirão mais ou menos que "só existem átomos e espaços vazios, o resto não passa de opinião". Somos nós, humanos, que interpretamos certo trecho do turbilhão de partículas como se fosse "governo", "gol", etc.

 

E, embora Searle não lance mão desta réplica (se ele estiver certo a seguir, ele nem precisa se defender mesmo), eu lanço: "nós" humanos só podemos interpretar qualquer coisa se, afinal, tivermos mente subjetiva. Ao dizer "o resto não passa de opinião", opinião de quem? Meras partículas não podem ter opinião sobre coisa alguma. Elas nem sabem que existem. Não possuem mente. Então, precisa existir algo mais que partículas para poder formar as tais opiniões. A mente, claro. Demócrito atira no próprio pé.

 

O que Searle propõe está numa linha diferente (e, infelizmente, não posso evitar tornar o texto um pouco mais técnico agora - vai interessar mais aos entendidos no tema): a existência de taxas de juros não é mera opinião nossa, mas fato objetivo. Ele não é explícito, mas penso que está disposto a afirmar que taxas de juros são "irredutivelmente econômicas". Isto significa que, embora feitas de partículas, como tudo o mais no universo, seria basicamente errado dizer que as taxas de juros, enquanto econômicas, são nada exceto partículas. Se você desce ao nível das partículas, então você saiu daquele nível mais abrangente em que a economia, enquanto uma estrutura causal de ordem superior, com suas próprias leis, emerge dos padrões físicos.

 

Ali onde as partículas são o foco, não há economia. Ou mente:

 

Sim: é do mesmíssimo modo que a mente é irredutivelmente subjetiva. E, portanto, isto significa que, embora feita de partículas, a mente não pode, enquanto subjetiva, ser considerada nada exceto partículas. Outra vez, se você desce ao nível básico das partículas, você abandona a escala em que a as microcausas físicas compõe macrocausas mentais. No nível meramente físico não cabe o tipo de estrutura causal que, em níveis maiores, gera o mental.

 

Por isso Searle afirmará, em seu outro livro:

 

"Processos de nível inferior no cérebro causam meu atual estado de consciência, mas este estado não é uma entidade separada do meu cérebro; ele é apenas uma propriedade do meu cérebro no momento atual. A propósito, a análise de que os processos cerebrais causam a consciência, mas que a consciência, propriamente dita, é uma 'propriedade' do cérebro, fornece uma solução ao tradicional problema mente-corpo. Uma solução que evita tanto o dualismo quanto o materialismo, ao menos como são tradicionalmente concebidos."

 

- O Mistério da Consciência, p. 35

 

Em que pé estamos? Não se toca ou vê a economia. Ela é real de outro modo, mais panorâmico: implicando causalmente, por sua estrutura própria, toda uma série de consequências financeiras. E não se toca ou vê a mente. Ela é real de outro modo: implicando causalmente, por sua estrutura própria (que é subjetiva), toda uma série de consequências qualitativas de primeira pessoa e, além disso, comportamentais também.

 

Outro modo de fazer ver isto é dizendo que as causalidades econômica e mental são redutíveis à causalidade de tipo físico, porque as primeiras são consequência direta da segunda. E, no que se trata de microcausas produzindo macrocausas, está tudo bem. No entanto, o que a causalidade física gera, quando faz emergir estruturas causais superiores de tipo econômico e mental, são as realidades econômica e mental: realidades com suas próprias estruturas causais, de nível superior e objetivas (e, diz Searle, seria simplesmente ridículo negar-lhes existência) - e, enquanto realidades tais, elas são (então) ontologicamente irredutíveis à ontologia física, no sentido de que não podem ser tomadas como nada exceto partículas sem, assim, perderem sua identidade propriamente econômica ou mental. O nível das partículas, afinal, não é o nível onde caiba o padrão causal que suporta tais realidades (econômica e mental).

 

É um raciocínio e tanto, devo admitir. Se consegue o que pretende, é mesmo de cair o queixo: mostra que a irredutibilidade ontológica não implica dualismo, porque mostra que a ontologia física pode, objetivamente, produzir novos níveis de ontologia (econômicos, políticos, mentais, etc.). O que sobra de mistério (e não é pouco!) é apenas o como o cérebro faz emergir o nível causal capaz de produzir a subjetividade propriamente dita - isto é, qualidades e estados mentais, emoções, qualia, enfim. É isto o que sabemos para a economia e a política, e não sabemos para a mente. Searle nos diz que, hoje, este é um mistério tão grande quanto o eletromagnetismo era, em relação à física newtoniana.

