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"O homem sem rudimentos de filosofia passa pela vida preso a preconceitos derivados do senso comum [...] e a convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação [...] da sua razão deliberativa" - Bertrand Russell, O Valor da Filosofia

Como beleza, pureza e status se confundem com a virtudeMatéria, pensamento, tempo: de que são feitos?

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Filosofia | bloco de notas

 

  

 

 

19.05.09

É impossível ser irracional?

 

Um pequeno problema da filosofia é a aparente impossibilidade de alguém ser estritamente irracional. Somos racionais quando agimos em prol de nossos objetivos, com base na informação que temos, usando de nossa capacidade lógica. Mas parece que todo mundo faz isso e que, aliás, é impossível não fazê-lo. Podemos chamar de irracional quem dirige bêbado mas, estritamente falando, ele pode preferir o sabor do risco, ou ignorar o perigo ou não se importar tanto com a sua vida ou a de outros.

 

Quando nada disso ocorre, a pessoa não dirige bêbada, afinal.

 

Não importa o que você faça ou creia, parece que você sempre pode dizer, mesmo descobrindo estar errado: "mas eu fui racional, apenas meu objetivo era outro", ou então, "não tive as informações certas e/ou a inteligência para analisá-las". Seja como for, a conclusão será sempre que "em minha situação, qualquer um faria/pensaria o mesmo".

 

Ou assim parece.

 

Penso que a idéia de impossibilidade de ser irracional se alimenta de uma falsa suposição: a de que sempre usamos a nossa capacidade de raciocínio lógico no máximo de sua potência. Mas não é assim. Nós somos livres pra decidir usar menos do que podemos, sempre. Então, pode ser que seja evidente, para qualquer pessoa que se empenhe por 2 segundos, que 3 x 3 = 9. Mas pode não ser tão evidente que 7 x 8 = 56, a não ser para quem decida se empenhar uns 20 ou 30 segundos.

 

Ora, se é assim, certas desculpas não colam.

 

Quem dirige bêbado pode estar decidindo não analisar o problema tanto quanto lhe é possível, pois sabe que, se o fizesse, encontraria razões para mudar de atitude, o que lhe despertaria desconforto, culpa e motivação para mudar - coisa que não quer fazer agora. Qualquer um pode sentir que atingir certas conclusões será como saber o final de um filme: não tem volta. E as pessoas se protegem disso fechando os olhos.

 

Quando atingimos certa conclusão por nos basearmos em toda a informação disponível pra nós, e a analisamos com empenho suficiente, então somos racionais ainda que, por azar, nossa conclusão esteja errada. Mas quando atingimos certa conclusão porque, de forma consciente, ignoramos informações e evitamos análises que sabemos que poderiam comprometer nossa conclusão conveniente, então, sim, estamos sendo irracionais. A irracionalidade é perfeitamente possível.

 

Mas talvez haja um mistério aqui: como você pode saber que, se raciocinar mais, vai descobrir uma razão para mudar de idéia, e não ver nisso já uma razão pra fazê-lo? A resposta é que pressentir que sua idéia está errada ainda não lhe faz saber que ela está errada, e tampouco diz o que pôr no lugar dela. A verdade é que, enquanto você não raciocinar e concluir que está errado, sempre pode se enganar dizendo "ah, é bem possível que eu esteja confuso" e, então, continuar no seu erro.

 

É isto o que as pessoas fazem pra fugir à razão.

por Lauro Edison

 

 

11.06.08

Eumerdificação Pós-Moderna

 

Quando John Searle perguntou: "Michel, você é tão claro quando conversa; por que seu trabalho escrito é tão obscuro?", ele respondeu: "Isso é porque, para ser levado a sério pelos filósofos franceses, 20% daquilo que você escreve têm de ser bobagem impenetrável".

