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“Parece-me que as verdadeiras aventuras ocorrem na Filosofia. A gente se diverte tanto quanto com um bom romance e aprende mais” - Friedrich Dürrenmatt, romancista e dramaturgo suíço, 1921-1990 |
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O Mundo de Sofia Conheça a Filosofia, mas de um modo seguro, comportado e pálido
Jostein Gaarder
Tradução: João Azenha Jr., 1995 Editora: Companhia das Letras ISBN: 8571644756 560 páginas (Sophie's World, 1990)
É muito provável, assim, que a coisa mais importante a se constatar sobre O Mundo de Sofia seja a grande contradição inerente à obra: o texto de Jostein Gaarder é, pretensamente, uma apologia entusiasmada sobre o fascínio provocado pela filosofia, a saber, o ato de tentar compreender a realidade. Nas primeiras páginas da obra chega mesmo a ser brilhante a argumentação em favor da curiosidade enquanto necessidade universal da humanidade. O ponto não poderia ser mais delicado: o estranho pensamento de que "cada um tem sua verdade" é uma das maiores (e piores) reivindicações de nosso tempo, e a aventura de Sofia Amundsen defende, corajosamente, o oposto: "Se fico grudado na televisão assistindo a todas as transmissões de esporte, tenho que aceitar que outras pessoas achem o esporte uma chatice. Mas será que existe alguma coisa que interessa a todos? (...) Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos".
Ao longo do livro, porém, aquilo que deveria ser uma demonstração de como a filosofia é fascinante em si - a ponto de interessar a todos - torna-se a constatação do oposto, quando, muito obviamente, a atenção do leitor é presa em grande parte por uma trama paralela, um enigma de proporções absurdas, e que logo em seguida se revelará desvinculado de qualquer apelo filosófico. Rumamos para um desfecho vazio e desesperado, que apenas funcionaria se o leitor também recebesse cartões misteriosos por onde passasse! Então eis, dito às claras, a contradição: por que, afinal, um apelativo enigma foi necessário para prender o leitor à narrativa? E por que a filosofia não se sustenta sozinha no livro? O motivo é simples: ela é tratada de forma comportada e superficial - como veremos a seguir.
Assim, o pior é perceber que os personagens conseguem passar por todas as vertentes filosóficas sem se deixarem envolver um mínimo nas implicações de tais ideias. Na verdade, isto acontece apenas uma vez, e logo no início do livro: Sofia Amundsen chega a tratar mal sua amiga Jorunn, em plena percepção de que esta apenas se importa com bobagens e futilidades. Por um momento o livro parece brilhante. Logo, porém, Sofia se torna uma mera alegoria exemplificativa, e passa a agir pitorescamente de acordo com as diretrizes da última teoria filosófica que estudou!
Assim as páginas vão passando e, cada vez mais, os personagens desumanizam-se. Qualquer vestígio de personalidade desaparece. Motivo? Personalidade misturada com ideias jamais resultaria num livro que qualquer pai recomendaria a um filho. Não é difícil notar como o texto se torna evasivo ao passar por pontos delicados e polêmicos. Obviamente Gaarder não cedeu, em 550 páginas, mais do que dois parágrafos a Nietzsche. Pra quê arri$car?
E o livro é tendencioso. Na verdade todos são e isto nunca será um problema. Acontece que O Mundo de Sofia é escrito, a olhos vistos, "para ser imparcial". Ora, imparcialidade não existe e muito menos seria necessária [ao contrário, aliás, do que possa afirmar toda a escola jornalística]. Aquilo que se chama de "imparcial" nada mais é do que aquilo que concorda com o senso-comum. E neste livro, que deveria instigar o leitor pensar por si, a verdade é que "a bundamolice abunda". Em contraposição a todo o esforço feito para não opinar sobre o valor de uma ou outra teoria filosófica (preferindo muitas vezes considerar cada uma delas "um pouco certa e um pouco errada", sem, obviamente, especificar onde* e por quê), é no cerne da questão que a aventura se tornará especialmente tendenciosa.