 

Particularmente, acho bastante persuasiva toda esta argumentação. A ponto de quase concordar com tudo. O "quase" é por conta do seguinte: é um consenso dissimulado, entre todos os filósofos da mente, que a mente subjetiva é profundamente diferente e especial, porque não há meios de descrevê-la em termos de partículas físicas objetivas. Por causa disto os que não suportam ser dualistas acabam por negá-la ou (o que é o mesmo) fingir que ela não é subjetiva, e os que aceitam sua subjetividade são dualistas.

 

Exceto Searle.

 

Ele quer nos dizer que a subjetividade é especial sim, e profundamente misteriosa sim, não por ser irredutível (pois não é necessário ser irredutível à maneira de uma alma metafísica transcendente, o que implicaria dualismo), mas sim por estar tão absolutamente inexplicada até agora (como outrora foi o caso do eletromagnetismo).

 

É assim?

 

Talvez, talvez. Eu, pelo menos, ainda estou zonzo.

 

O olho do furacão está aqui: há uma tendência óbvia a pensar que a subjetividade não pode ser apenas um novo nível de estrutura causal, do modo como o é a economia, pois isto é tornar derivada uma coisa obviamente primária e elementar, a mente. Mas essa é uma sensação perigosa, já que embora este "modo como a economia deriva do físico" possa ser plenamente igual, em princípio, a seja-lá-qual-for-o-modo como a mente derive do físico, ainda assim ele pode ser inimaginavelmente diferente nos detalhes.

 

De fato, se pegarmos a analogia de Searle para o caso, foi exatamente isto o que ocorreu, do ponto de vista newtoniano, com a força eletromagnética - que até então parecia um inexplicável fantasma. Como ela foi explicada? Em princípio, o foi do mesmíssimo modo que já se haviam explicado as reações químicas e as órbitas planetárias, isto é, explicando o modo como elas fazem parte da mesma e coerente ordem natural; nos detalhes, a forma da explicação foi revolucionariamente diferente: a "coerente ordem natural" não funcionava de modo totalmente newtoniano, afinal. E, enquanto a explicação certa não veio, os campos eletromagnéticos também pareceram (na verdade, eram!) totalmente não-derivados e elementares em relação à física newtoniana.

 

Assim é que nos parece a mente subjetiva, hoje.

 

Talvez Searle tenha mesmo acertado o alvo.

 

Sim, a subjetividade tem uma positividade, uma elementaridade, que nada mais, exceto a própria física, parece ter. Enquanto tudo é de algum modo derivado e composto pelo físico, incluindo governos e taxas de juros, a mente é primária. Mas, se Searle está certo, ela vai parecer primária do nosso ponto de vista! Se ela emerge do físico, como a economia, o faz de um modo ainda misterioso pra nós. Por isso também se podia dizer com a mesma força, do eletromagnetismo, que ele tinha uma positividade, uma elementaridade, que nada mais, exceto a própria física (newtoniana!), parecia ter. A bem ver as coisas, será assim com tudo o que, em dado ponto do conhecimento, for realmente físico porém incompatível com o então aceito - e incompleto - modelo físico padrão.

 

E o mais impressionante é que, apesar de tudo o que acabei de dizer, ainda fico com a sensação de que a elementaridade específica da consciência é, de algum modo, inabalável e invulnerável a revisões no modelo físico. Não é como a força eletromagnética que percebemos de fora e que, portanto, nada impede que venhamos a descobrir ser "feita de partes menores" ou derivada em qualquer outro sentido. Não é o caso aqui: temos acesso imediato à mente, somos a mente e, mais gritante impossível, ela não é feita de partes.

 

E agora?

 

Como disse, estou zonzo. Ou esse fato introspectivo impede Searle de evitar o dualismo, ou uma análise apurada da noção de irredutibilidade de Searle se mostra compatível com esse fato introspectivo - como, cá comigo, parece ser o caso. Ao menos, não é imediatamente absurdo.

 

Seja como for, a mensagem fundamental do livro é esta: não podemos é fingir que a subjetividade não existe. Nisto, trata-se de uma obra-prima.

 

*****

 

A partir da metade do livro, após criticar o materialismo moderno com eficácia e em detalhe, Searle passa a propor suas próprias ideias. E claro que, dessa vez, o que você verá é uma filosofia da mente mesmo, que analisa enfim a estrutura de nossa subjetividade enquanto tal, ao invés de evitá-la.