 

O Michel em questão é o Foucault, aí ao lado. Juntamente com a tal turma de filósofos franceses, ele tem uma fama de gênio intelectual quando, afinal, possui obra repleta de asneiras. A diferença é que ele ao menos o assume. Noam Chomsky, o gênio da lingüística, asseverou:

 

"Ora, Derrida, Lacan, Lyotard, Kristeva, etc. — mesmo Foucault, que conheci e de quem gostei, e que de algum modo é diferente do resto — escrevem coisas que não só não compreendo, mas a que (...) ninguém que diga que compreende pode me explicar e não tenho uma indicação de como proceder para vencer as minhas incapacidades."

 

E isto com evidente ironia. Chomsky ainda diz que até as partes compreensíveis de Foucault (supostamente, 80%, segundo o próprio) não passam de obviedades ditas com "retórica ofuscante".

 

Mas apesar de escrever obras com títulos tais como "Microfísica do Poder" [wtf?!], Foucault não consta do livro de Alan Sokal, Imposturas Intelectuais, onde são denunciados outros tantos absurdos de filósofos e cientistas sociais franceses - além de Lacan, segundo o qual o pênis equivale à raiz de -1, há nomes como Deleuze e Baudrillard, por exemplo.

 

O pior é que os entusiastas destas filosofias baratas nunca usam os argumentos em si, mas apenas citam seus filósofos prediletos como autoridades, dizendo: "Foucault disse que..." ou "Deleuze mostrou que...".

 

Muito tempo se perde com estes filósofos de quinta.

 

Já o diálogo do início é narrado por Daniel Dennett, num rodapé de Quebrando o Encanto. Ele falava sobre como paradoxos são atraentes para os leigos, despertando ao mesmo tempo admiração e humildade - afinal, se você não compreendeu, "deve ser" algo muito sofisticado e grandioso. O truque alimenta a religião (a trindade, por exemplo) e, também, a filosofia - de Foucault a Lacan. E isto explica, em parte, o fascínio que o circo pós-moderno, com todo o seu nonsense, causa em algumas pessoas.

 

A propósito, diz Dennett:

 

"Em honra a sinceridade de Foucault, cunhei um termo para essa tática: eumerdificação."

 

por Lauro Edison

 

 

27.10.07

Respeitar a opinião: o que é isso?!

 

"Respeite minha opinião. Cada um acredita no que quiser".

 

Qual o sentido da frase acima?

 

Parece ser: "não queira me obrigar a pensar como você".

 

Ser obrigado a mudar de opinião (em vez de mudá-la com base em argumentos racionais) é obviamente horrível... A maioria não sabe disso, e oprime muitas opiniões alheias. Se você disser por aí que acha sexo entre irmãos legal, ou que trabalhar é um desperdício de vida, ou que a fé em Deus é uma ilusão, não ouvirá discordâncias ponderadas. Será hostilizado, moralmente condenado e pode ser que caia no ostracismo: "se não pensa como nós, fora!", diz o status quo.

 

"Fora dissidente, nem queremos ouvir suas perversões!", dizem as boas famílias, dizem os patrões, diz a pessoa de fé. Eis a opressão

 

Ironicamente, quem mais repete o mantra "respeite minha opinião" é quem faz parte destas maiorias opressoras! Mas eles usam a frase em momentos absurdos: sempre que não têm argumentos para defender seus pontos de vista irrefletidos, se saem com "respeite minha opinião".

 

Mas, oras, quem a está desrespeitando?

 

Estão criticando, discordando, questionando, o que é diferente.

 

Neste caso, o sentido real da frase que inicia esta nota é:

 

"Não me fale de suas razões, elas perturbam minha ignorância".

 

O que deveria ser um pedido de "permita-me dizer o que penso" se tornou, em nossa sociedade medíocre, um "permita-me não precisar dizer o que penso - seria uma vergonha pra mim". Que lástima!

 

As pessoas querem esquecer que são dotadas de um equipamento sofisticado, afinado durante milhões de anos, capaz de processar dados e informações de forma quase mágica. Adorariam se ver livres de tamanha responsabilidade: "Maldito seja meu cérebro! Agora me exigem que eu pense!". E então, elas repetem o mantra vazio:

 

"Por favor, 'respeite' minha opinião".

por Lauro Edison

 

 

04.08.07

O Sabor do Materialismo em "Carne e Osso"

 

Todos estão correndo atrás do divino, do "plano superior" ou, como se diz na filosofia, do "Absoluto" que dê sentido às suas vidas. Deus, metafísica, destino, ética, alma: parece que a vida só é digna de ser vivida se formos, como diz o mestre Yoda, "mais do que esta rude matéria".