(*) Enquanto fala de filosofia natural, terreno totalmente a salvo de polêmicas, Gaarder se sente à vontade para esclarecer quais teorias falharam e onde. Porém isto deixa de acontecer posteriormente, quando das filosofias sociais e humanas. Ao confrontar Kant e Hume, por exemplo, o livro insiste que cada um estava um tanto certo e um tanto errado, mas já não arrisca dizer onde e por quê.
E o cerne da questão é a moralidade.
Então, ao passo que as ideias kantianas (de Immanuel Kant) são valorizadas durante todo o livro, o niilismo é apenas desqualificado cinicamente em não mais que duas linhas. Ora, trata-se de confrontar a ideia moralista de que "negar os instintos prazerosos - e inferiores - é a chave da felicidade" com a noção pragmática de que "somente o prazer deve ser perseguido". Se o livro fosse claramente parcial a Kant, tudo seria um saudável debate. Mas sendo "imparcial", isto se chama manipulação, sedução!**
(**) Nietzsche, por sinal, dizia que o moralismo é a maior sedução que pode haver. De fato, o "instinto de rebanho" de que ele falava está impregnado aqui.
Em todo caso, O Mundo de Sofia é um curso bem prático de filosofia. Vá lá: é útil. Toda sorte de correntes filosóficas estão apresentadas de maneira simples e concisa. Até demais. Este é o problema. Imagine um livro-curso filosófico que, para atingir muito mais leitores, se serve de um mistério fraco e apelativo. Obviamente a obra de Gaarder funcionou, isto é, alcançou mil vezes mais pessoas do que os melhores manuais básicos de filosofia costumam conseguir. Agora, isto valeu à pena? A sensação que fica é a de que, talvez, o "mérito" da popularidade pertença à trama de mistério. Isto nos faz desconfiar de que, afinal, o grandioso público do livro ficará mais interessado, após sua leitura, em romances idiotas, em vez de questionamentos e ideias.
Isto fica especialmente claro se lembrarmos o seguinte: aquilo que mais fascina na filosofia é a polêmica, sobretudo o choque da razão com as doutrinas morais vigentes - e é precisamente este aspecto que o autor parece fazer questão de expulsar de sua obra. O que resta, após tal amputação, é uma filosofia pálida e covarde, onde a razão se curva diante do socialmente aceitável. Os leitores de O Mundo de Sofia ficarão, deste modo, destituídos do aspecto mais importante da curiosidade: a mente aberta. E o que era pra ser um banquete à necessidade universal da humanidade mostra-se, quase que pateticamente, uma exposição frígida de ideias.
E o que é ainda mais estranho: a qualidade do texto é pobre. Não poderia ser mais simplista e sem graça. Nem livros didáticos são tão insossos. Mas há que se admitir: até isto deve ter contribuído para o sucesso massivo da obra, vez que um livro com mais de quinhentas páginas, para ser lido por tantas pessoas, e não tendo qualidade suficiente, de fato se beneficiaria de um estilo enfadonhamente simplificado de escrita - que muito pouco ou nada exige dos leitores. Surpreende, então, que o autor se defina como "escritor" e não como filósofo.
De todo modo, Jostein Gaarder não é um sujeito tão acrítico quanto sua obra faz crer. Em entrevista a revista Superinteressante, em 1998, lhe foi perguntado: "A filosofia pode ser acessível a qualquer um?", ao que ele respondeu de modo incisivo: "Sim, se as crianças forem estimuladas a pensar sobre o mundo que as cerca e não adestradas por doutrinas hegemônicas, sejam religiosas, políticas ou morais". Uma bela resposta. E parece que ele não quis transportar este pensamento, e possivelmente outros, para o seu best-seller, preferindo criar um livro didático, simples e, sobretudo, comportadíssimo. Ora, isto não é coisa que um filósofo faça. Mas, pelo visto, tudo bem... Afinal ele não é filósofo, é escritor!
por Lauro Edison, 17 de abril de 2010 (adaptado do texto publicado em 10.03.04, na versão antiga do site, hoje fora do ar)
Extra:
• E-book O Mundo de Sofia, link direto
• Outros e-books de Jostein Gaarder
• Jostein Gaarder à Superinteressante: 1998 e 2000
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