 

Não pretendo entregar o ouro aqui. Serei breve: num capítulo, o autor analisa a estrutura da mente (surgem questões como: você estava consciente, há dois segundos, da pressão da cadeira contra suas costas? Diz ele que sim e que o nome disto é "consciência periférica". Eu diria que não). Ele também se deterá, em outro capítulo, na relação entre consciente e inconsciente, afirmando lucidamente (leia-se: contra Freud), que a noção de "inconsciente" nem faz sentido do modo como costuma ser entendida. Muito esclarecedor. Por fim, o autor ainda irá tratar de sua famosa tese do Background, que pode mesmo ser seminal e que aqui está aprofundada. Mas não entrarei em detalhes. Se você fica curioso com isto, então deve ler o livro.

 

*****

 

O final de A Redescoberta da Mente volta às críticas. Desta vez, uma crítica mais específica, e importante, à ciência cognitiva moderna - que parte do princípio de que o cérebro seja um computador (e que, claro, a mente seja o software deste computador). Verdade que já foi dito, de modo genérico, que nada objetivo - incluindo um programa de computador - pode ser mental, pois o mental é subjetivo. Mas aqui Searle ataca o "lado de baixo" da história: que o cérebro seja um computador, antes de mais nada.

 

Não parecerá neste meu breve resumo, mas os argumentos do autor são devastadores. Basicamente, computação é manipulação de regras, e regras são sintaxe. Mas a sintaxe está apenas na mente do observador, jamais sendo algo intrínseco à física. Dentro de um computador, não há nada obedecendo a regra alguma. Há mera cascata causal à qual nós, observadores, atribuímos uma sintaxe (que não está lá, mas em nossa atribuição). A consequência é que nada é, em si mesmo, um computador, e que tudo será um computador, em relação a nós, se nós lhe quisermos atribuir sintaxe - inclusive as partículas de uma parede que, em algum ponto, estarão seguindo um padrão isomórfico a, digamos, o algoritmo do Microsoft Word.

 

Sendo assim, o cérebro só é um computador trivialmente, à medida que nós lhe atribuímos sintaxe. Não significa nada. Isto implica dizer que a noção de "computação" só existe em relação à subjetividade do observador e que, assim, ela é completamente inútil para explicar a própria subjetividade deste. Antes, depende dela. Dá pra dizer que a mente precisa existir antes, para poder observar a realidade e, só então, tratar algo como computador.

 

O capítulo é denso e claro. Pode apostar que Searle consegue o que promete: jogar uma pá de cal na ideia de que a mente possa ser um programa de computador. De fato, eu acreditava nisto e agora acho a ideia absurda.

 

*****

 

Num campo onde gigantes como Penrose (há três realidades: física, mental e matemática), Dennett (não existe mente), Chalmers (tudo tem mente, até mesmo pedras) e Searle (a mente "emerge" da matéria) discordam tão completamente, não faz sentido fechar a mente em qualquer direção. Nada é seguro, realmente. Mas apesar de não fazermos ideia de qual é a verdade aqui, podemos ter certeza de muita coisa que está errada. E A Redescoberta da Mente é o melhor trabalho de faxina que já li nesta área.

 

Racionalista no sentido mais nobre do termo, John Searle não se detém diante da moda - pois não passa de moda! - filosófica intimidadora segundo a qual a consciência, de um modo ou de outro, tem que ser explicada, tal qual tudo o mais no universo, como fenômeno de terceira pessoa. É óbvio que ela não é. Imagine você, leitor, quando um dos maiores lógicos de nossa época, Saul Kripke, vendo todos os especialistas dizendo absurdos como "a mente é nada exceto comportamento" ou "nada exceto a eletroquímica do cérebro", tem que abrir a boca pra dizer algo tão óbvio quanto:

 

"Tudo é o que é, e não uma outra coisa."

 

Esse é o mistério da consciência, da mente e da subjetividade: o mais fascinante e enlouquecedor de todos!            

 

por Lauro Edison,

8 de agosto de 2009 / 18 a 21 de março de 2010

 

 

Extra:

 

Até tu, Pinker...

 

Sobre o erro do cientista cognitivo Steven Pinker, quando tentou refutar um dos maiores argumentos de John Searle. No blog do site.

 

 

 

 

 

   
     
 

 

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