 

Mas, como calorosamente ilustra a bela canção de Moska e Zélia Duncan (que já cantou o verso "meu coração é secular"), a "rude matéria" pode ser magnífica! Ser de carne e osso, gostar da terra, do mundo físico, é muito mais fascinante e humano do que a covardia de inventar um "céu mágico" para se defender do mundo real.

 

Os religiosos e metafísicos, con-cebendo o seu corpo e  o mundo físico como "impuro" ou "inferior", abrem mão de todo calor humano, em troca de uma existência por vezes ascética, negando os desejos e instintos. Tal vida só pode ser fria e sem sal (insossa). Nietzsche chegou a sugerir que, se eles detestam o próprio corpo, que se livrem dele o quanto antes!

 

Como dizia o iluminista Diderot:

 

"Retorna à Natureza, da qual fugiste, e encontrará flores por toda parte no caminho da tua vida".

por Lauro Edison

 

 

28.07.07

Um Teísta e a Falácia do Apelo à Ignorância

 

"Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?"

- Guia das Falácias, Stephen Downes

 

"Apelar à ignorância", num debate, significa usar o próprio desco-nhecimento a seu favor. Certa vez, ao criticar a crença em Deus (de um colega com bastante experiência em filosofia), eu fui vítima desta falácia. Eu dizia: "não há provas de que Deus existe". Ele, astutamente, respondia: "mas também não há provas de que Deus não existe". E, com isso, ele acreditava sustentar a racionalidade de sua fé.

 

Mas o seu argumento, a nu, era apenas o seguinte: "não há provas da inexistência de Deus, portanto Deus existe". Claro que isto está errado. É perfeitamente possível que Deus não exista, mesmo que nunca possamos provar isto. O mesmo vale para duendes, unicórnios e o Mickey Mouse. 

 

Quando meu colega compreendia seu erro, queria inverter a situação, dizendo que eu cometia a mesma falácia. Supostamente, eu dizia: "não há prova da existência de Deus, portanto Deus não existe". Em nenhum momento, porém, eu afirmei que Deus não existe. Eu apenas disse que afirmar a existência de Deus, sem provas, é errado. A postura racional é não crer em nada, isto é, não afirmar nada: nem que existe, nem que não existe. Ser cético.

 

Sem evidência (da existência ou da inexistência de Deus), sem crença (de que Ele existe, ou de que Ele inexiste). Não acreditar em nada é muito diferente de acreditar em alguma coisa.

por Lauro Edison

 

 

15.07.07

A Paralisia do Relativismo

 

O horda dos pós-modernos continua aterrorizando o saber científico nas universi-dades. Suponhamos, por um momento, que tudo seja mesmo relativo: é possível fazer algum movimento político a partir de tal ponto de vista? Evidente que não. Como disse Alan Sokal, a esquerda deveria ter ojeriza ao rela-tivismo, pois de nada adianta dizer: "nosso feminismo é tão bom quanto o machismo prevalecente ocidental". Se tudo é relativo, não há porque combater injustiças, pois não há como afirmá-las.

 

No que tange ao conhecimento, o relativismo leva ao niilismo. Apesar dos pós-modernos alardearem que "nenhuma crença é errada", a afirmação relativista implica que "todas as crenças são erradas", pois toda crença é uma afirmação sobre o mundo objetivo - que o relativismo nega existir. Aceitar o relativismo é, segundo o filósofo Simon Blackburn, se aceitar como um solipsista cego escutando vozes, cujo pensamento gira no vácuo sem qualquer atrito. Toda a motivação derivada das crenças objetivas - isto é, da verdade - se esvairia em fumaça.

por Lauro Edison

 

 

 

 

   
 

 

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